sábado, 19 de dezembro de 2015

MACHA


O momento único e irrepetível do espetáculo, que só o é por ser partilhado com um público, não se trata apenas de um cliché teórico dos estudos de performance. É justamente o único radical comum a qualquer acontecimento performativo que interessa preservar e re-trabalhar. Nesse sentido, propõe-se aqui um regresso às origens, uma re-elaboração ritualística do espetáculo (inequivocamente efémero) trazido para a contemporaneidade, num processo de desvelamento ao mesmo tempo antropológico e mitológico de ações e de gestos que dão forma à nossa cultura mais ancestral (pré-romana e pré-cristã). Regressamos a MACHA, uma importante figura da mitologia celta, divindade protetora dos mortos, deusa da fertilidade e da abundância, para com ela reconciliarmos o ar do tempo com o misticismo por ele recalcado, exaltando forças telúricas, eminentemente femininas, que sempre enformaram a nossa relação com o “mundo” (leia-se: a nossa mundo-visão). MACHA, o espetáculo, será um ritual cósmico, uma romaria experimental, uma viagem trans-dimensional movida por forças do sublime, do oculto e do inconsciente coletivo. O público, parte integrante de uma qualquer tribo pagã, será testemunha de um culto primordial, ao mesmo tempo contemplando e agindo. No espaço de ação estarão também dois Xamãs, uma Entidade e um Druida, ativados por um Canal propiciatório, ao mesmo tempo abstrato e simbólico, concreto e enunciativo. À imoralidade desse gesto contemporâneo de refazer a História, re-começando (“de novo”) ou despertando (“outra vez”), MACHA confrontará o natural observável com o saber oculto, criando um espaço de tensão onde a Dança™, em vez de disciplina, será culto, magia e sublimação.

MACHA Teaser from Vítor D. Rosário on Vimeo.


M A C H A, 

ainda inerte debaixo do fóssil negro de Morrighan, desperta a espaços do seu sono antigo, hipnotizada pelo canto iniciático de Ael, o vermelho, seu pai, e inebriada pela ebulição de Ernmas, druida, sua mãe, lentamente obliterando as raízes que a prendem à terra fértil de Dana, a que não tem princípio nem fim, a que sempre retorna, como Ulster, numa sublimação circular e circulatória de ar, água e seres viventes, em três faces de guerra, de morte e de sensualidade, recordando Rhiannon, a protetora dos equinos, como Epona, o corvo que se alimenta dos cadáveres em combate, a que faz jorrar sangue e fogo, antropomorfizando-se por fim, abrindo-se, expandindo, revelando o corpo de uma atleta, meio mulher meio cavalo, os dedos maiores que as mãos, as mãos maiores que os braços, os braços maiores que o tronco, do tronco erigindo-se uma cabeça estilhaçada em várias faces, os olhos maiores que a cabeça, a cabeça revelando uma face que revela uma máscara que revela outra face que desvela a visão tríplice de uma deusa que vê de olhos fechados, e que quando os abre, em fim, espelha a mórbida realidade onde estamos, todos: aqui, 

(interregno) 

caminhando a sessenta e seis batidas por minuto, numa sub-orgânica geometria desenhada a múltiplos de seis, escrevendo no espaço um espaço que desaparece logo a seguir, memória de peixe obliterada de seis em seis segundos, mas ainda assim perene, imagem de si refletida no chão inaugural, ao mesmo tempo água e pó, espe(ta)cularidade transformada em linóleo, o mesmo fóssil que a alimenta e a retrai, agitando-se para cima, para Norte, tipo vento, uma força propulsora que a faz girar sobre si própria, mas sem plenitude, só planitude, mas depois os pés enraizados no magma, uma explosão interior, e a mulher-corvo-cavalo fazendo um ballet contemporâneo a sessenta a seis batidas por minuto, o corpo profanado em linhas convexas e côncavas, ao mesmo tempo, ganhando altitude e longitude, ao mesmo tempo, os pés tornando-se mais inquisitivos, o ar continuando castrador, mas já suficientemente agitado para que o sistema molecular permita uma subida constante de temperatura, e de repente um som agudo, momentâneo, perturbando a equi-distância que nos separa, testemunhas, da presença divina de Macha, que é agora só corpo moldado segundo um ideal de harmonia sinfónica, ora conquistando o ar, ora dignificando o chão, ora se desconchavando em esqueleto e dúvida, uma tripolaridade nórdica que é ritual e factual, é figura e presença: especular, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, 

(interregno) 

e nós, testemunhas, ao habitar esta nave de neve negra, sejamos o mesmo corpo xamânico que suavemente descansa em cima do seu próprio movimento, para que no último andamento de seis por seis possamos, encantatórios, proferir com Macha o final verso dançado, folclórico, a sessenta e seis batidas de pé por minuto, braços no ar, tronco espiral, esconjurando — “À imoralidade desse gesto contemporâneo de refazer a História, re-começando, de novo, ou despertando, outra vez, confrontemos o natural observável com o saber oculto, criando um espaço de tensão onde a dança, em vez de disciplina, será culto, magia e sublimação” —, já não distinguindo centrípeto de centrífugo, corpo projetado numa só direção, num mesmo tempo, um mesmo espaço, início novo fabricado a partir das flores e das montanhas, e a reinventada língua ancestral a ser engolida pela terra, e o corpo de Macha, plano, não pleno, erétil, devolvendo-se à ordem e ao eco, ao mesmo tempo fumo, ao mesmo espaço elástico, numa visão de caos inicial e destruidor, em homenagem a Thuata Dé Dannan, quando Macha se emancipa do tumulto da romaria experimental que ela própria promoveu, e nos abandona em fim, especulares, ao desastre e à luxúria, as nossas cabeças empaladas nas fortalezas de Mesred Machae, 

(e virou)

Rogério Nuno Costa . 2015


Textos sinóptico e programático escritos para o espetáculo MACHA, uma criação de Mariana Tengner Barros [ideia, coreografia e direção artística] para o Ballet Contemporâneo do Norte. Co-criação e interpretação de Susana Otero. Estreia: 16 e 17 de dezembro, mala voadora, Porto.