domingo, 20 de dezembro de 2015

E U R O D A N C E


“Europe was created by History (then Art). America was created by Philosophy (then Art). Economy (now Art) is creating the Rest of the World.”

— in No Limit (21st Century), a song by Too Limited


EURODANCE é uma hecatombe geopolítica e tecno-emocional, um counting down a 190 beats-per-minute em direção ao Fim do Mundo, uma bad trip a bordo de um rave’ião Hamburgo/Ibiza com escala elíptica no Pará e aterragem de emergência para combustível em Luanda, uma droga psicotrópica também conhecida por Azeitegeist™. EURODANCE é um documentário pós-apocalíptico produzido pelo Departamento de Escatologia Vintage do Centro de Estudos Pré-Humanos do Novo Mundo e estuda a última década do Antigo Regime, quando o Mundo ainda se escrevia com letra grande, não existia qualquer diferença epistemológica entre Arte e Desporto, e os artistas eram todos backup dancers de uma banda cósmica universal. EURODANCE dança em Europeu™, mas traz legendas em Novilíngua™. Rouba lyrics às profecias xamânicas de Slavoj Žižek e à filosofia alter-dogmática de Dr. Phil, os primeiros cyborgs da História; rouba beats à ética pré-apocalíptica do movimento mashup e à moral anti-social do tecnobrega; e rouba artworks à estética proto-post-pop dos Jogos sem Fronteiras e à ética re-re-realista da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. EURODANCE é tecnotrónico, é clubístico, é pastilhado, é megalo-colonialista, é etno-musical, é bubblegum pop, é happy hardcore, é chipmunk, é autotune, é playback, é rave’ioli em lata, é vengaboys, é bota gel, é pisang ambon, é electropimba, é technochunga, é carrinhos de choque-em-cadeia, é aeróbica trance-génica, é fitness progressivo, é body pump-up the jam, é macarena, é di-rirá-rá-rá, é contemporary rococó. EURODANCE regressa a todos os pesadelos fin-de-siècle, porque ambiciona uma correção retroativa da Realidade: o Mundo acabou MESMO na noite de 31 de Dezembro de 1999, quando os computadores deixaram de reconhecer a linguagem binária e o mundo (em letra pequena) colapsou. EURODANCE é por isso uma festa meteórica, em homenagem a todos os que (ainda) não morreram. Uma viagem de volta aos anos 90; uma viagem de volta ao Presente™.



Direção, Coreografia, Texto, Vídeo: Rogério Nuno Costa | Bailarinos: André Santos, Dinis Machado, Luís André Sá, Mariana Tengner Barros, Susana Otero | Assistência de Direção: Joclécio Azevedo | Light Design: Daniel Oliveira | Artwork: Diogo Mendes | Figurinos: Jordann Santos | Remix & Cover: Belamix feat. Too Limited™ [Mariana Tengner Barros & Rogério Nuno Costa] | Assistência de Figurinos: Cristiana Fonseca | Produção Executiva: Inês Nogueira. Agradecimentos: Xana Novais, Teatro Municipal do Porto – Rivoli, Sonoscopia, Álvaro Campo, Miguel Loff Barreto, ESMAE, TeCA, Ana Carvalho, Pedro Barreiro. Acolhimentos: Centro Cultural de Milheirós de Poiares (Santa Maria da Feira), mala voadora (Porto), Armazém 22 (Vila Nova de Gaia), Teatro Sá da Bandeira (Santarém), Centro Cultural de Belém/BoxNova (Lisboa).

Um espetáculo Ballet Contemporâneo do Norte originalmente criado para o programa “Outros Formatos” (2014). Ballet Contemporâneo do Norte é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal/Secretaria de Estado da Cultura (Direção-Geral das Artes) e apoiada pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.





EURODANCE é o estudo coreográfico para o espetáculo de teatro musical €TRASH, de Rogério Nuno Costa, com estreia prevista para 2018. Cinco bailarinos são o grupo de “backup dancers” de uma banda techno invisível, trazendo para a linha da frente aquilo que por norma é apenas decorativo, paisagístico, subsidiário. O corpo de baile é agora o protagonista. Ou sobre a tensão/confusão dialética entre Arte e Desporto.




