sexta-feira, 29 de março de 2013

EPHEMERIS, -IDIS, #3
























Ou então differens, -tis

O terceiro e último round começa um mês depois da estreia do espectáculo, quando inicio um processo de troca de galhardetes com o Rui Matoso na forma de (meta-)entrevista, em slow motion e em DIFERIDO. Ou seja, a contratempo e a contraespaço. Três perguntas e três respostas em jeito de DIFERENDO pacífico, ou então uma anulação, pela DIFERENÇA, do vício da repetição. Continuamos, portanto, a falar de efemeridade.



I
A apresentação do teu trabalho (de palco) em Torres Vedras tem estado quase sempre envolvido em “questiúnculas”, no entanto o teu último “Residência (Artística)” parece ter ultrapassado uma fronteira qualquer, tendo-se tornado uma verdadeira polémica. O que consideras ser o substrato fundamental dessa polémica?

Existe uma primeira “polémica” que é de cariz meramente institucional. Sobre essa não me vou pronunciar, pois não tem rigorosamente nada a ver com o que acho ser interessante discutir sobre e à volta de um espectáculo. Todo e qualquer espectáculo é político; mas nenhum espectáculo deve ser “política”. Uma segunda “polémica”, directamente relacionada com os conteúdos do espectáculo e a percepção que deles fazem os espectadores, prende-se, a meu ver, com uma confusão entre os regimes ético e estético que no espectáculo são um só. Todos sabemos, mesmo que de forma inconsciente, que qualquer espectáculo é uma obra de ficção, e como tal não é possível confundir os conteúdos do espectáculo (por mais “realistas” que sejam) com a Realidade (seja lá isso o que for). Quando partimos para uma abolição dialéctica desse binómio ético-estético, que é (e quer-se) radical, parece-me lógico (e até desejável) que surjam reacções alérgicas. Não me parece lógico, porém, que dessas reacções alérgicas sobressaiam equívocos gravíssimos, que não me parece que sejam apenas terminológicos. Por exemplo, o conceito de “pornografia”, que não está de todo ligado à apresentação mais ou menos explícita de órgãos sexuais ou simulações mais ou menos “reais” de relações sexuais, mas antes àquilo que através dessas simulações se pretende operar no público. Ora a “pornografia”, tida no seu sentido lato, tem subjacente um objectivo claro de excitação do espectador através de uma exposição explícita do acto sexual por meio de um mecanismo de observação assumidamente voyeur. Trata-se de um mecanismo masturbatório, sempre. Nada disso se passa neste espectáculo; todas as cenas (as sexuais, que são duas ou três, e as outras todas) inscrevem-se num território de descontextualização e de atrito conceptual (readymades de cenas do quotidiano, de filmes marginais, de espectáculos de outros autores, de clichés da performance art dos anos 70, etc., etc., etc.), e nesse sentido têm, todas, o mesmo valor ético/estético. Queremos que o espectador jogue connosco esse jogo (que é um jogo de reconhecimento referencial, muito à la Pictionnary, mais do que um jogo de confrontação ou de provocação). E até poderíamos ter ido mais longe na exploração lúdica dessa dinâmica; não o fizemos pois o espectáculo tinha outras dimensões (texto, imagem, cena) que era importante trabalhar. Dizer-se que este espectáculo é “pornográfico” é grave do ponto de vista terminológico; dizer-se que este espectáculo é “indecente por ser pornográfico” é duplamente grave do ponto de vista terminológico, mas também ético/estético. Ou seja, uma cena “sexual” só pode ser polémica no contexto de um espectáculo de teatro se houver uma baralhação antitética do ético/estético com o moral: o que é que se pode e o que é que não se pode dizer/fazer num espectáculo? Ora, sabemos que não somos totalmente livres para fazermos o que nos der na real gana, mas sabemos perceber claramente a divisão (ainda que ténue) entre aquilo que é o meu “gosto” (que interessa muito pouco) e aquilo que é o meu “preconceito” em relação ao gosto dos outros (que é mais grave). Muitos dos comentários mais acesos que se sucederam à apresentação do espectáculo vieram carregados de uma abolição quase absoluta da capacidade que temos de nos compreendermos para lá daquilo que nos é dado a ver. Acredito no “teatro” como pretexto para um acto comunicacional; e, nesse sentido, acredito que o acto comunicacional será, sempre, mais importante que o espectáculo em si. E não há comunicação possível com base num preconceito. Tal como não há compreensão possível de um fenómeno artístico através do exercício da Moral. Conferir, a este respeito, a “polémica” recente que um espectáculo de Romeo Castelucci fez explodir em FrançaAir du temps? Talvez...



II
Acho interessante referires a possibilidade lúdica como via de aproximação ao espectáculo “Residência (Artística)“, mas não a identifico tanto com essa dimensão de «reconhecimento referencial, muito à la Pictionnary». Digo isto também porque visualizei entretanto uma obra da Carla Cruz, intitulada “Homofobico/Homoludens” (2007), encomenda de Serralves para a exposição Antena 3, em Torres Vedras, com curadoria do Hugo Diniz. Um trabalho que remete directamente à etnografia local, Carnaval e matrafonas. E, a partir daí, pode surgir a questão: o homem lúdico e lúbrico do Carnaval é simultaneamente o homem homofóbico do resto do ano? Apesar de afirmares que não se trata de uma «provocação» (em sentido literal, retiniano?), parece construir-se naquele território caótico um certo confronto com esse “interdito social” (tabu), mas também uma condensação de energias desestabilizadoras da identidade e dos processos de subjectivação individual e colectiva (género, auto-imagem, ego, vínculo social,…). Em “Residência (Artística)”, não consideras que o ”jogo” para o qual o espectador é convocado é muito mais inquietante e desestabilizador do que um Pictionary referencial?

