sábado, 21 de março de 2015

BLACK BOX




PARTÍCULAS DOURADAS
NUM MUNDO QUASE SEMPRE VESTIDO DE PRETO

Joana Castro


Um novo modelo quântico foi recentemente revelado pela comunidade científica e vem afirmar que o Big Bang não aconteceu, o Universo não tem princípio nem fim, e a partícula infinitamente pequena que lhe terá dado origem (liricamente apelidada por Einstein de “singularidade”) nunca existiu. Sem antes nem depois, sem história nem memória, sem tempo nem espaço, o que vemos (logo, o que somos), não passa de uma imensidão neutra e infinita, ao mesmo tempo material e imaterial, uma só particularidade transformada numa só universalidade. Sem dentro nem fora, sem linha nem fronteira, proponho para esta peça um não-lugar desprovido de qualquer referência histórica, cultural e vivencial; um espaço inútil, não necessariamente vazio, mas sem razão nem aparência; um espaço mais “questionante” que questionável, onde presença e co-presença se (con)fundam. Ocultação e revelação são finalmente sinónimos: matéria negra. Proponho também uma materialização corporal que faça de mim extraterrestre no meu próprio mundo, entidade circunstancial em permanente estado de (i)migração, à procura incessante de um paraíso perdido: a luz dourada ao fundo do túnel é só mesmo outro túnel, e outro, e outro... Proponho por fim uma espécie de síndrome-do-primeiro-olhar (ou da-primeira-vez) transformado em “espectáculo”: um momento que é ao mesmo tempo solidão e semelhança, e ao mesmo espaço simulacro e simulação. De quanta ilusão precisamos para sobrevi(Ver)? Os físicos que descobriram a não-origem do Mundo diriam: como nunca nada aconteceu, tudo o que surge será sempre novo.



SUPER-POP™

Primeiro uma citação canónica:
“Technological progress has merely provided us with more efficient means for going backwards.”
[Aldous Huxley, ‘Ends and Means’, 1937]


A seguir uma provocação distópica:
“Never skip the intro, stay there!”
[Toda a Gente, ‘Internet’, 2037]


Quando escrevo a sinopse da tua peça, escrevo para ti, escrevo-te. Não reclamo qualquer tipo de autoridade sobre aquele texto, pois o mesmo nasce a partir de ti e das tuas ideias. Também não acho que tenhamos sido os dois a escrevê-lo — o texto existe numa dimensão paralela à existência da tua peça e paralela a nós, que a pensamos; nessa dimensão, autoria e autoridade não são agentes conflituosos, e copyright é mesmo copywrong. O texto, este que agora (te) escrevo e o outro, serão sempre autónomos; começam na tua peça, acabam na tua peça, mas não dependem escrupulosamente dela. É este, perigosamente, um objecto que desafia as leis da gravidade. Isto é grave? Não! Há que suplantar a dualidade e seguir. Que é como quem diz: há que ultrapassar a crise doentia da pós-pós-pós-modernidade e abraçar uma condição que esteja por cima, não que venha depois. Já nada vem depois, nem antes, porque já não há tempo, lembras-te? Como agora é tudo vintage, creio que devíamos criar uma espécie de novo-surrealismo, substituindo todos os pós por super, e reciclando um qualquer automatismo textual a favor de uma irrealidade (ou e-realidade) que faça justiça ao que está sobre, por cima, acima, após. Por outro lado, anular criticamente a ética do “espectáculo a partir de” e sua consequente, e frívola, “interpretação livre”. Ou seja, deixar de confundir Arte com Terapia de Grupo! Toda a inteligência é “artificial”, e este texto, tal como o arranque conceptual da tua peça, é (quase) desprovido de emoção. Falaste-me de máquinas, e as máquinas nunca erram; as máquinas, ou a Máquina, têm sempre razão. Não quero falar do título da tua peça; é metafórico, logo, é um “erro”. Ultrapassemos esse sinal, que eu sei que não é inocente (é um despiste!) em favor de um outro código — proponho a construção de um meta-texto escrito a duas cabeças, quatro mãos, oito cérebros, por aí adiante, que seja o guião não do filme que vais realizar em palco, mas da banda sonora desse mesmo filme que vais realizar em palco. É evidentemente um filme Americano™, de outro modo não seria um filme. É essa a sua ética, logo, é essa a sua estética — crítica e crise são da mesma família. Terão sido também os Americanos™ a inventar a noção contemporânea de Ficção, braço linguístico e estruturante da Pop, tudo fantasias produzidas pelo Método Científico. E a ficção da tua peça é uma ficção científica, por oposição ideológica a uma realidade científica, que não existe. Inscreves-te (e investes-te) naquele que é o melhor discurso crítico e a melhor forma de sátira social! A tua sinopse (e já não o que autoralmente/autoritariamente pretendo dizer com ela) aponta na direcção de um cliché sensacionalista: a origem do Mundo. Uma ideia, portanto. Que já cá estava antes de nós. O Mundo já cá estava antes de nós e no entanto fomos nós que o inventámos. Incrível, não é? Pois é neste paradoxo espácio-temporal que a tua peça se projecta na direcção do espectador, o mesmo que, se quiser ser fiel à sua condição inequívoca de espectador, irá usar este texto-didascália como assistente de bordo ao longo da peça. Pode lê-lo antes, durante, ou depois. Se eu e tu acreditássemos em metáforas, podíamos assumir que tudo começou com uma conversa divina entre um Adão e uma Eva, juntos, num estúdio de gravação, a cozinhar uma Via Láctea from scratch e a partilhar a refeição primordial em torno de um primeiro brainstorming. Não interessa quem faz de Adão e quem faz de Eva; não são identidades, são vozes. Tal como é indiferente quem pergunta e quem responde; o código binário extinguiu-se no exacto momento em que decidimos ir para a sala de ensaios inventar o Mundo — ausência total de identidade, um vazio preenchido por um momento total, infinitamente grande e infinitamente pequeno. Isto é um exercício, portanto; uma equação matemática sem princípio (x) nem fim (y). Uma singularidade a-temporal. Acto único, mas dividido em três (eu, tu, e depois nós, não necessariamente por esta ordem):