sábado, 19 de dezembro de 2015

MACHA


O momento único e irrepetível do espetáculo, que só o é por ser partilhado com um público, não se trata apenas de um cliché teórico dos estudos de performance. É justamente o único radical comum a qualquer acontecimento performativo que interessa preservar e re-trabalhar. Nesse sentido, propõe-se aqui um regresso às origens, uma re-elaboração ritualística do espetáculo (inequivocamente efémero) trazido para a contemporaneidade, num processo de desvelamento ao mesmo tempo antropológico e mitológico de ações e de gestos que dão forma à nossa cultura mais ancestral (pré-romana e pré-cristã). Regressamos a MACHA, uma importante figura da mitologia celta, divindade protetora dos mortos, deusa da fertilidade e da abundância, para com ela reconciliarmos o ar do tempo com o misticismo por ele recalcado, exaltando forças telúricas, eminentemente femininas, que sempre enformaram a nossa relação com o “mundo” (leia-se: a nossa mundo-visão). MACHA, o espetáculo, será um ritual cósmico, uma romaria experimental, uma viagem trans-dimensional movida por forças do sublime, do oculto e do inconsciente coletivo. O público, parte integrante de uma qualquer tribo pagã, será testemunha de um culto primordial, ao mesmo tempo contemplando e agindo. No espaço de ação estarão também dois Xamãs, uma Entidade e um Druida, ativados por um Canal propiciatório, ao mesmo tempo abstrato e simbólico, concreto e enunciativo. À imoralidade desse gesto contemporâneo de refazer a História, re-começando (“de novo”) ou despertando (“outra vez”), MACHA confrontará o natural observável com o saber oculto, criando um espaço de tensão onde a Dança™, em vez de disciplina, será culto, magia e sublimação.

MACHA Teaser from Vítor D. Rosário on Vimeo.


M A C H A, 

ainda inerte debaixo do fóssil negro de Morrighan, desperta a espaços do seu sono antigo, hipnotizada pelo canto iniciático de Ael, o vermelho, seu pai, e inebriada pela ebulição de Ernmas, druida, sua mãe, lentamente obliterando as raízes que a prendem à terra fértil de Dana, a que não tem princípio nem fim, a que sempre retorna, como Ulster, numa sublimação circular e circulatória de ar, água e seres viventes, em três faces de guerra, de morte e de sensualidade, recordando Rhiannon, a protetora dos equinos, como Epona, o corvo que se alimenta dos cadáveres em combate, a que faz jorrar sangue e fogo, antropomorfizando-se por fim, abrindo-se, expandindo, revelando o corpo de uma atleta, meio mulher meio cavalo, os dedos maiores que as mãos, as mãos maiores que os braços, os braços maiores que o tronco, do tronco erigindo-se uma cabeça estilhaçada em várias faces, os olhos maiores que a cabeça, a cabeça revelando uma face que revela uma máscara que revela outra face que desvela a visão tríplice de uma deusa que vê de olhos fechados, e que quando os abre, em fim, espelha a mórbida realidade onde estamos, todos: aqui, 

(interregno) 

caminhando a sessenta e seis batidas por minuto, numa sub-orgânica geometria desenhada a múltiplos de seis, escrevendo no espaço um espaço que desaparece logo a seguir, memória de peixe obliterada de seis em seis segundos, mas ainda assim perene, imagem de si refletida no chão inaugural, ao mesmo tempo água e pó, espe(ta)cularidade transformada em linóleo, o mesmo fóssil que a alimenta e a retrai, agitando-se para cima, para Norte, tipo vento, uma força propulsora que a faz girar sobre si própria, mas sem plenitude, só planitude, mas depois os pés enraizados no magma, uma explosão interior, e a mulher-corvo-cavalo fazendo um ballet contemporâneo a sessenta a seis batidas por minuto, o corpo profanado em linhas convexas e côncavas, ao mesmo tempo, ganhando altitude e longitude, ao mesmo tempo, os pés tornando-se mais inquisitivos, o ar continuando castrador, mas já suficientemente agitado para que o sistema molecular permita uma subida constante de temperatura, e de repente um som agudo, momentâneo, perturbando a equi-distância que nos separa, testemunhas, da presença divina de Macha, que é agora só corpo moldado segundo um ideal de harmonia sinfónica, ora conquistando o ar, ora dignificando o chão, ora se desconchavando em esqueleto e dúvida, uma tripolaridade nórdica que é ritual e factual, é figura e presença: especular, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, 