Tenho alguma dificuldade em perceber o que é que pode ser realmente “provocador” e “inquietante” no contexto de um espectáculo. Tratam-se sempre de respostas “emocionais” do espectador, muitas vezes sem qualquer tipo de relação causal com o que se está concretamente a passar em palco. Sei que é possível fazer as pessoas rir, por exemplo, por meio de um sem número de artefactos teatrais, mas trata-se esse de um território que só me interessa por saber que é impossível controlar. É raríssimo eu pensar na figura do espectador nesses termos, mas sei que somos sempre manipuladores, no sentido em que damos ao público aquilo que nos apetece, não porque saibamos qual será a sua reacção. Não me perturba saber que nunca poderei ter conhecimento sobre o que se está a passar na cabeça das pessoas; pelo contrário, tranquiliza-me. Em “Residência (Artística)”, por exemplo, nunca trabalhámos no sentido de prever esta ou aquela reacção, embora tenhamos sido conscientes, sempre, que cena após cena estaríamos a retirar-lhe consecutivamente o tapete: da narrativa, da linearidade, da historicidade, da consolação, da moralidade, daquilo que se espera de um espectáculo de teatro (já agora: o que se espera??). Questionar ideias subjacentes à exposição identitária/biográfica dos actores, aos chavões do género e da sexualidade, ou ao tratamento que é dado a essas questões por fenómenos culturais específicos da cidade de Torres Vedras (o Carnaval, por exemplo), não foi nunca espaço (nem tempo) de inflexão dramatúrgica. Essas camadas existem neste espectáculo (como imagino que existam em todos), mas mais pela evidência de uma construção teatral presa ao aqui e ao agora e respectiva dimensão interpretativa/representacional por parte dos actores, também ela despida de quase todos os artificialismos inerentes à ideia de “personagem”. Os actores do espectáculo são aqueles, não são outros; a questão quase que termina aqui. Posso evidentemente elencar as inúmeras afinidades existentes entre mim e aquelas pessoas, que trazem agarradas uma ou mais razões que explicam a minha escolha, mas não me parece que isso diga algo de importante em relação ao espectáculo. O facto de serem homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou só open-minded (“categorias” todas elas presentes no grupo…) é uma dimensão que para mim, enquanto encenador, tem a mesma importância que têm a cor do cabelo, as roupas que gostam de vestir ou a música que ouvem no dia-a-dia. E isso também foi “discurso” no espectáculo.

Conheço o trabalho da Carla Cruz que citas, mas enquadro-o num território de acção artística que começa por ser, em primeiro lugar, “context-specific” (trata-se de um trabalho que só aconteceu pois partiu de um convite para a artista intervir numa realidade sócio-cultural chamada Torres Vedras), e depois visa uma operação conceptual que é absolutamente “temática”, na medida em que propõe uma elaboração artística à volta de uma matéria que advém, de um ponto vista pelo menos antropossociológico, de uma temática “de género”. Nenhuma destas assunções existe em “Residência (Artística)”; estreou em Torres Vedras porque sim, e a sua dimensão “temática”, a existir, é a do próprio espectáculo e da sua criação/construção. O título, aliás, avança desde logo, e de uma forma literal e quase gratuita, com essa assunção: um espectáculo cuja construção consistiu na criação de um espaço de residência (e a ele se confinou) e que pretendeu devolver, em palco, os resultados dessa experiência num formato a habitar os interstícios do documental e do teatral. É também por aqui que posso explicar a dimensão “lúdica” que referi atrás; ela não pertence só ao jogo que propomos ao espectador (com todos os “erros” advindos da impossibilidade de controlo das referências visuais dessa massa quase anónima que é o público), mas antes, e sobretudo, ao próprio jogo (semi-improvisado, semi-“encenado”) feito pelos actores em palco, que foi também o jogo mais vezes executado durante o período de residência: a partilha de referências na grande maioria oriundas do cinema e a criação de situações teatrais de pergunta/resposta com base nessas referências. O “Pictionnary” referencial está por detrás de muitas das cenas apresentadas em palco, nomeadamente aquelas que perturbaram mais as pessoas; quando o actor André Santos faz a célebre cena da garrafa, por exemplo, ele está a propor a construção de um ‘reenactment’ de uma das situações mais cómicas do filme “Trash”, de Paul Morrissey/Andy Warhol (1970). Metade do espectáculo foi construído assim, através de mecanismos (assumidos na folha de sala) de confiscação conceptual e inúmeros outros roubos mais ou menos subtis. Nos ensaios, estas micro-cenas terminavam sempre (ou iniciavam, consoante o caso) com a pergunta “Que filme é este?”, à qual os restantes actores deveriam responder. Trata-se de um dispositivo simples demais para dele se retirar ilações muito profundas do ponto de vista especificamente teatral, mas era essa a linha condutora mais estruturante do espectáculo: revelar um processo de trabalho que foi tão preguiçoso, gratuito e inconsequente quanto o espectáculo que depois se apresentou ao vivo. Os próprios filmes que vimos (a escolha foi cirurgicamente estratégica, claro) vivem em cima dessa atitude de marginalização em relação a uma série de chavões sócio-culturais e artísticos (Andy Warhol, Factory, John Waters, Fluxus…). O único ponto de contacto com uma dimensão filosófica mais sólida prende-se com uma atitude demissionária em relação ao Mundo (o de Agora) e as suas permanentes “questões”, que parece obrigatório ter que pôr em diálogo com o Teatro, e vice-versa. A única questão do Mundo (repito, o de Agora) que nos interessou foi, justamente, a do cansaço subjacente à obrigatoriedade de termos que ‘dizer’, de termos que ‘fazer’, de termos que ter uma visão, um ponto de vista, uma opinião, uma coloração política ou um activismo qualquer plasmado de forma chapada numa qualquer rede social. Hoje em dia temos que estar constantemente a criar ‘personas’ políticas que podem mudar de um dia para o outro; é-nos permitida a possibilidade de sermos da direita, da esquerda ou do centro, mas somos completamente banidos da voz pública se nos estivermos simplesmente “a cagar”. Se reciclar novamente a citação de Lars von Trier que usei nos comentários ao teu texto anterior, posso dizer que esta terá sido a verdadeira “pedra no sapato” deste espectáculo, a tal “história que o espectador não quis ouvir”. E é aqui que subjaz a dimensão política da nossa proposta. Não no despojamento identitário-sexual dos atores, não na provocação do formato aparentemente não-teatral, não na radicalização do binómio veracidade/verosimilhança (o actor enfia MESMO a garrafa no cu, não faz de conta), mas sim na apresentação/representação quase pecaminosa de uma atitude de demissão quase absoluta em relação ao Mundo e às pessoas.

Fora isto, haverá sempre espectadores que se inquietam com actores despidos, com música techno demasiado alta, com o facto de um filme do Gus van Sant estar a passar na íntegra numa das projecções, ou com balões a estoirar em palco (eu pessoalmente tenho fobia a balões…); estes são apenas alguns exemplos de feedbacks que recebi e que se fizeram acompanhar da palavra “provocação”; os mesmos demonstram não um nivelamento das temperaturas e intensidades de cada cena/matéria/texto/música/etc. (eu tenho consciência que são diferentes e que têm valências discursivas muito diversas no espectáculo), mas antes a certeza (que no meu vocabulário é sinónimo de “fé”) que são os espectadores que fazem os espectáculos. Sempre. Não houve qualquer intenção por parte dos criadores deste espectáculo em construir um “espectáculo provocador”, até porque todos os espectáculos (apenas e só porque são postos em cena) são sempre provocadores.