TESE
Primeiro andamento, em jeito de brainstorming pré-apocalíptico. Convulsão.

R: Em Endgame (1957), Samuel Beckett propõe uma meta-ficção suspensa num não-tempo que discorre ao longo de um só acto, onde 4 personagens (podia ser só uma, podiam ser 7 biliões) discutem à volta da ideia de FIM, não o fim como inevitabilidade, mas o fim como potencialidade. O mesmo fim que funciona como motor da tua peça, portanto. Endgame não é a tradução do fim de um jogo de xadrez, mas antes o momento infinitamente pequeno e infinitamente grande (ao mesmo tempo) que o antecede, quando já se sabe quem vai ganhar (ou perder, ou ambos), mas no entanto ainda há peças para mover. Ou seja: quando se joga “para nada”. Este é o primeiro acorde e este é o primeiro acordo que lanço para esta nossa pauta-guião. E agora é a tua vez:

J: Não acontece nada. Ocultação e revelação são finalmente sinónimos: matéria negra. Pergunta: será a esperança uma questão de circunstância?

R: Tudo é circunstancial. E tudo é obra do acaso. Não existem coincidências.

J: Metamorfose, tempestade, cidade sonora.

R: Expansão, expansão, expansão…

J: Sim, não só para fora, mas para todos os lados. Para dentro também.

R: Não é tanto o magnetismo, mas a ressonância. Tal como na teoria das super-cordas, que é demasiado complexa para a podermos absorver num espectáculo que é só uma banda sonora…

J: Em vez de super-cordas, podia ser super-sopros?

R: Sim. Uma experiência mais iniciática que ritualística. Diria até uma reconciliação do criacionismo com a teoria da evolução. Deus a fazer vibrar as cordas do tempo, ou a soprar para dentro do Mundo à espera que ele respire.

J: Continuidade.

R: Suspensão.

J: Não acredito na obliteração do humano pela tecnologia. Isso só aconteceria se tivesse sido o humano a inventar a tecnologia. E isso não é verdade; a tecnologia, tal como o Mundo, já cá estava antes de nós. A obliteração do humano será sempre feita pelo humano, não por forças exteriores ao humano.

R: Aliás, a tecnologia está a fazer-nos evoluir para trás. A citação do Huxley é tudo menos distópica. É o regresso ao admirável mundo novo. É o regresso ao Paraíso.

J: O Paraíso é uma cidade em construção embrulhada em plástico translúcido pelas mãos do Christo, o artista e o profeta.