(interregno) 

e nós, testemunhas, ao habitar esta nave de neve negra, sejamos o mesmo corpo xamânico que suavemente descansa em cima do seu próprio movimento, para que no último andamento de seis por seis possamos, encantatórios, proferir com Macha o final verso dançado, folclórico, a sessenta e seis batidas de pé por minuto, braços no ar, tronco espiral, esconjurando — “À imoralidade desse gesto contemporâneo de refazer a História, re-começando, de novo, ou despertando, outra vez, confrontemos o natural observável com o saber oculto, criando um espaço de tensão onde a dança, em vez de disciplina, será culto, magia e sublimação” —, já não distinguindo centrípeto de centrífugo, corpo projetado numa só direção, num mesmo tempo, um mesmo espaço, início novo fabricado a partir das flores e das montanhas, e a reinventada língua ancestral a ser engolida pela terra, e o corpo de Macha, plano, não pleno, erétil, devolvendo-se à ordem e ao eco, ao mesmo tempo fumo, ao mesmo espaço elástico, numa visão de caos inicial e destruidor, em homenagem a Thuata Dé Dannan, quando Macha se emancipa do tumulto da romaria experimental que ela própria promoveu, e nos abandona em fim, especulares, ao desastre e à luxúria, as nossas cabeças empaladas nas fortalezas de Mesred Machae, 

(e virou)

Rogério Nuno Costa . 2015


Textos sinóptico e programático escritos para o espetáculo MACHA, uma criação de Mariana Tengner Barros [ideia, coreografia e direção artística] para o Ballet Contemporâneo do Norte. Co-criação e interpretação de Susana Otero. Estreia: 16 e 17 de dezembro, mala voadora, Porto.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

U | Y


UNIVERSIDADE | YLIOPISTO é um macro-projecto de pegadogia virtual trans-nacional e trans-artística. Uma escola para ensinar a anular a arte através da Arte (ou vice-versa). Um laboratório de experiências Pop. Uma master class intitulada "A preguiça como novo avant-garde". Um workshop intensivo de Kopimismo. Um magazine cooltural. E um partido político demagógico, finlandizado e profil(árctico) a financiar o empreendimento.

ANO 1 arranca em 2016. Mais info brevemente...



sábado, 15 de agosto de 2015

A GUERRA DOS MUNDOS™



A GUERRA DOS MUNDOS
Uma comédia digital, promíscua e poliamorosa, dividida em vários atos: festa temática com performance interativa, audiência interpassiva, video mapping na fachada (porque é “só fachada”), ciclo de cinema indie’gesto + tertúlia fraturante (imposta, não exposta), menu de degustação só com tapas (pela empresa de Special K’tering “Sol & Peneira”, amigas foreva iLda., a tapar desde 1998) e DJ set, claro. Uma organização Chef Rø, Turismo Cooltural, S.A., sob a direção de conteúdos de Rogério Nuno Costa e o alto patrocínio de pelo menos uma hamburgueria artesanal.

Género: Stand-Up Tragedy. Técnica: Auto-Sugestão Mista [evangelização das massas mascarada de TED talk]. Público-Alvo: Poorto, industrial & criativo. Dress Code: A Gravidez Histérica É O Novo Avant-Garde. Duração: até passar a moca de MD [stands for “Muita Divertido”]. Palavra-Passe: Lame.

Mais infotainment:


AVANT PROP’S
Ainda que não pareça, isto é uma receita. Uma receita para o Sucesso. O Sucesso vai assim escrito em letra maiúscula pois é o nome de uma personagem (provavelmente protagonista) do texto dramático que estou a escrever para acompanhar o evento A GUERRA DOS MUNDOS™, que é também o nome de um coletivo, de uma plataforma, de uma companhia, de um projeto, de uma associação, de um grupo, de um cluster, de uma startup, e de várias outras congregações territoriais do neo-feudalismo contemporâneo. O Sucesso, salvo raríssimas excepções, veste sempre bling bling e segue escrupulosamente uma dieta mediterrânica à base de Azeite™, o ouro dos néctares adiposos e o tempero preferido dos clubbers tripeiros. O texto dramático chama-se “Tu Queres É Feta!” e segue um género inventado pelos Gregos que é o teatro-de-revista, que é como quem diz, o teatro. Está cheio de trocadilhos totós, linguagem-SMS, descrições meme-boas de sítios fixes para sair à noite, e piadas escatológicas muito básicas e boçais com pretensiosas piscadelas de olho-do-cu à tecnologia digital, à geração smartphone e à implosão do capitalismo. Resultará num espetáculo, ou então num filme, ou então numa instalação sonora, ou então num cacilheiro com cenas dentro, ou então num serviço educativo, desde que caiba numa app e possa ser apreciada tactilmente. Não é um solo, mas vai ter selfies. Também não será uma peça de grupo, antes uma peça de groupies. Inspirações: eu, o meu middle finger, e os meus fãs [aka “escravos sexuais”]. A peça começa com uma entrada triunfal do Sucesso. Tambores, máquina de vento, conffetti, e a deixa:

— Deixa-me, caralho! Tu não és foodie! Tu estás é todo foodie’do!

