domingo, 20 de dezembro de 2015

E U R O D A N C E


“Europe was created by History (then Art). America was created by Philosophy (then Art). Economy (now Art) is creating the Rest of the World.”

— in No Limit (21st Century), a song by Too Limited


EURODANCE é uma hecatombe geopolítica e tecno-emocional, um counting down a 190 beats-per-minute em direção ao Fim do Mundo, uma bad trip a bordo de um rave’ião Hamburgo/Ibiza com escala elíptica no Pará e aterragem de emergência para combustível em Luanda, uma droga psicotrópica também conhecida por Azeitegeist™. EURODANCE é um documentário pós-apocalíptico produzido pelo Departamento de Escatologia Vintage do Centro de Estudos Pré-Humanos do Novo Mundo e estuda a última década do Antigo Regime, quando o Mundo ainda se escrevia com letra grande, não existia qualquer diferença epistemológica entre Arte e Desporto, e os artistas eram todos backup dancers de uma banda cósmica universal. EURODANCE dança em Europeu™, mas traz legendas em Novilíngua™. Rouba lyrics às profecias xamânicas de Slavoj Žižek e à filosofia alter-dogmática de Dr. Phil, os primeiros cyborgs da História; rouba beats à ética pré-apocalíptica do movimento mashup e à moral anti-social do tecnobrega; e rouba artworks à estética proto-post-pop dos Jogos sem Fronteiras e à ética re-re-realista da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. EURODANCE é tecnotrónico, é clubístico, é pastilhado, é megalo-colonialista, é etno-musical, é bubblegum pop, é happy hardcore, é chipmunk, é autotune, é playback, é rave’ioli em lata, é vengaboys, é bota gel, é pisang ambon, é electropimba, é technochunga, é carrinhos de choque-em-cadeia, é aeróbica trance-génica, é fitness progressivo, é body pump-up the jam, é macarena, é di-rirá-rá-rá, é contemporary rococó. EURODANCE regressa a todos os pesadelos fin-de-siècle, porque ambiciona uma correção retroativa da Realidade: o Mundo acabou MESMO na noite de 31 de Dezembro de 1999, quando os computadores deixaram de reconhecer a linguagem binária e o mundo (em letra pequena) colapsou. EURODANCE é por isso uma festa meteórica, em homenagem a todos os que (ainda) não morreram. Uma viagem de volta aos anos 90; uma viagem de volta ao Presente™.



Direção, Coreografia, Texto: Rogério Nuno Costa | Bailarinos: Dinis Machado, Flávio Leihan, Luiz Antunes, Mariana Tengner Barros, Sérgio Diogo Matias, Susana Otero | Assistência de Direção: Joclécio Azevedo | Light Design & Artwork: Diogo Mendes | Figurinos: Jordann Santos | Remix & Cover: Jonny Kadaver feat. Too Limited™ [Mariana Tengner Barros & Rogério Nuno Costa] | Vídeo & Trailer: António MV | Assistência de Figurinos: Cristiana Fonseca | Produção Executiva: Inês Nogueira. Agradecimentos: Xana Novais, Teatro Municipal do Porto – Rivoli, Sonoscopia, Álvaro Campo, Miguel Loff Barreto, ESMAE, TeCA, Ana Carvalho, Pedro Barreiro. Acolhimentos: Centro Cultural de Milheirós de Poiares (Aveiro), mala voadora (Porto), Armazém 22 (Vila Nova de Gaia), Teatro Sá da Bandeira (Santarém).

Um espetáculo Ballet Contemporâneo do Norte originalmente criado para o programa “Outros Formatos” (2014). Ballet Contemporâneo do Norte é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal/Secretaria de Estado da Cultura (Direção-Geral das Artes) e apoiada pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.



EURODANCE é o estudo coreográfico para o espetáculo de teatro musical €TRASH, de Rogério Nuno Costa, com estreia prevista para 2018. Cinco bailarinos são o grupo de “backup dancers” de uma banda techno invisível, trazendo para a linha da frente aquilo que por norma é apenas decorativo, paisagístico, subsidiário. O corpo de baile é agora o protagonista. Ou sobre a tensão/confusão dialética entre Arte e Desporto.




sábado, 19 de dezembro de 2015

MACHA


O momento único e irrepetível do espetáculo, que só o é por ser partilhado com um público, não se trata apenas de um cliché teórico dos estudos de performance. É justamente o único radical comum a qualquer acontecimento performativo que interessa preservar e re-trabalhar. Nesse sentido, propõe-se aqui um regresso às origens, uma re-elaboração ritualística do espetáculo (inequivocamente efémero) trazido para a contemporaneidade, num processo de desvelamento ao mesmo tempo antropológico e mitológico de ações e de gestos que dão forma à nossa cultura mais ancestral (pré-romana e pré-cristã). Regressamos a MACHA, uma importante figura da mitologia celta, divindade protetora dos mortos, deusa da fertilidade e da abundância, para com ela reconciliarmos o ar do tempo com o misticismo por ele recalcado, exaltando forças telúricas, eminentemente femininas, que sempre enformaram a nossa relação com o “mundo” (leia-se: a nossa mundo-visão). MACHA, o espetáculo, será um ritual cósmico, uma romaria experimental, uma viagem trans-dimensional movida por forças do sublime, do oculto e do inconsciente coletivo. O público, parte integrante de uma qualquer tribo pagã, será testemunha de um culto primordial, ao mesmo tempo contemplando e agindo. No espaço de ação estarão também dois Xamãs, uma Entidade e um Druida, ativados por um Canal propiciatório, ao mesmo tempo abstrato e simbólico, concreto e enunciativo. À imoralidade desse gesto contemporâneo de refazer a História, re-começando (“de novo”) ou despertando (“outra vez”), MACHA confrontará o natural observável com o saber oculto, criando um espaço de tensão onde a Dança™, em vez de disciplina, será culto, magia e sublimação.