III
Arriscando uma síntese, que tem muitas probabilidades de falhar, diria então que todas as diferentes “layers” do espectáculo emergem dessa dimensão política que referes, «de uma atitude de demissão quase absoluta em relação ao Mundo e às pessoas». A partir desta verdade (tese) recorres aos dispositivos e estratégias dramatúrgicas desenvolvidas por ti mesmo e em co-criação na residência, os quais são, por sua vez, mobilizados a partir de um certo exercício do Cinismo. Acerca deste possível uso do Cinismo, afirmaste, no contexto de uma polémica anterior, «num espectáculo, aquilo que afirmo não é ironia, é cinismo». Propositadamente redigi Cinismo (atitude filosófica-psicológica com origens na filosofia grega e trabalhada por pensadores contemporâneos, nomeadamente por Foucault), de modo a diferenciar do “cinismo” senso-comum (falsidade, arrogância,…). Podes falar um pouco desse Cinismo/cinismo, enquanto “método” e no âmbito dos teus projectos artísticos ? (em geral e/ou em particular no espectáculo “Residência (Artística)“)

Em primeiro lugar, agrada-me que alertes quem quer que seja que nos esteja a ler para a distinção entre Cinismo enquanto atitude filosófica e “cinismo” enquanto falsidade e arrogância próprias dessa coisa inaudita a que chamam senso-comum. Digo isto porque me parece curioso que esta nossa troca de ideias tenha justamente começado à volta dos resultados “polémicos” de um espectáculo onde claramente os dois planos (o maiúsculo e o minúsculo) foram confundidos. Não vale a pena re-mastigar o que já foi dito anteriormente, mas parece-me evidente que, a haver um problema (ético, volto a insistir) que subjaz à percepção desse espectáculo por um determinado grupo de pessoas, esse problema advém em absoluto de uma confusão entre aquilo que se diz (o objecto) e aquilo que se quer dizer (o posicionamento do mesmo num determinado contexto). Como nos meus espectáculos um e outro são formalmente idênticos, é habitual, e até ironicamente compreensível, haver quem acredite que eu defendo o nazismo e ao mesmo tempo duvide do facto de eu me chamar Rogério Nuno Costa. Ora é este o esforço que eu, legitimamente, exijo dos meus espectadores: que sejam capazes de separar o trigo Cínico (com C maiúsculo) do joio irónico. A verdade é aquilo em que acreditamos, mesmo que isso implique deixarmo-nos enganar. E eu gosto de enganar as pessoas dizendo-lhes antes, durante e depois da farsa: “Ei! Estás a ser enganado!”. Só assim o exercício do Cinismo pode ser válido. Se mesmo assim nem sempre funciona, creio que a culpa não é minha; a Oftalmologia moderna ainda não descobriu maneira de se remover com segurança os óculos 3-D que muitos espectadores insistem em levar, acoplados à retina, para dentro das salas de espectáculos…

Ou seja, nos meus processos, o Cinismo não é uma metodologia, nem tão pouco uma finalidade em si. Assumo-o antes como um filtro (que ora amplia, ora diminui), um intensificador de sabor, um meta-aditivo. A Gastronomia contém boas alegorias para isto: existem certos molhos, ou misturas (como por exemplo o célebre molho Béchamel) cuja função é aglutinar, qual argamassa, os ingredientes-base de um prato, sem adicionar qualquer nova dimensão gustativa/sensorial, antes assegurar que a estrutura da lasagna não se desmorone. Os espectáculos (ou a Arte em geral) não servem rigorosamente para nada a não ser para ocupar essa realidade intersticial que aguenta com a merda do Mundo em cima, sem qualquer vontade de a entender (não somos sociólogos), de a tornar mais interessante esteticamente (não somos decoradores) ou ergonomicamente (não somos arquitectos nem urbanistas), ou de a corrigir (não somos poo-líticos nem madres teresas de calcutá). Tenho a sensação que muita gente é ainda “romântica” (no sentido histórico do termo) em relação àquilo que espera da Arte, sobrecarregando a assunção de que “a Arte não serve para nada” com sentidos pejorativos e quase-apocalípticos, como se isso significasse o fim da Humanidade as we know it. “A arte não serve para nada” é SÓ a garantia de que a Arte pode (ética), e não deve (moral), continuar a existir.

A fragilidade de propostas como “Residência (Artística)” reside (e resiste) nesse encontro explosivo que é a realidade a tornar-se ficção pelo facto da ficção (instalada desde logo por se tratar de um espectáculo) ser a única realidade possível. E o Cinismo parece-me ser o único discurso aceitável perante um Mundo que é, a cada dia que passa, mais “real”. Como não tenho qualquer interesse em fazer o papel do sociólogo, do arquitecto, do urbanista ou do poo-lítico, mas sabendo também que de mim é esperado que desempenhe um papel qualquer, então escolho o papel do “artista”, esse molho Béchamel gone wrong! Neste sentido, TODOS os meus espectáculos são sobre a possibilidade de, nos dias de hoje, se poderem fazer (ou continuar a fazer) espectáculos. Ou seja, são sempre meta-ficções. São sempre o duplo (ou o negativo) de uma coisa qualquer à qual chamo “realidade”. E se forem necessárias dissecações estruturalistas em relação ao objecto que nos é dado a ver, o jogo que proponho é sempre este: alguém a fazer de conta que é espectador, que no fim do espectáculo decide vir ao teu blog fazer de conta que é crítico e/ou juiz moral, para no dia seguinte fazer de conta que é o patrocinador oficial do próximo grande evento cultural da cidade de Torres Vedras… Vou travar o delírio teórico que me é habitual antes que seja tarde demais, para abrir aqui dois parêntesis, e depois concluir. O primeiro são as respostas às perguntas que um jornal generalista/sensacionalista me fez sobre o tratamento dos ‘hipsters’ no espectáculo “Residência (Artística)”. Acho que serve bem o propósito (que me parece necessário) de fechar criticamente o tema da leviandade vs. cinismo:


O segundo parêntesis é um texto escrito pela pop star da filosofia contemporânea sobre o Big Brother (programa de televisão):


Para quem não tem pachorra de ler tudo ou simplesmente para quem se alimenta de punchlines wikipédicas, subtraio uma só frase: “The common notion of masturbation is that of the ‘sexual intercourse with an imagined partner’: I do it to myself, while I imagine doing it with or to another. Lacan’s ‘there is no sexual relationship’ can be read as an inversion of this common notion: what if ‘real sex’ is nothing but masturbation with a real partner?”