(sai pela esquerda alta; o Sucesso sai SEMPRE pela esquerda alta.)


OR D’OEUVRE
A vingança serve-se frígida. Se o Aristóteles fosse cozinheiro, morreria à fome. Parece-me lógico. Depois da saída trágica do Sucesso pela esquerda alta, entra uma Voz Off com sotaque americano e retórica portugueZa a explicar aos turistas da Time Out com que linhas se cose a litter’atura-de-cordel da Invicta, com citações da “História da Sexualidade” do Foucault, várias alusões cross-disciplinares ao Design (Porno)Gráfico e à Física de Pares’tículas, e uma irritante tendência para dizer velouté no lugar de sopa passada: “Já me estou a passar!” Perguntar quem é o homem e quem é a mulher numa relação homossexual é o mesmo que perguntar qual dos dedos é a faca e qual é o garfo numa refeição metrossexual. Isto é: mais Moda™ que Foda™. Desde que inventámos a Linguagem que começámos a evoluir para trás. No Telecrã aparece o Carl Sagan a explicar-nos em que parte da História é que nós aparecemos, com os pés a pisar os últimos segundos do dia 31 de Dezembro do calendário cósmico. O Homem já é um homem, e no entanto continua a comemorar o réveillon como se não houvesse amanhã: flûte de champagne já morta numa mão, onze passas por comer na outra, a língua a bater nos dentes, uma linha de sangue a escorrer-lhe da narina direita. A Voz Off cala-se. Desce um telão com uma imagem impressa da Festa da Conga. Paisagem sonora: versão glitch da Romana a ganir “Continuas chamando-me assim, bebé…”. Palminhas. Entra o Rei. Vai nu, claro, mas ainda com as etiquetas da H&M e da Zara penduradas. Arranca as etiquetas e substitui-as por maneiras, lançando o seguinte maneirismo:

— Faz-me um Bobone!

(e sai pela direita alta; o Rei sai SEMPRE pela direita alta.)


ALEGRA-BOCAS
Nos bastidores do Grande Teatro, os atores enfiam os dedos em caviar de esturjão “sterlet” (Acipenser Ruthenus), o único produto alimentar de cor dourada que se conhece na natureza. Ignoram a etimologia com o mesmo fervor com que ignoram as tostinhas de trigo duro, mas dão-lhe forte nos shots de vodka e vão imensas vezes à casa-de-banho. De acordo com o novo acordo ortográfico, boémia agora escreve-se booh!émia. Betos da Foz a fazer de conta que são gunas meets disfunção sexual grave. Meninas, de ambos os sexos, vestidas de Made in Bangladesh da cabeça aos pés, abrem a boca de sono (ou então de pasmo, não se percebe bem); desligam o iPhone para poupar bateria, deixando-se afogar na sua própria vaidade soporífera. Há uma que se levanta, camisa irónica, bandolete transgénero, calça a comer-lhe o cu. Fica de pé uns segundos em posição três quartos, boca-de-pato, pulso quebrado. A seguir vocifera, fechando as vogais e comendo sílabas:

— ‘Méquié, ‘ssoal, isto já deu… Nã’ vai ‘ver after?

(não sai, fica; eternamente.)


ENTRADA
Garimpeiro, substantivo masculino. Aquele que enfia o dedo no cu da galinha a ver se traz ovo. Figurado: folião, borguista, farrista, zombeteiro, galhofeiro. Figurativo: ator, bailarino, performer. Figurão: estrela porno. Os atores saem finalmente dos bastidores, concentradíssimos, mas a fazer de conta que estão descontraídos. Caminham em cima do linóleo branco de marca EUROPA™ com os seus ténis de cores gourmet; o linóleo brilha, parece ter luz própria de tão igual que é a todos os outros linóleos brancos de todos os outros espetáculos que já vimos. É côncavo e convexo ao mesmo tempo, não se percebe. É vegan. Os atores fazem uns movimentos neutros com os braços e o pescoço, como que a dizer: “Isto não é carne nem é peixe”. Tal como os espetadores, que permanecem tenebrosamente sentados a comer bolachas Belgas™ que trouxeram do foyer. Uma das atrizes meneia finalmente a cabeça, fixando o público, para dizer, num tom de voz Sofia Aparício:

— O novo é o novo novo...

(e continua a passar os dedos que ainda cheiram a gordura de esturjão pelo linóleo-branco, qual espetadinha-de-rabo-na-boca, a fazer de conta que é pobre, mas mortinha por regressar aos bastidores, onde faz de conta que é rica.)