R: Todas as realidades, nomeadamente esta em que estamos, são realidades paralelas. Tudo o que vemos é perpendicular a algo que não existe. Não é falso, é só redundante. Tal como a realidade virtual, por exemplo. Não existe nenhuma realidade que não seja virtual. Ou como diria o Žižek no documentário The Reality Of The Virtual (2004): "The real effects produced, generated, by something which does not yet fully exist, which is not yet fully actual".

J: Estamos a começar a fabricar um “tema”, e eu odeio “temas”. Odeio espectáculos “temáticos”. Quero fazer um espectáculo de dança, não quero fazer um baile de máscaras sci-fi. Posso fechar?

R: Sim. O teu espectáculo é evocativo, não é ilustrativo. (pôr aqui um smiley a piscar o olho)



ANTÍTESE
Segundo andamento, em jeito de análise pós-estruturalista e pós-semiótica às ideias em movimento. Acentuação dos graves. Diminuição do ruído.

R: Agora vou fazer de conta que sou “crítico de arte”, esse equívoco entretanto apadrinhado pelas indústrias criativas, e perguntar: o que é que acontece?

J: A câmara só filma 15 minutos. Tens o tempo que a América™ te deu para responderes à tua própria pergunta! (pôr aqui um smiley com a língua de fora)

R: Mas porquê o preto?

J: É a cor do linóleo, das colunas, dos tripés, dos panejamentos, das varas, dos projectores, da mesa de som, da mesa de luz, dos microfones, dos amplificadores e até das roupas que a equipa técnica veste. Ou seja, é a cor do teatro. O teatro é preto.

R: Resume a tua peça em três palavras.

J: Magnetismo, resistência, gravidade.

R: Então e o corpo? E o espaço? E os clichés todos das sinopses da dança contemporânea que começam com entradas do dicionário da Porto Editora?

J: (pôr aqui um smiley a dizer LOL) O desafio é ficar de pé! Ficar, estar, permanecer, continuar… Sempre assim foi, sempre assim há-de ser.

R: Nem de tempo podemos falar?

J: Podemos. A minha peça anterior (Perto… tanto quanto possível, 2014) era sobre o tempo que leva dois corpos a conhecerem-se. O espaço, ou melhor, o palco, não servia para nada; era um pretexto para um encontro. E para uma passagem do tempo. Nesta nova peça decidi apagar essa questão identitária, suspendendo a visceralidade do corpo, substituindo expressão por impressão, e tornando-me num dispositivo de leitura, ou seja, de revelação, do próprio palco. Os objectos são os protagonistas. É por eles que eu quero que as pessoas se apaixonem. Mas atenção: são só objectos! Não são projecções nem da minha psique, nem da minha emoção, nem da minha sexualidade. Desaprovo uma dança “fetichista” com objectos e/ou com pessoas/corpos. Desaprovo-a como coreógrafa/bailarina, e também como espectadora.

R: Ou seja, objectos apresentados sem aditivos nem intensificadores de sabor. Objectos inteiros.

J: Sim, não são objectos light! São duros de roer, justamente por resistirem amargamente ao vício da metaforização. A maioria deles foram construídos para não serem vistos, para não estarem presentes, para desaparecerem atrás de nós. Gosto destes objectos por serem os underdogs do Design; nem são feios nem bonitos, são só utilitários. É que eu também não gosto nada de “dança gourmet”. Existe uma diferença do tamanho de um abismo entre Arte e Decoração de Interiores…

R: (pôr aqui um smiley a fazer “high 5”) Mas são objectos que amplificam, que conduzem, que intersectam, que conectam. São intermediários.

J: Sim, precisava de uma plasticidade ultra-sensorial que habitasse aquele linóleo. O linóleo é muito mais importante, em área, em monocromia, em tensão, do que eu. Apenas desejei (agora sim, é sexual), ampliar essa sensação de arrebatamento. E de apagamento também. O corpo gigantiza-se, o espaço vai crescendo em cidade amplificada, preto sobre preto, plástico preto sobre borracha plastificada, cidade embrulhada em plástico transparente, ficção, ficção, ficção… E a criação de um império operático de espectadores no fim.

R: Portanto, não há regressão nem progressão. E o palco é um multiverso: não prevê o futuro, já lá está.