MACHA Teaser from Vítor D. Rosário on Vimeo.


M A C H A, 

ainda inerte debaixo do fóssil negro de Morrighan, desperta a espaços do seu sono antigo, hipnotizada pelo canto iniciático de Ael, o vermelho, seu pai, e inebriada pela ebulição de Ernmas, druida, sua mãe, lentamente obliterando as raízes que a prendem à terra fértil de Dana, a que não tem princípio nem fim, a que sempre retorna, como Ulster, numa sublimação circular e circulatória de ar, água e seres viventes, em três faces de guerra, de morte e de sensualidade, recordando Rhiannon, a protetora dos equinos, como Epona, o corvo que se alimenta dos cadáveres em combate, a que faz jorrar sangue e fogo, antropomorfizando-se por fim, abrindo-se, expandindo, revelando o corpo de uma atleta, meio mulher meio cavalo, os dedos maiores que as mãos, as mãos maiores que os braços, os braços maiores que o tronco, do tronco erigindo-se uma cabeça estilhaçada em várias faces, os olhos maiores que a cabeça, a cabeça revelando uma face que revela uma máscara que revela outra face que desvela a visão tríplice de uma deusa que vê de olhos fechados, e que quando os abre, em fim, espelha a mórbida realidade onde estamos, todos: aqui, 

(interregno) 

caminhando a sessenta e seis batidas por minuto, numa sub-orgânica geometria desenhada a múltiplos de seis, escrevendo no espaço um espaço que desaparece logo a seguir, memória de peixe obliterada de seis em seis segundos, mas ainda assim perene, imagem de si refletida no chão inaugural, ao mesmo tempo água e pó, espe(ta)cularidade transformada em linóleo, o mesmo fóssil que a alimenta e a retrai, agitando-se para cima, para Norte, tipo vento, uma força propulsora que a faz girar sobre si própria, mas sem plenitude, só planitude, mas depois os pés enraizados no magma, uma explosão interior, e a mulher-corvo-cavalo fazendo um ballet contemporâneo a sessenta a seis batidas por minuto, o corpo profanado em linhas convexas e côncavas, ao mesmo tempo, ganhando altitude e longitude, ao mesmo tempo, os pés tornando-se mais inquisitivos, o ar continuando castrador, mas já suficientemente agitado para que o sistema molecular permita uma subida constante de temperatura, e de repente um som agudo, momentâneo, perturbando a equi-distância que nos separa, testemunhas, da presença divina de Macha, que é agora só corpo moldado segundo um ideal de harmonia sinfónica, ora conquistando o ar, ora dignificando o chão, ora se desconchavando em esqueleto e dúvida, uma tripolaridade nórdica que é ritual e factual, é figura e presença: especular, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, 

(interregno) 

e nós, testemunhas, ao habitar esta nave de neve negra, sejamos o mesmo corpo xamânico que suavemente descansa em cima do seu próprio movimento, para que no último andamento de seis por seis possamos, encantatórios, proferir com Macha o final verso dançado, folclórico, a sessenta e seis batidas de pé por minuto, braços no ar, tronco espiral, esconjurando — “À imoralidade desse gesto contemporâneo de refazer a História, re-começando, de novo, ou despertando, outra vez, confrontemos o natural observável com o saber oculto, criando um espaço de tensão onde a dança, em vez de disciplina, será culto, magia e sublimação” —, já não distinguindo centrípeto de centrífugo, corpo projetado numa só direção, num mesmo tempo, um mesmo espaço, início novo fabricado a partir das flores e das montanhas, e a reinventada língua ancestral a ser engolida pela terra, e o corpo de Macha, plano, não pleno, erétil, devolvendo-se à ordem e ao eco, ao mesmo tempo fumo, ao mesmo espaço elástico, numa visão de caos inicial e destruidor, em homenagem a Thuata Dé Dannan, quando Macha se emancipa do tumulto da romaria experimental que ela própria promoveu, e nos abandona em fim, especulares, ao desastre e à luxúria, as nossas cabeças empaladas nas fortalezas de Mesred Machae, 

(e virou)

Rogério Nuno Costa . 2015


Textos sinóptico e programático escritos para o espetáculo MACHA, uma criação de Mariana Tengner Barros [ideia, coreografia e direção artística] para o Ballet Contemporâneo do Norte. Co-criação e interpretação de Susana Otero. Estreia: 16 e 17 de dezembro, mala voadora, Porto.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

U | Y


UNIVERSIDADE | YLIOPISTO é um macro-projecto de pegadogia virtual trans-nacional e trans-artística. Uma escola para ensinar a anular a arte através da Arte (ou vice-versa). Um laboratório de experiências Pop. Uma master class intitulada "A preguiça como novo avant-garde". Um workshop intensivo de Kopimismo. Um magazine cooltural. E um partido político demagógico, finlandizado e profil(árctico) a financiar o empreendimento.

ANO 1 arranca em 2016. Mais info brevemente...