PEIXE
Cortina. Ouve-se um excerto da versão poortuguesa da música “Anaconda”, traduzida para “Lagartixa”. Uma luz intensa ofusca o público, mas ninguém ousa abandonar a sala. O cenário é agora uma boîte dançante, com bolas de espelhos, manequins sem cabeça, televisões avariadas, e outros fetiches mal resolvidos com os anos 90 por todo o lado. Entra ROGÉRIO NUNO COSTA, o rei-vai-nu, despido de ouro falso da cabeça aos pés, o cabelo pintado de uma cor irónica (tipo caju) e uma referência ornamental qualquer ao Terceiro Mundo (por exemplo: uma bindi no meio da testa). Pára no centro do palco, lambe o dedo indicador e levanta-o no ar, como que a descobrir o Norte pelo andar do vento. A seguir entra O ARTISTA RESIDENTE com uma cabeça de porco verdadeira enfiada na sua própria cabeça. Mira o corpo coberto de ouro de ROGÉRIO NUNO COSTA e atira-lhe com um maço de dólares falsos. Ruído ensurdecedor, mudança drástica de luz. Começa o diálogo:

ROGÉRIO NUNO COSTA — Conjugas tudo no mais-que-perfeito (simples, composto ou mistura de ambos), transformas o infinitivo dos verbos em substantivos (sobretudo nos títulos) e substituis "cheio" por "pleno" para dar assim um ar latinizante à coisa. Comprova-se: escreves pooesia!

O ARTISTA RESIDENTE — Esse teu amor passional precisa de fundamentação conceptual…

ROGÉRIO NUNO COSTA (apontando para a porta do Zoom) — A diferença entre dar o cv e dar o cu é quase nula!

O ARTISTA RESIDENTE (cínico, comendo sushi) — Que nigiri que tu és!...

ROGÉRIO NUNO COSTA — Justamente! Eu cá nunca vi nenhuma árvore a morrer de pé. Proponho uma reforma estrutural de todas as metáforas de uso corrente.

O ARTISTA RESIDENTE — Verosimilhança é o conceito que aplicas quando o que vês parece mesmo mentira!

ROGÉRIO NUNO COSTA — Ó meu grandessíssimo paneleirão! Mas tu já viste alguém a cozinhar com o “coração”? Ou com “amor”? (diz isto enquanto abana os dedos freneticamente, como que a tocar air piano)

O ARTISTA RESIDENTE (atirando pó dourado ao ar) — Todos precisamos de um milagre… Em bolo bukake!

ROGÉRIO NUNO COSTA — Do caco, estúpido!

O ARTISTA RESIDENTE (cantando) — Quando eu queria que dissesses sim, deste-me um não que até meteu medo! (repete uma vez)

ROGÉRIO NUNO COSTA (cantando mais alto, mão na anca) — Agora queres mas eu digo assim: chupa chupa chupa, chupa no dedo!

(O número de telefone do Apoio ao Cliente da Sociedade Portuguesa de Autores começa a passar em rodapé. Os dois atores, agora vestidos de Batman e Robin, desatam à chapada pós-dramática enquanto berram “Cala-te!” e “¡Cállate!” alternadamente. Cortina.)


INTERMEZZO
Leitura da sinopse:

“O cosplay é a palavra-valise que aglutina costume com play e refere-se a uma actividade lúdica praticada por seres humanos que gostam de fazer de conta que são personagens. Essas personagens podem vir dos universos anime e manga, mas também dos videojogos, do cinema, da música, do teatro de época (ou da época), da gastronomia (movimento recente que dá pelo nome de cozeplay), ou até da Nightlife™ (movimento também recente que dá pelo nome de corteplay, onde os jogadores fazem de conta que estão MESMO numa festa, que essa festa está MESMO a ser a puta da loucura, e que estão todos MESMO a divertir-se que nem porcos na lama). O objetivo é dar forma (sem conteúdo) a essa ideia genérica e trans-epocal a que damos o nome de meta-festa temática (conceito operativo que está na base de toda a produção cultural/artística desde que o homem é Homem até à atual idade). Como refere Slavoj Žižek…”


(a leitura é interrompida pelo gongo; o público é chamado para a segunda parte da sessão de Fake Yoga™.)