J: Sim, já o experienciou.



SÍNTESE
Terceiro e último andamento, em jeito de reconciliação dramática. Equalização.

J: Inversão de marcha: o que é que acontece?

R: A tua peça não é sobre o espaço, é sobre o palco. A cor no título remete, de forma radical, para esse palco. Radical, porque literal. Não há aqui qualquer leitura jungiana da cor; o preto é mesmo só empírico.

J: Voltando ao Einstein, que assombra a sinopse: o preto não existe, é só a ausência total de cor.

R: Exactamente. A tua peça é sobre a oclusão de tensões binárias que deixaram há muito de fazer sentido: o corpo e a máquina, o analógico e o digital, o high tech e o low tech, o high brow e o low brow, a cultura erudita e a cultura popular, a arte e o entretenimento, e por aí adiante... Não há reconciliação consoladora possível, mas também não há conflito; ambos os lados têm razão! Paradoxalmente, a tua peça conta a história de que como chegámos à conclusão que se a resposta nunca mais chega, então se calhar a pergunta está mal formulada, ou precisa de ser eliminada. Na tua peça, o espaço do palco não se distingue do espaço de ensaio. Na verdade, são o mesmo. Ou seja, “il n’y a pas de solution parce qu’il n’y a pas de problème”, já dizia o Duchamp.

J: Conta-me a história da peça, então.

R: Contemplação, suspensão, revelação, problematização, observação, confrontação, resolução. Só que sem moral! O que faz de ti, indubitavelmente, um agente crítico do nosso tempo. Grande parte da produção artística contemporânea ainda se enquadra na ética (e na estética) das fábulas de La Fontaine. E isso é triste. 

J: Quanto mais conheces os animais, mais gostas dos homens?

R: Exacto! É que já nem nos safamos com a desculpa da linguagem. Tudo é linguagem! Se calhar é mesmo verdadeira aquela teoria que diz que tudo isto não passa de um vídeo-jogo. O teu exercício é icónico, logo, fala de nomes, de categorias, de referentes e de significantes. É um jogo linguístico.

J: A música é uma linguagem? (pôr aqui um smiley envergonhado por ter feito uma pergunta tão assustadoramente vintage)

R: A música é a linguagem máxima daquilo que está a acontecer agora. E eu acredito que tudo o que não está a acontecera agora, não existe. Se a música fosse uma ciência, chamava-se Simultaneologia, que é a ideologia do que acontece agora, , em tempo real, e ao mesmo tempo. Também pode significar tudo aquilo que acontece durante, entretanto e enquanto. É essa a temporalidade transversal da tua peça — a banda sonora para um mundo que está a fabricar-se cá dentro e lá fora ao mesmo tempo. Não há separação. Não há escurinho-do-cinema. Não há emersão escapista, nem nada dessas tretas inventadas pela Sociologia.

J: Então e nós, eu e o Flávio, somos o quê?

R: Nós só somos o que somos porque: 1) o dizemos; 2) duvidamos da alínea 1). Por isso perguntar será sempre o melhor remédio! Acho que é isso: tu e o Flávio são presenças questionantes. É muito giro quando trocam de papel; é essa dimensão shapeshifter que coloca a peça descaradamente no campo da ficção científica: o corpo a emancipar-se da máquina, a máquina a voltar ao corpo, os dois a tentar encontrar o desencontro, a des-aproximarem-se. No fundo, no fundo, é uma história de amor.

J: Porquê Super-Pop?

R: Porque é um super-poder. A máquina tem sempre razão. Nós somos a máquina. Logo, nós temos sempre razão. Já dizia o Aristóteles…

J: Sublimação?

R: O palco é um interface, uma janela não para mas do universo paralelo. Há uma noção muito interessante, quase caleidoscópica, de que tu e o Flávio estão a ser observados de vários ângulos. Não há contemplação possível. Temos que estar dentro e fora ao mesmo tempo. E à volta também. Por cima, sempre. A tua peça não está para lá da Pop. Está por cima dela. Camadas sobre camadas. É uma cena quase geológica. A cidade sonora que tu queres construir já está a ser desenterrada no Futuro. E é lá, no Futuro, que a tua peça se passa. 