E a prometida conclusão: todos os espectáculos são “reais” no sentido em que de facto acontecem, num espaço e num tempo determinados, mas isso não significa que eles sejam “realidade”. Inversamente, todos os espectáculos contêm conceptualidade, mas nem todos são conceptuais; tal como muitos até podem ser “artísticos”, o que não significa que sejam Arte. É pela vontade de entender estas duplicidades (no que isso implica de comunicar e partilhar sentidos com os meus semelhantes, pois não é possível entendermos nada sozinhos), que eu continuo a insistir na necessidade de percorrer o caminho que dá forma a um discurso artístico (o meu) e de entender o Cinismo que me é característico como uma espécie de linha de apoio permamente, ou um “assistente em viagem”. É em cima destas questões que construirei o meu próximo espectáculo: chama-se “Terceira Via™” e fechará o ciclo iniciado com “Residência (Artística)” e continuado em “Realpolitik”. A pergunta que lhe serve de base é também a prometida pergunta que deixo no ar: o copo está meio cheio ou meio vazio? Eu não queria estragar o jogo e dar já a resposta, mas cheira-me que é mesmo só um copo com água…

Rui Matoso & Rogério Nuno Costa
2012/13



quinta-feira, 28 de março de 2013

EPHEMERIS, -IDIS, #2




Bartleby & Cia.


O segundo round é um texto, ESTE, que o Rui Matoso publicou no seu blog TVedras Zine alguns dias após a apresentação do espectáculo. Apresento a seguir, à boa maneira das punchlines jornalísticas (defeito profissional?) as minhas passagens "favoritas", convidando o leitor a visitar o texto integral e respectivos comentários; é nestes, na verdade, que melhor se revelam os sintomas a que fiz referência no texto anterior.


1

O espectáculo/acontecimento é sempre resultado das circunstâncias e dos seus protagonistas, é algo da categoria dos possíveis, pois podia ser sempre de outra maneira…

2
Estamos nos antípodas da produção teatral seguindo cânones já estabelecidos: texto, actores, palco à italiana como lugar simbólico de poder, construção de sentidos… Residência (Artística) visou a criação de um hetero-espaço, de uma zona temporária autónoma, cujas regras de funcionamento se baseiam em listas de procedimentos instituídos pelo próprio encenador (Dogma '05, Terceira Via™), em conjugação com as regras definidas para este “espectáculo-tese”: 'um espaço onde se habita temporariamente, a angústia de ter que preencher esse espaço com momentos significativos, a vontade de não fazer nada, o síndrome de Bartleby aplicado à vida (não à arte), a preguiça como novo avant-garde'.

3
...há uma dificuldade interessante e a meu ver bem resolvida, que resulta da entropia provocada pelo excesso de informação em simultâneo em vários canais, e com o movimento caótico dos intérpretes, cujas acções parecem deslizar entre o ócio — (não) fazer nada de especial — e o já referido síndroma de Bartebly, na fórmula 'Prefiro não o fazer' usada repetidamente pelo protagonista no livro “Bartleby, O Escrivão” (Herman Melville).

4
Entre o ócio e a potência de tudo poder fazer mas optar por não fazer, existe um território comum que é a própria experiência do pensamento e da vontade, e da sua contrapartida que é normalmente aceite como o agir, o fazer. Do ponto de vista do senso comum, esta suspensão ('epoché') deliberada é considerada absurda e menosprezada, pois o imperativo do “produzir”, da “competitividade”, da “criatividade” ou da “inovação” é suficientemente colonizador para confortar as mentes do negócio.






















Pequena adenda sobre os Anónimos presentes nos comentários (nicknames encriptados com piscadelas de olho irónicas ao assunto em questão contam como versão ainda mais infantil de Anónimo), a ler neste post da Joana Barrios.



quarta-feira, 27 de março de 2013

EPHEMERIS, -IDIS, #1


























Never skip the intro, stay there!

Foi exactamente há um ano atrás. O espectáculo "Residência (Artística)" estreava no Teatro-Cine de Torres Vedras: pecaminosamente autofágico (como todos os que fiz até então: nada de novo!), apresentava em modo quasi-antológico todos os defeitos-apanágio do meu discurso, os mesmos que eu sei que nunca funcionaram, jamais irão funcionar, e que sempre irritam cerca de 90% da plateia. Insisto neles como quem investe num amor incondicional por um objecto inanimado — é irracional e é inútil, se calhar por isso mesmo é Amor; e os 10% de "iluminados" compensam todas as catástrofes... Era também um espectáculo sobre o "efémero" (such a cliché!...), essa qualidade (condição?) inalienável das artes que se querem vivas, e a razão (única) pela qual continuo a acreditar ser possível (logo, necessário) continuar a fazer/pensar Arte. "Residência (Artística)" estreou no dia 27 de Março porque calhou; e em Torres Vedras porque sim. Comemorava-se o espectáculo que estreava, não essa entidade patronal (qual invisível Big Brother) que dá pelo nome de "Teatro". Ou seja, dava-se o primeiro arranque público de um projecto que pretendia ser apresentado em mais sítios; por empatias diversas, Torres Vedras foi o primeiro a chegar-se à frente.

Esta minha vontade de, um ano depois, voltar a (re)mexer em palavras e imagens que muitos querem esquecidas (ou então camufladas em placebos cosméticos de baixa categoria), não tem nada a ver com uma ideia irónico-retórica de celebração "póstuma" de um espectáculo que deu a maior bronca da história das broncas "rogerianas"; tem antes a ver com o facto de, à distância de um ano, e através de um epifenómeno que continuo a achar pertinente discutir, permitir-me hoje — 27 de Março de 2013 —, a pronunciar publicamente o meu mais infectado repúdio pela instauração de um Dia Mundial que celebra o "Teatro" (essa falsa efeméride que de efémera vai tendo cada vez menos), e com isso poder, real e concretamente, enterrar um morto com 12 meses de vida. Só eu, mais ninguém, o poderá fazer... E tem que ser agora.

A minha motivação também não é a da diabolização de uma cidade que até gosto e da qual tenho as melhores memórias pessoais e profissionais; o que aconteceu, há um ano, em Torres Vedras, podia ter acontecido em Lisboa, no Porto, em Freixo de Espada à Cinta ou em qualquer outra parte do País mais ou menos (des)centralizada; e depois não tenho qualquer interesse em reactivar o mau cheiro re-mexendo na merda (em Torres Vedras há muitos moinhos de vento, if you know what I mean...). A minha vontade é, sim, a de regressar às questões importantes que a apresentação deste espectáculo levantou, que para mim são as estritamente ARTÍSTICAS (e todas as outras que o "artístico" tem por hábito parasitar), para tal utilizando o micro-cosmos que foi este espectáculo e daí inferir macro-sintomas de uma doença maior que afecta outros artistas (mais ou menos demissionários) como eu. Por exemplo: o que aconteceu, há um ano, em Torres Vedras, obrigou-me a reenquadrar não aquilo que entendo por efemeridade, ou a forma como a torno operacional nos projectos que faço, mas antes o tipo de impacto que as artes performativas (logo, efémeras) tem na vida das pessoas e a forma como as mesmas lidam com essa efemeridade. Os textos que pretendo re-publicar, a partir de hoje, explicarão melhor esse reenquadramento.