CARNE
O cenário é essa catedral do empreendedorismo artes-anal óleossiponense chamado A Padaria Portuguesa. Várias pessoas de calça arregaçada e sapato-sem-meia comem cenas com rúcula, mozzarella e tomate seco em pão que parece que foi polido, envernizado e retocado em Photoshop. As paredes estão cobertas de monos de plástico a imitar o rústico. Os empregados são todos licenciados em Design: têm todos cara de Helvetica. Os clientes falam uma língua que não dominamos; deve ser €uropeu. Das colunas sai uma música dos Deolinda que desafia o ouvinte a não ir ao CCB. Entra a SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS, vestida com um vestido branco e dourado para os pobres, azul e preto para os que fingem a pobreza que deveras sentem. Traz um microfone-à-Madonna, parece que vai dar uma TED talk, mas fala como se fosse programadora cool’tural. Chama pelo ART’LETA, que entra a correr, mascarado de emergente:

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Ó cagão, anda cá! Estou a pensar abrir um restaurante chamado El Bullying. Que achas? (ri-se)

ART’LETA (com sotaque de todas as regiões do País, menos de Lisboa) — Ai, num sei… Ó Boz! Booooz!!! Puosso responder a iesta porgunta? Boz?!

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — És mesmo deficiente, pá! Não percebeste que a pergunta tinha rasteira? Estava a testar a tua endurance conceptual, ou seja, a tua stamina social, a ver se te aguentas de joelhos (a rezar!) até à próxima saison, ou se és dos que cospe no prato que come à primeira oportunidade!

ART’LETA (ajoelhando-se para receber a medalha de ouro) — Prumiêto resistire à tentaçom de fazêre seija o que fuor cum inspiraçom maijómenos diréta na iárte cuntextuále, na crítica institucionále, e na relaçom do artista cu pudêre. Pêlo que precebi, isso bai sêre a ciêna. E iêu soue intuleránte a ciêna. Quándo istoue em ciêna, fico tuôdo inxádo, hiper-bêntilo e fico cum buntáde de faziêre audições…

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Pronto, já chega! Vai lá distribuir cartazes.

(Saem os dois, de braço dado, a caminho das Galerias. A palavra mais vezes repetida é “interessánte”.)


DOCE
Coro: “Uma da manhã, hey, bem bom, duas da manhã. Bem bom, já três da manhã, hey, bem bom, quatro da manhã. Bem bom, cinco da manhã, hey, bem bom, já seis da manhã. Bem bom, sete da manhã, hey, bem bom, oito da manhã…”. Fumo. Drum ‘n’ bass da pior qualidade possível. Espelhos por todo o lado. Gosma no chão. Os performers caem, intoxicados, um a um, no centro da contemporary dancefloor. Aproximam-se uns dos outros, olhos raiados de sangue, mente vazia; trocam fluidos e abanam a peida ao ritmo de temas trap. Não têm dentes, só língua. No meio do caos, entra Penny Arcade, a fumar 27 cigarros ao mesmo tempo; caminha por cima dos despojos, rindo, dançando:

— São como bandos de pardais à solta… Os put@s… Os put@s...

(sai; nada mais há a fazer senão sair.)


FRUTA
Entro eu, vestido de Facebook. Fico a olhar o público com o mesmo ar condescendente que ensaio ao espelho todos os dias desde 1978. Playbackando a minha própria voz:

— Se somos aquilo que comemos, então também somos aquilo que cagamos.

(blackout.)


DIGI’STIVO
Doem-me os dedos de tanto falar. Interrompo o raciocínio para fazer um último xixipster e escrever, caps lock: NÃO TENTAR ISTO EM CASA. Este texto, que é uma receita para o Sucesso, dirige-se ao olho da rua. É de lá que brotam as palavras que o premeiam. Permeável e premiável são quase homófonos, logo, são quase sinónimos. Os efeitos secundários e terciários seguem em letra pequenina. Só lê quem for paciente, ou quem já tenha perdido a paciência para a Paciência, ou quem já não tenha cu para o sofá. Este texto, que é uma receita, deve ser visto à lupa, portanto. Miopia seletiva. Que tudo o que luz, não é ouro, está só coberto de spray dourado e filtros do Instagram. Que em terra de pobres, quem tem um camuflado é rei. Que o sucesso não é para todos, é para tudo. Que isto é só um exemplo de apresentação: o leite é cola branca e a fruta é de plástico. Que os espetáculos são a frente e o verso, ao mesmo tempo, de uma embalagem de cereais de marca Americana™. Que os mais vendidos são os Lucky Charms, twink’le twink’le little stars com grandes decotes e banha de leitão a escorrer no tronco. Que ler é preciso, mas com moderação. Que não é só a comida que é vegan; agora o turismo também, e a espiritualidade, e a divulgação científica, e a arte, e as trocas económicas, e o desporto, e as ações beneméritas, e o jornalismo. Que é tudo só parra, sem uva. Que é tudo corrido a bife de soja com sabor a porco, a caminhar a passos largos para bife de porco com sabor a soja. Que a mediocridade é o novo avant-garde. Que less, temos pena, é mesmo só less.