J: Estamos a voltar à festa temática com o dress code cyborg…

R: (meter aqui um smiley assustado) Não! Tu resolves isso muito bem no Fim... Repara que escrevi a palavra Fim com maiúscula, para acentuar a sua dimensão teatral. O Fim é uma “pessoa” na tua peça. É a única que fala, aliás. É uma força centrípeta e centrífuga ao mesmo tempo. É ela que te puxa para a boca de cena e te obriga a abraçar o tragicómico que é comunicar, olhos nos olhos, com o público. E a comunicação, sobretudo quando imposta…

J: Todos os espectáculos são imposições!

R: …encerra em si uma guerra. Uma guerra absolutamente patética. No teu palco, essa guerra é anterior ao wireless, precisa da ligação por fios, precisa da disquete de arranque, precisa de um Regresso ao Futuro. E o Futuro é retro! É anos 80, é consola Nintendo, é cubo mágico. Basta visitarmos as catedrais do hi(p)sterismo do Porto e de Lisboa (lojas, cafés, teatros, museus, etc…) para vermos o digital a querer mimetizar o analógico — a camisola de lã tricotada pela avó de 90 anos só que desenhada em Photoshop e replicada em massa para ser vendida na Vida Portugueza…

J: E isso é bom ou mau?

R: Nem uma coisa nem outra. Tínhamos prometido abolir a dualidade, lembras-te?

J: Então se a tecnologia não é um prolongamento do humano, pode ser um amplificador da própria noção de humano, uma lupa?

R: Sim, mas uma lupa retrovisora. O universo está em expansão permanente. Mas para trás. Como que a ganhar espaço ao Espaço, e com isso a “perder” Tempo. Isto não é poesia, sabes? Isto é a guerra das guerras. E devia afectar mais pessoas e mais artistas como tu e como eu. Porque se o Universo não tem início nem fim, então não faz sentido falarmos em História. Então a pós-modernidade nem sequer uma condição é. Então devíamos parar de acreditar na supremacia do Humano e aconchegarmo-nos na nossa própria insignificância cósmica. E devíamos definitivamente impedir que a Arte se transforme em Design. Isto não é de todo derrotista. Isto é a nossa tábua de salvação.

J: Ou seja, há esperança?

R: Nunca houve mais nada a não ser isso.


Rogério Nuno Costa, a partir de Joana Castro
Ou então Joana Castro, a partir de Rogério Nuno Costa
Porto, Março de 2015




Concepção, direcção e interpretação: Joana Castro
Música ao vivo: Flávio Rodrigues e Joana Castro
Desenho de luz: Alexandre Vieira
Figurinos e cenografia: Joana Castro
Texto e Documentação: Rogério Nuno Costa
Imagem: Lino Cabral

Fotografias de Cena: José Caldeira
Agradecimentos: Fábio Lopes, F. Ribeiro, Nuno Preto e Raquel Ferreira
Residência: Palcos Instáveis




segunda-feira, 2 de março de 2015

World Wild Web


WTFPL (Do What The Fuck You Want To Public License)
Aplica-se a todas as produções artísticas e intelectuais da "autoria" de Rogério Nuno Costa [aka Riku Nuutti Koistinen aka Chef Rø]




#1
Boa noite,

Gostaria de saber quais os procedimentos a tomar no sentido de cancelar a minha inscrição. Tenciono deixar de ser vosso cooperador, por discordar com alguns princípios fundamentais por vós defendidos publicamente a propósito da "Lei da Cópia Privada".

Aguardo instruções.

Atenciosamente,
Rogério Nuno Costa



#2
Caro Rogério Nuno Costa,

Conforme acabamos de falar pessoalmente, e em seguimento ao seu email de dia 5, venho informar que em conformidade com os estatutos da GDA, se assim entender, pode formalizar a sua demissão como cooperador por via de uma carta registada. De momento não tem valor em Conta Corrente.

Quero desde já agradecer a sua disponibilidade em responder ao email que recebeu da parte do nosso Presidente, sendo do nosso interesse tomar conhecimento do ponto de vista que defende.


Artigo 13º
(Demissão)

1. Os cooperadores podem, mediante carta registada, com aviso de recepção dirigida à Direção, solicitar em qualquer altura a sua demissão da Cooperativa, sem prejuízo da responsabilidade pelo cumprimento das suas obrigações estatutárias.

2. A demissão do cooperador da Cooperativa será obrigatoriamente concedida, desde que se mostre liquidado o saldo da conta corrente do cooperador demissionário.