Apesar de tudo, porém, a estreia deste espectáculo e os acontecimentos que se sucederam nos meses seguintes (alguns sintomas, ainda que adormecidos, continuam em curso hoje...) não correspondeu a um wake up call, não marcou nenhuma transição estético-programática no meu trabalho, não me fez ver nada que eu já não soubesse/conhecesse. Clarificou, sim, a lista de razões que me fazem odiar o Teatro (o tal da falsa-efeméride, bem entendido...) que se faz (ou seja: vê, compra, produz, programa, fala...) em Portugal, com o que isso tem de jogos de interesses mais ou menos encapuçados, colaborações manhosas, (re)aproveitamentos políticos, enredos venezuelanos, confusões históricas entre Arte e Desporto, ou então entre Arte e Turismo, Arte e Cultura, Arte e Museologia, Arte e História (da Arte), Arte e Crítica, Arte e Artesanato, Arte e Espiritualidade, Arte e Educação, Arte e Terapia, Arte e Propaganda (Política), Arte e Merchandising (ou seja, Arte e Fashion Design), Arte e Ergonomia, Arte e Religião (e Moral), entre outras reminiscências empoeiradas da moral judaico-cristã, mas também, e sobretudo, todos os fenómenos antropossociais que circundam os protagonistas das Artes, transformando-os em gestores de marca num mercado de valores absolutamente pobre e decadente. Num plano estritamente pessoal (que posso e devo partilhar), este reenquadramento fez-me também concluir (por A + B!), que muitas vezes "bom senso" é sinónimo exacto e inequívoco de lambe-cusismo.

Em suma, Torres Vedras mostrou-me, há um ano atrás, e em modo concentrado e pronto-a-levar (na cara, e com força!) as razões que explicam o hiato ético que muitas vezes afasta artistas de público, artistas de instituições, público de instituições e instituições de tudo o resto. Essa ideia, a última das ideias românticas!, entretanto comprada pelas indústrias criativas, que diz que "todos somos artistas" (logo, que todos somos críticos, produtores, realizadores, curadores, programadores, técnicos de luz e de som, jornalistas culturais, secretários-de-estado da cultura, comentadores políticos, etc.) foi-me apresentada em Torres Vedras na sua forma disforme, na sua versão monstro: uma espécie de caricatura hiperbólica de todos os chavões da contemporaneidade artística que eu já nem discutia, e que me vi obrigado a repensar — a liberdade de expressão (artística e não só), a relação da Arte com o Poder, a ética do observador/espectador, o carácter enunciativo da Arte after Kant after Duchamp, todos os mal-estares da pós-modernidade, o papel do Cinismo enquanto discurso e enquanto ética artística, etc., etc., etc... Este meu revisionismo, hoje, é uma reacção à falta de compreensão, à ignorância, à intransigência, ao preconceito e ao enviesamento ético-moral. Mas é também uma prospecção para o futuro (o meu e o de todas as pessoas que comigo colaboraram).

Passei uma década da minha vida (e do meu trabalho) a dar razão ao Joseph Beuys; hoje, passado um ano desde o advento desse não-evento que foi a "Residência (Artística)", desejo ardentemente que o Joseph Beuys esteja a arder no inferno. É esta a maneira mais honesta que tenho de comemorar o Dia Mundial do Teatro. Afirmando: não, meus queridos, temos pena, mas não somos todos artistas...













#1
Porque não existe maneira virtuosa de se SER efémero, o método mais eficaz de apresentar os dados em jogo será talvez o da técnica do ipsis verbis — sem edições jornalísticas nem Photoshops ideológicos. O primeiro round chama-se "FACEBOCAS":


Dinis Coelho — Acho vergonhoso ainda existirem pessoas que apoiam este paneleiro com a mania que é irreverente. Este palhaço serve-se do talento das pessoas, e da sua ingenuidade, para as manipular, a este ponto tão alto de estupidez . Acho indecente andarem a roubar dinheiro com este tipo de actuações baratas e pouco fundamentadas.

ESTUFA Plataforma Cultural — pouco fundamentadas dinis?! devias ter lido a folha de sala, acompanhado o tumbler e perguntado se querias saber mais.. Acho completamente desapropriada a tua abordagem. Entratento falamos. Diana Coelho

Dinis Coelho — O que se viu no palco nao foi minimamente bem feito, foi um conjunto de cenas sem nexo deixando-vos à deriva no palco sem saber o que fazer,e cenas planeadas para chocar só porque é giro.

Roger Hipérbole Madureira — Tu sim és indecente! Chamas o Rogério de paneleiro, mas já olhaste bem para ti oh macaco da percussão?! Ainda bem que fizemos o pior espectáculo do ano! Ainda bem que não gostaste! Ainda bem que ficaste chocado! Agora não venhas falar sobre fundamentação nem acusar-nos de actuações baratas! A informação está toda à vista para os inteligentes e se não está tens 7 pessoas em palco que respondem pelos seus actos e ideologias! Tiveste a decencia de ir falar com algum de nós? Com a tua irmã por exemplo que estava lá? Suponho que não. Enfim não tenho mais nada a dizer deste rídiculo comentário enquanto interprete deste espectáculo. Boa tarde

David Bernardes — DInis venho-me juntar a festa e à troca de palavra que por vezes ofensivas sobre este espectaculo. Nada que tenha sido feito neste espectáculo foi-nos imposto até porque se olhares para a informação nós somos os sete co-criadores deste espectaculo a responsabilidade é de todos e de cada um individualmente porque no que eu fiz em cena foi onde até poderia ir e até poderia ir mais longe mas não fui porque sei que estou numa terra de mentes fechadas. Nada foi para chocar por ser giro, isso já foi feito milhares de vezes mas p´los vistos nesta terra não. Eu amo muito torres vedras e gosto das pessoas tenho sorrisos para dar a todos e como aceito que nao gostem do espectaculo aceitem tambem que não me apetece ouvir provocações porque apenas e só querem mostrar revolta e não compreensão. Sei que compreensão com este espectaculo é dificil mas peço Respeito e aconteceu em Torres Vedras mas é com toda a gente. EPah Respeitem-se se nao gostam afastem-se e não julguem. Cada qual segue o seu caminho. Um bom almoço