Pausa.

Porto™, A Melhor Cidade do Mundo, S.A. é agora um medicamento homeopático embrulhado em papel reciclado com logotipo InDesign e desconto especial para profissionais. Não falha. Como aqueles mega-DJ’s da atualidade Macintosh que se vêem obrigados a fazer erros de propósito para provar que estão mesmo a passar som. Há que acreditar! Com muita força! Que 0,1% de talento diluído em 99,9% de água conta como missão. 

Pausa.

No Porto™, A Melhor Cidade do Mundo, S.A., existem duas receitas para o Sucesso: a “social” (a Vida não imita a Arte, mas o Facebook), e a “artística” (a Vida a ser constante e permanentemente aniquilada pela Arte, mesmo que no Facebook). Não são equivalentes; não se complementam. Que os Artistas não passam de Atores a fazer de Artistas. Que 0,1% de receita artística diluída em 99,9% de receita social conta como missão.

[Parêntesis:
o Futuro™ entra de rompante em cena e faz a cameo appearance mais fugaz da História.
Olha para a cidade em modo rolling eyes e diz:
“LOL”.] 

Só existe uma obra artística, a mais abstrata das abstrações, e a mais poderosa também: o dinheiro. Tudo o resto não passa de carne pra canhão. É preciso chamar os Beuys pelos nomes: somos todos artistas o caralho! Andamos a rir-nos de coisas sérias e ainda temos a lata (uma daquelas latas com rótulo vintage) de ir para as escadas da Assembleia mascarados de neo-punks de Ermesinde queixarmo-nos que fomos violados… Por nós próprios! 

Pausa.

Uma chuva dourada cai agora em cima do público, que fica a olhar o palco à espera que alguém diga: “Já acabou”. Recusa-se a fazer figura d’urso e a bater palmas na deixa errada; recusa-se a ser Público, portanto. Todos os twink’le twink’le little shows que se fazem por aí, depois do sol se pôr e a escuridão esconder os erros de racord e as assimetrias de casting, resumem-se a esse momento de indecisão palerma, a essa redundância que nunca mais acaba, porque nunca começou, que o único género de arte que existe é o género artístico.

Pausa.

Quem vai à guerra (dos mundos), ou dá ou leva; não há terceira via possível. Precisamos da boca para comer, mesmo quando já só comemos metáforas, ou quando já só usamos a língua para falar. E precisamos de continuar a acreditar no Menino Jesus, lutando afincadamente por um assento no anfiteatro do Clube Disney™. Fade Out. O Autor aproveita para fazer uma diagonal ao Sucesso, abandonando o palco pela direita baixa, middle finger em riste, cantando: “Perdoai-os, Senhor, que eles sabem o que fazem”.

RNC, 2015, No Rights Reserved


[Este texto é uma adaptação de outro texto intitulado "Finger Food", originalmente publicado na revista RETINA (Coletivo 111). Esta nova versão, direcionada/dedicada à cidade do Porto, integrou a performance "A Guerra dos Mundos" na forma de texto-de-sala impresso em 4 folhas A4 agrafadas. A performance foi apresentada no dia 14 de Agosto de 2015 no Passeio das Virtudes (Porto) para o programa "Pôr-do-Sol nas Virtudes", organizado pela Sonoscopia Associação.]


domingo, 19 de julho de 2015

YEAR ONE, #1. Bucharest [Romania]


Starting tomorrow in Bucharest (Romania), the very first proto-academic cluster for the 'Year One' of the non-art educational project "University/Yliopisto", comprising a workshop, a lecture and a group session. A first draft for the official website will be launched soon after the end of the activities. Stay tuned!

About the workshop & the lecture:

UNIVERSITY | YLIOPISTO
“Dogma 2005: A Prison without Walls”

Workshop with Rogério Nuno Costa
July 20-24, 16:00-19:00
Lecture: July 23rd, 20:00
ODD, Bucharest, Romania
ZonaD – platformă mobilă de dans contemporan și E-Motional

The research project developed under this title by the Portuguese artist, curator and theoretician Rogério Nuno Costa will include an intensive workshop aimed for art practitioners and/or theorists who have already developed some work in the fields of performing and/or visual arts, willing to be confronted with a set of rules that will question their notions of artistic freedom, the methodology behind their creative processes and, above all, the means by which they operate with the formats surrounding the concept of “memory”: archives, documents, leftovers, traces and tracks. The workshop is 50% practical/50% theoretical, and is developed around collective brainstormings, group research, short presentations (lectures/talks), thorough documentation (video, photo and text) and, if possible, a broader audience final presentation. 