3. Se a conta corrente acusar um saldo positivo este será pago ao cooperador demissionário.

4. Em qualquer dos casos, ser-lhe-á restituído no prazo máximo de um ano o valor dos títulos de capital realizado.

Com os melhores cumprimentos,
E os meus votos para um excelente ano 2015,
Evelin Kuhnle, Chefe Serviço do Apoio ao Cooperador e Comunicação



#3
Caro Cooperador,

Penso que já terá, ou em breve receberá, confirmação de que os Estatutos da GDA prevêem a possibilidade de desvinculação pretendida. Nem poderia ser de outra forma, uma vez que a liberdade de associação (ou de não-associação no caso vertente) é um Direito Constitucional consagrado!

No entanto gostaria que tivesse em conta que a actividade de Gestão Colectiva dos Direitos dos Artistas Intérpretes ou Executantes, levada a cabo pela GDA, tem uma latitude e abrangência que em muito ultrapassam o caso particular da Cópia Privada, incidindo sobre um leque de Direitos muito mais vasto que procura proteger e equilibrar o valor da Criação Artística face aos interesses e pressões dos “Mercados”.

De facto o “lobby” das grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações, com óbvia manipulação da imprensa tecnológica e da comunidade internauta, conseguiu a nível global fazer da questão da cópia privada uma verdadeira “tempestade num copo de água”!!!

De facto o impacto médio em causa em Portugal é de cerca de 0,7% dos custos de distribuição, irrisório e perfeitamente absorvível pelas margens de lucro dessa mesma industria, capaz de lançar campanhas de 30, 50 ou mesmo 100% de redução de preços, para colocação de novos modelos ou de fidelizações a 24 meses, que os consumidores assumem sem pensar duas vezes!!!

De facto qualquer Tablet ou Smartphone vem carregado, a favor daquelas industrias, de múltiplas “cópias privadas”, na forma de patentes e licenças sobre dispositivos e aplicativos que, quer os usem ou não, os consumidores estão a pagar sem pensar duas vezes!!!

De facto aquelas industrias facturam milhões vendendo mecanismos e “software” cuja única razão de existir é a exploração secundária do trabalho dos Criadores!!!

De facto a questão para as grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações não é a cópia privada em si, mas sim uma vasta estratégia a médio prazo que procura desvalorizar os “Conteúdos” para capitalizar os “Continentes”!!!

Basta atentar no verdadeiro ESCÂNDALO das remunerações dos Artistas que está em curso no negócio de “Streaming” para compreender o conluio que vai entre aquelas Industrias e as Fonográficas e Audiovisuais, “dossier” que a GDA não vai dar de barato sem uma luta radical…!!!

Agradecemos sinceramente o seu interesse e honestidade relativamente a estas questões e estaremos, seja qual for a decisão, sempre ao seu dispor na defesa dos Criadores e do acesso à Cultura.

Com os melhores cumprimentos,
Pedro Wallenstein, Presidente



#4



#5
Caro Pedro Wallenstein,

Gostaria antes de mais de agradecer a sua mensagem e lamentar a demora na minha resposta. Contrariamente ao que é normal, o início do novo ano foi demasiado intenso profissionalmente. Hoje, e com a ajuda "moral" da recente aprovação pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da “Lei da Cópia Privada”, decidi finalmente responder-lhe.

Em primeiro lugar, creio ser importante referir que a decisão de me desvincular da GDA foi ponderada e teve em consideração o conhecimento óbvio que tenho do âmbito de acção desse organismo e da aplicação financeira que é executada através dos fundos cultural e social que disponibiliza aos seus cooperadores. Não estou, portanto, a reduzir este assunto, nem a GDA, à polémica em torno da Lei da Cópia Privada, ainda que seja essa, e usando um chavão, a “gota que fez esbordar o copo”. Quando, em 2008, decidi inscrever-me, fi-lo por concordar, em abstracto, com os pressupostos que me foram apresentados, e que convictamente aceitei. Ao longo dos últimos anos, porém, e inspirado por um interesse simultaneamente pessoal e profissional, fui estudando várias temáticas que gravitam em torno do conceito genérico de “copyright”, incorporando grande parte desse estudo no meu trabalho enquanto encenador, dramaturgo, investigador e professor. Por razões que não vale muito a pena perder tempo a elencar (a maioria são evidentes, creio), a minha permanência enquanto cooperador da GDA foi-se tornando progressivamente desconfortável, por contrariar de forma linear muitos dos postulados que eram cada vez mais evidentes no meu discurso artístico/ensaístico. Não me vou alargar nesses postulados para ir directo à questão mais recente:

Oponho-me, convicta e informadamente, à Lei da Cópia Privada e, concomitantemente, a todas as organizações privadas de “gestão colectiva” de “direitos” que, através da aplicação, muitas vezes anti-democrática, de taxas absurdas sobre bens que não são sequer “consumíveis”, fazem tábua rasa de uma (r)evolução que não é só tecnológica (é finalmente cultural, porque verdadeiramente democrática), perpetuando sistemas ditatoriais de controlo daquilo que pertence, apenas e só, à esfera privada. Na base dessa Lei e nos argumentos que a sustentam subsiste um conjunto de mal-entendidos muito graves, apoiados na sua maioria por ambiguidades terminológicas — a mina de ouro ideal para a criação de leis incompreensíveis que conseguem fintar os limites do constitucional e assustar o "cidadão comum" com ameaças coercivas. É inacreditável como é que uma máfia organizada conseguiu convencer a opinião pública que copiar um ficheiro partilhado de um filme para ver em casa, por exemplo, é equivalente a “roubar”…

Perante esta conjuntura, não posso deixar de me sentir defraudado (e até envergonhado) quando no passado dia 15 de Setembro de 2014 recebo um e-mail vosso com o título “Cópia Privada – uma comédia de enganos”, no texto do qual se manifestam em prol de algo que contraria a forma como me posiciono, ética e esteticamente, em relação a todo um conjunto de temas dos quais a Lei da Cópia Privada é apenas a ponta do iceberg. Nesse sentido, e só nesse, a minha decisão consubstancia-se na evidência de que não posso afirmar (na forma de espectáculo, ensaio, comunicação pública, aula, post no Facebook, instalação-vídeo, entrevista para um jornal, seja o que for!) algo que será depois derrubado pelas minhas acções, pelos grupos a que pertenço, pelas causas que abraço, pelas petições que assino e, evidentemente, pelos organismos (tenham a natureza jurídica que tiverem) aos quais pertenço ou com os quais colaboro/coopero. Quero manter intacta a minha dignidade ética (que, para mal dos meus pecados, se confunde com a estética), e quero afastar-me do "risco" de um dia vir a ser acusado pelos meus "pares" de cuspir nos pratos que como, ou de ser "hipócrita" (esse tão fácil insulto).

Também não vou rebater os argumentos triplamente exclamatórios que me apresenta !!! Com o devido respeito, não concordo com nenhum, e acho que muitos vêm envenenados pelas ambiguidades que acima referi; não creio que valha a pena, nem para mim nem para si, fazermos disto um Prós & Contras virtual. Despendi imenso tempo a ler tudo o que me foi possível encontrar sobre o assunto para poder tomar uma decisão que é fundamentada em várias frentes (não existem só duas; essa coisa do Bem contra o Mal é um ideal romântico que nunca passou disso mesmo, um ideal…), por isso sei do que estou a falar e sei que não estou a filiar-me de forma cega (como as suas palavras parecem querer depreender) na retórica de um certo grupo de agentes e polemistas que usam a Internet para disseminar uma agenda contra organismos como a GDA. Ainda que me apoie no pensamento e na acção de pessoas como ESTA, a minha decisão é autónoma, socialmente consciente e politicamente independente. Não tenciono transformar isto numa batalha contra a GDA, ou contra aqueles que continuam a compactuar com este sistema, até porque sei que ele, o sistema (e com ele a GDA) têm os dias contados! Sim, alimento uma fé inabalável no Futuro — ESTE, por exemplo, acontece já amanhã! É por isso que este e-mail, e os acontecimentos que o provocaram, fazem já parte de um passado longínquo e retrógrado do qual todos nos vamos rir. Muito...

Agradeço uma vez mais o esforço que fez de me ter escrito este e-mail, e também o esforço da simpática Chefe dos Serviços de Apoio ao Cooperador Evelin Kuhnle de me ter telefonado, mas não existe qualquer vontade da minha parte em reconsiderar.

Com os melhores cumprimentos,



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