Ruben Monteiro — Roger Hipérbole Madureira...calminha meu amigo!Que há por aí mais macacos da percussão e eu sou um deles!Felizmente não vi este espectáculo...e como diz o David e bem: quem nao gosta que se afaste....eu já o fiz e há mt....ja deixei a minha cota parte para espectáculos que não consigo entender...talvez por estupidez ou por ignorância minha, quando o espectáculo sai furado diz-se que ninguem entendeu e é tudo malta limitada sem visão...pelo que sei houve garrafas no cu e tudo...ainda estou para perceber a intelectualidade e a arte nisto...gosto muito da minha amiga Diana Coelho e só por respeito a ela não me estendo mais...até já

Roger Hipérbole Madureira — Ruben não se trata de gostar ou não gostar, trata-se de respeitar coisa que muita gente não faz. Não considero as pessoas que não entenderam ignorantes ou estúpidas. Acho que as pessoas que não entenderam o espectáculo ou algumas cenas dele, mal informadas. Isto porque não leram a folha de sala ou não compraram a fanzine. A informação e explicação para tudo o que se passou em palco está à vista de todos e assim sendo só não sabe quem não leu. O espectáculo ao contrario do que se pode pensar não saiu "furado". Prometemos "o pior espectáculo do ano", e cumprimos com tal. Quanto à situação da garrafa no cu aconselho quem não percebeu a ver o filme "Trash" Paul Morrisey, filme que estava exposto na fanzine. Talvez assim se torne perceptível. Quanto à situação do "macaco da percussão", a única coisa que tenho a dizer é que quem insulta não pode estar à espera de não ser insultado. Mesmo que não tenha sido directamente para mim, como co-criador do espectáculo senti-me insultado e resolvi responder. Acho que esta situação infeliz deve ficar por aqui. Quem não percebeu e queira perceber tem 7 pessoas disponíveis para dar as respostas, com toda a calma e compreensão. Cumprimentos.

André Santos — O quanto é lamentável toda esta situação. Desde que a palhaçada começou que só se manda coisas para o ar, sem sequer se tentar perceber fosse o que fosse. Acho indecente, desnecessário, ridículo, infantil, patético, e mais um milhão possível de coisas, esta situação de merda que se gerou. Se não queria ver, saísse da sala, se ficou foi porque de alguma forma lhe tocou, ou mexeu. Tinha alguma coisa a dizer porque não disse directamente às pessoas envolvidas em vez de deixar comentário execráveis aqui? Um bom lado de senso comum, coragem, precisa-se parece-me. E ninguém manipulou ninguém, ninguém se aproveitou de ninguém, ninguém usou ninguém, diga-se!!! Quanto a fundamentações, só nao leu quem nao quis, já o disse o meu caro amigo Roger no comentário acima. Pergunto-me: "Será que foi adão que quis comer a maçã, ou foi a eva que lhe deu para comer?" em ambas as situações Adão comeu por que quis. Como aqui, só comeu quem quis ser pecador!!! quem não quis comer não comeu é santo! Quem comeu e depois critica é pecador reprimido. Eu sou pecador ASSUMIDO!!! E quem não gostou, e achou o espectáculo de merda, muitas outras coisas. OBRIGADO!! Queriamos que fosse o pior espectáculo do ano. MISSÃO CUMPRIDA!!

Ruben Monteiro — Sois os maiores!Se vocês são artistas eu não sou!beijinhos ;)

Pedro Fortunato — então os senhores fazem um espetáculo para uma plateia inteira, divulgam nas ruas e nas redes sociais e depois quem não gostou ou quem quer opinar tem de ir bixanar nos bastidores, não pode usar os mesmos meios? desde "O Fontanário" que a arte provoca estas paixões nos seus recetores, não podemos querer que seja tudo uma cambada de gente passiva que rece o lhes é dado sem ripostar. ou era essa a intenção dos criadores? se é para soltar a repressão do pecado é tão válido usar um espetáculo como chamar nomes no Facebook, ora essa...

Raquel Monteiro Com todo o respeito pelo que tentaram fazer, durante um espetaculo onde indecências e coisas sem nexo aconteciam resolvi ler a folha de sala. No meu entender não conseguiram transmitir nada do que lá estava escrito. Não causaram CHOQUE mas sim INDIFERENÇA, DESRESPEITO E NOJO perante as pessoas que dispuseram do seu tempo e dinheiro para apoiar um suposto trabalho de jeito. Quem expõem um trabalho seja onde for, não pode esquecer o respeito que deve à audiência. Uma vez que o espectáculo não era para maiores de 18, estavam crianças na sala que não tinham de levar com esta irreverencia sem escrúpulos. Se querem fazer alguma coisa de jeito, abram os olhos ao Mundo e trabalhem!

André Santos Desculpa cara Raquel mas não causamos choque? Então toda a polémica a volta de uma cena TEATRAL que é enfiar a garrafa no cu, tem tudo haver com INDIFERENÇA e DESRESPEITO? não me parece. Para além de que nunca mas nunca obrigamos ninguém a ir ver nada. E sim Pedro divulgamos e recebemos criticas positivas e negativas de algumas pessoas, mas sempre com respeito como qualquer cidadão comum, não vieram aqui "bixanar" como referiste insultando as pessoas. E minha cara Raquel quanto à faixa etária do espectáculo, não sabes muita coisa a esse respeito! Se soubesses talvez não referias esse ponto, mas essa também é uma questão que me ultrapassa. E na minha opinião é algo que tem haver com a entidade produtora de um espectáculo. E não entremos por "abrir os olhos ao Mundo" por nem tu, nem eu, nem ninguém conhece o mundo todo!E se falas tanto por não abres tu os olhos ao mundo, ao invés de andar a perder tempo com estas coisas. Se chamas irreverencia sem escrúpulos a uma cena teatral o que chamarás a um video pornográfico que hoje em dia todas as crianças tem acesso? A privatização das coisas dá pano para mangas, e lamento não vou discuti-lo contigo, tenho bem mais que fazer. E quanto ao dinheiro que gastas-te fala com a estufa, não fales com os actores nem encenador! Mas contudo, eu agradeço a vossa opinião e os vossos comentários!Mais força nos dão. Diana Coelho, meu bem, só lamento isto tudo por ti.

Rui Matoso — Já agora, se me permitem... a única coisa a lamentar, de facto e de direito, é a ausência de classificação etária, mas a responsabilidade disso é do Teatro-Cine (entidade pública tutelada pela Câmara Municipal)...gostava de ver então a mesma intolerância aqui verbalizada contra a CMTV! Apesar de ser um assumido "epic fail", este " espectáculo" é bem capaz de ficar para a história das artes em Torres Vedras. De resto ainda não percebi qual é a acusação estética ...cenas sem nexo ? cenas com sexo ? muitos gays em cima do palco ao mesmo tempo ? depravação ? ... foram enganados pela propaganda ? ...paciência o que é que se há-de fazer !!!...ou como diz o poet,a primeiro entranha-se... :) ... ou... pedir o livro de reclamações. Para os "artistas" , entre aspas porque sei que essa é uma identificação que gostariam de recusar, e acho bem, deixo aqui o meu apoio e solidariedade pelos resultados. Força ! Onde posso comprar a Fanzine?...que não vi, nem a folha de sala.

Ruben Monteiro — Têm todos é uma granda cantiga...ó lai larai li ló lé la, ó lai larai li ló ló....

Carlos Ruivo Opa este "espectáculo" não existe em Vídeo? Depois desta conversa, Fiquei curioso...

Yaga Baba realmente... Nem vídeos nem fotos... Então pessoal?

Roger Hipérbole Madureira ‎— André Santos e Rui Matosoobrigado pelo teu comentário! Rui a fanzine pode ser comprada através de qualquer um de nos ou mesmo junto da Estufa se ainda tiverem algum exemplar com eles. Carlos Ruivo e Yaga Baba o vídeo e as fotos ainda não nos foram entregues e por isso ainda não foram divulgados, mas assim que possível estarão online. Ruben Monteiro não estamos a dar cantigas a ninguém e muito menos a dar uso ao ditado popular que diz que "com papas e bolos se enganam os tolos", só queremos mais uma vez aquilo que não nos têm dado, ou seja, respeito e liberdade artística seja lá isso o que for.

Raquel Monteiro — A nossa liberdade acaba quando começa a dos outros. Quando voces não respeitam e alegam que ninguem entende e que voces é q são muito inteligentes não estao a respeitar os outros. O respeitos não se impõem conquista-se! E como esta conversa já enjooa e o espectaculo chegou para perder tempo, fico por aqui!

Yaga Baba — ai não vos deram liberdade artística? ahaha Tá boa essa. Fico então a aguardar essa fotos e/ou vídeos. Roger that.

Rui Matoso Esta conversa toda começou enviesada, e por isso é desinteressante do ponto de vista das artes. Se alguém quisesse discutir os pressupostos e as opções estéticas/éticas teria de começar por conhecer o trabalho anterior do Rogério Nuno Costa e as suas ideias...mas não foi isso que aconteceu. O que sinceramente mais me choca é ver os elementos da banda Albaluna (que pressuponho se consideram artistas/músicos) a denegrir o trabalho de outros também supostos artistas, e isso, desculpem, não tem sentido, só revela ódio e mal estar cultural. Isto porque, seria igualmente fácil e gratuito, começar a injuriar o trabalho dos Albaluna, o qual como sabem aprecio! Portanto, o que seria útil e lógico é haver uma maior compreensão e gosto pela diversidade de práticas artísticas, sejam elas mais consensuais ou mais fracturantes do ponto de vista social. Há espaço para todos e para mais, cada proposta deve conquistar os seus públicos e o Teatro-Cine deve ser um palco aberto a todas as tendências, gostos e formas de arte. Afinal, qual de nós é capaz de cumprir o papel de júri e avaliador estético ? Temos conhecimentos para isso ? Temos Curriculum ? Temos experiência suficiente ? NÃO...então é preciso ter cuidado para não fazermos o papel de censuradores ao serviço não sei de que interesses. Não somos todos boas pessoas ? Good Vides ? Cool ? Ecologistas, respeitadores dos direitos humanos, etc...e outras etiquetas mais...então comportemo-nos como tal e não fazer estalar o verniz assim tão facilmente. Ok ?! Paz e Amor !!!! ;-)

ESTUFA - Plataforma Cultural Rui Matoso e Yaga Baba Sim, temos as fanzines e fotos do espectáculo. Podemos fazê-las chegar caso o pretendam. obrigada pelo interesse.

Ruben Monteiro — Podes crer!grande mal estar cultural...a denegrir o quê?!O pior espectáculo do ano?já está denegrido por si...e volto a salientar...EU NÃO SOU ARTISTA!Levem lá a liberdade artistica!

Luis Rafa T Matos — O gosto de cada um é único, e é a impressão digital de cada alma e das suas emoções/razões. Dito isto, compreendo as opiniões encolerizadas, assim como as palavras dos performers. Num evento teatral desta natureza, abre-se espaço para a expressão da tão reprimida pulsão, nas suas mais variadas vertentes de existência; Tanto a pulsão do fazer, como a pulsão do não fazer. Este espectáculo, por trabalhar elementos que se inserem nos "hiatos" da narrativa clássica, i.e. por corporizar o que se costuma esconder a bem do entendimento e/ou da moral e até do ritmo narrativo, correu o risco (premeditado) de não ser "compreendido", mas se tal não tivesse sucedido, creio que então sim tudo tinha falhado. Se apenas tudo o que for óbvio ou eximiamente executado for considerado arte, estamos então sim a caminho do anular da própria arte. O objectivo verdadeiro da arte não é entreter público, é romper com modelos anteriores. Eu entendo a arte como o corpo do pensamento filosófico, embora tenha presente que para muitos a arte é um conceito difuso, onde se englobam todas as actividades que não impliquem "sacrifício da alma" para produzir seja o que for, o que também não deixa de ser verdade. Seja como fôr, não me lembro de abanão tão grande como este, no cenário "artístico" de Torres Vedras. Quanto à relevância artística do momento da "garrafa no cu", bom... na altura considerei-o redundante, por achar que iria ter um efeito dramatúrgico semelhante ao da contraluz em fotografia, i. e. reduzir todo o espectáculo àquele momento, apagando o resto da memória de todos e inibindo a percepção cognitiva e sensitiva do restante evento, para quase todo o publico. Efoi isso que sucedeu, e não creio que foi sem querer... Para terminar com um "comic relief", remeto-me ao Ricardo Araújo Pereira: " O meu filho nos escuteiros??? Nunca!! Eu quero é o meu filho na droga!! Porquê!? Ora porque andar na droga é de homem!!! "

Rui Matoso — Grandiosa síntese Luis Rafa T Matos !!! mas não creio que a "polémica" seja devido a uma cena de masturbação homoerótica, não creio que o nu, a sexualidade, etc...sejam ainda polémicos, designadamente porque as críticas ofensivas que apareceram neste post é de pessoal jovem e de mente aberta. Aliás antes houve um outro espectáculo "Radical Wrongg" tb muito forte, houve simulações de violações, caralhadas, etc... E aliás, isto esteve há pouco em Lisboa no Teatro São Luís e foi uma festa...http://www.youtube.com/watch?v=paemI231rrg

Luis Rafa T Matos — Sim claro, nada disto é novo. O Eurípedes além de ser um dos tipos que inventou o teatro, animou bem as hostes à época, nomeadamente com as "As Bacantes", que continua a ser uma impressionante peça de teatro mesmo nos dias de hoje! Em termos latos assemelha-se muito mais a uma peça dos "La fura del Baus" do que a um teatro "clássico"... o que diz muito sobre a contemporaneidade da coisa, e tendo em conta que é uma obra com 2500 anos... (Ops!! Se calhar o teatro não se tem inovado assim tanto em termos dramatúrgicos...! ) O que me parece é que não existe o hábito de encarar a arte como instrumento disruptivo, pois é incómodo e até arriscado do ponto de vista institucional... Ainda assim, relembro que o grande objectivo de teatro é o de provocar no público a catarse! E que sem esta, toda e qualquer peça de teatro é um falhanço (pelo menos para o Gregos) ! Acho que esta peça ( Residência artística), no meio de todo o alvoroço caótico, acabou por provocar certamente mais catarse que uma peça da Eunice Muñoz encenada pelo Diogo Infante... ( com todo o respeito pela senhora e senhor) digo eu!

Inês Gomes Pimenta — Isto tudo se resume ao ditado popular que diz que Torres Vedras é a terra dos aborrecidos... Não estive lá para ver (com muita pena minha) mas acho sinceramente que virem aqui dizer mal de quem tem "cojones" para fazer tudo isto só mostra os retrógrados que são. Mostra o quão aborrecidos são que nem se conseguiram rir com tal performance, podem crer que eu se lá estivesse ia-me fartar de rir com toda esta situação. É por estas e por outras que não dá gosto nenhum viver no meio desta gentinha aborrecida...





domingo, 3 de março de 2013

Taito kumartaa itään, pyllistämättä länteen.



Suomettuminen (saks. Finnlandisierung) tarkoittaa voimakkaamman valtion vaikutusvaltaa heikomman naapurimaan asioihin. Käsite esiteltiin alun perin Itävallassa jo 1950-luvulla, mutta sitä alettiin käyttää ahkerasti Saksan liittotasavallassa 1960-luvun lopulla. Termiä käyttivät alun perin liittokansleri Willy Brandtin vastustajat kritisoidessaan hänen uutta, Ostpolitik-nimellä tunnettua ulkopoliittista linjaansa liian neuvostomyönteisenä. Brandt tuomitsikin termin käytön suomalaisia loukkaavana. Se merkitsi sananmukaisesti Suomen kaltaiseksi tulemista.


Suomessa suomettumisen ydinaikaa oli Kekkosen hallintokausi. Kekkosen ensimmäisellä presidenttikaudella alkanutta poliittista kehitystä Suomessa on myöhemmin kutsuttu suomettumiseksi. Tavallisesti suomettumisella tarkoitetaan sellaista poliittista kehitystä, jossa pieni demokraattinen maa alistuu suuremman, totalitaarisen naapurivaltion tahtoon. Myös etenkin 1960-luvun alkupuolen Noottikriisi ja 1968–1982 eli jakso Tšekkoslovakian miehittämisen jälkeisestä Brežnevin opin mukaisesta neuvostopolitiikan tarkistuksesta Mauno Koivistontuloon presidentin sijaiseksi 1981 ja presidentiksi 1982 olivat yhä väkevää suomettumisen aikaa. Esimerkiksi Max Jakobson on pitänyt Suomen sisäpolitiikkaan 1980-luvun alkupuolelle saakka merkittävästi vaikuttaneen ministerineuvos Viktor Vladimirovin paluuta vuonna 1984 Neuvostoliittoon merkkitapauksena suomettumisen ajan vähitellen päättyessä. Mutta vielä 1985 Koivisto pyrki estämään Juho Kusti Paasikiven päiväkirjojen julkaisemisen ja lopullisesti suomettuminen alkuperäisessä merkityksessään päättyi vasta Neuvostoliiton hajoamiseen 1991. Suomalaisesta poliittisesta keskustelusta käsite ei kuitenkaan ole täysin hävinnyt 2000-luvullakaan, ja suomettuneisuuden tai "uussuomettumisen" käsitettä on viljelty milloin puhuttaessa Suomen suhteista Neuvostoliiton seuraajavaltio Venäjään, milloin Euroopan unioniin, milloin Yhdysvaltoihin.


Tarkka suomennos olisi "suomettaminen". Rinnakkaistermi suomettaminen tarkoittaa sitä, että pyritään saamaan valtio tai ihminen suomettuneeksi ja suomettuminen taas, että suometutaan itsenäisesti. Käsitteellä tarkoitettiin negatiivisesti Suomen joutumista Neuvostoliiton valtapiiriin. Suomessa Neuvostoliiton vaikutusvalta ulottui myös sisäpolitiikkaan ja ilmeni mediassa ns. itsesensuurina. Uuden Suomen entinen päätoimittaja Lauri Aho kirjoitti suomettumisen tarkoittavan "tilaa, jossa maa ilman Neuvostoliiton miehitystä, ilman kommunistikaappausta ja ilman demokraattisten laitosten poistamista on tietyn asteisessa riippuvaisuussuhteessa Moskovasta" (Uusi Suomi 14. marraskuuta 1971).


Kun suomettumiskeskustelu alkoi levitä, presidentti Urho Kekkonen yritti antaa käsitteelle myönteistä sisältöä yhdysvaltalaiselle Newsweek-viikkolehdelle syyskuun alussa 1973 antamassaan haastattelussa: "Jos suomettumisella tarkoitetaan todellista tilannetta, sitä että sodan hävinnyt pieni eurooppalainen maa on säilyttänyt itsenäisyytensä ja omanarvontuntonsa, päässyt jaloilleen ilman ulkopuolista apua, luonut hyvät ja luottamukselliset suhteet suurvaltanaapuriinsa ja kehittänyt oman puolueettomuuspolitiikkansa, niin pidän sanontaa imartelevana! Mutta näinkään määriteltynä ei suomettuminen ole vientitavaraa."


Historiantutkijoista suomettumisen aikaa ovat selvitelleet etenkin Hannu Rautkallio ja Timo Vihavainen. Vihavainen julkaisi aiheesta vuonna 1991 huomiota herättäneen teoksenKansakunta rähmällään (Otava). Myös suomettumisen ajan huomattava ulkopoliittinen vaikuttaja Max Jakobson on varsinkin teoksissaan Vallanvaihto (1992) ja Tilinpäätös (2003) ruotinut 1970- ja 1980-lukujen ulkopolitiikkaa ja Suomen ja Neuvostoliiton tuolloisia suhteita. Tuoreeltaan suomettumisilmiötä käsitteli laajasti virolais-ruotsalainen toimittaja Andres Küng vuonna 1976 ilmestyneessä teoksessaan Vad händer i Finland (Mitä Suomessa tapahtuu).