The workshop also includes a talk focused on the idea of “self-obstruction” (by the reposition of the artist inside an intriguing critical frame: “the prison without walls”) as a way to achieve a more conscious and transversal notion of “artistic freedom”. This moment can work perfectly as an introduction to projects created by the workshop participants themselves. Some excerpts of the movie “The 5 Obstructions” [by Danish filmmakers Lars von Trier & Jørgen Leth] are used as a starting point and/or as an illustration of the questions and problematics produced. This presentation may assume many different kinds of media: photography, installation, video, sound, text-based performance, dance, drama, conference/lecture-based performance, etc.

The participation to the workshop is free of charge. Interested art practitioners are invited to register by submitting their biography, brief details on their portfolio and a short description of a project there are currently developing, which they would like to discuss/present during the workshop. The workshop is open to maximum 10 participants. The workshop is developed in connection with Universidade/University, the ongoing research project including workshops, group sessions and artist talks, undertaken by Rogério Nuno Costa.

More info:




quarta-feira, 17 de junho de 2015

FUCK YOUR RULES!


FUCK YOU WORLD,
LOVE LETTER TO LIFE


“If the play had a world it would be a transvestite one”
Rogério Nuno Costa


A British citizen born in London, studying in Manchester with Glaswegian heritage. Neither belonging to a religion nor a political party. I attempt not to make unwarranted judgements or bias associations based on the stereotypes of my culture. Though I made the promise the reality show, written and directed by Rogério Nuno Costa adapted from José Maria Vieira Mendes Third Age, does not follow the same obligation, in fact it commits to the opposite. It comments on society and all its stereotypes through the various characters who play numerous versions of the same. Having just celebrated its 40th anniversary of freedom from the dictatorship, it is refreshing to see a piece of work that defies the dictatorships of theatre. Though it can be argued that the authenticity of a stage production is lost to this work through its playback elements, the challenge it poses to an established industry is far more interesting. There’s a saying that springs to mind ‘blood, sweat and tears’ which is what an audience expects from our performers. We expect that they will have studied a text to the point of no mistakes, a context to give the piece a firm reality that we can escape our lives for the duration of the performance, and when the performer makes it to the stage we expect a whole hearted performance that we believe.

“I don’t like actors”

Do we feel cheated? Or do we embrace the fact that these silent rules of theatre might be a little outdated. Costa grabs the move of a generation desperate to have a voice and floods them into 1 world built by 3 dimensions. The context of a university production, commenting on the rules and obligations of students in order to get a grade, the reality show depicting the obsession our society has with watching people’s lives on a screen, and finally the clash of these ‘worlds’ that causes the apocalyptic chaos that the audience witness. Exposure to this chaos is heard through the ear piercing muddle of sounds, songs and speech. He has taken the responsibilities of the actors away and purposefully replaced it with badly lip syncing puppets, who mock the foundations of the degree they are studying. With playback carrying such a negative entourage it’s a commendable risk to produce an entire play based upon it. Commendable, yet the verdict to its success is still in procession.

“I wrote the piece for them [students]”

When the process for this ensemble started back in February it would have been near on impossible to contemplate the end result. Hours upon hours were dedicated to the experimentation of ideas both presented by student and teacher, a novelty that left ego at the door and replaced it with a mutual respect. Did the play chase an unachievable goal and lack an interest in the things that matter the most? Or did it open your mind to the possibility that the concepts of theatre the world has, have started changing? Terceira Idade proudly waves a flag screaming for war against the expectations of theatre.

Hannah McMillan-O’Brien
[International student, Manchester Metropolitan University] 



SINOPSE INCOMPLETA
PARA UM ESPETÁCULO INCOMPLETO:

Faz-se de propósito para que corra mal; ou para que corra bem. (São sinónimos.) Para que corra a meia maratona, só que à velocidade da luz. Ou para que corra contra o tempo. (O espaço, esse, já era.) Atores a fazer de atores; ou então a fazer deles próprios. (São sinónimos.) Atores a correr contra o texto, a bater contra os móveis, a embater no ruído ensurdecedor do linóleo e dos panejamentos. Atores a resistir à obrigatoriedade de fazer um “bom espetáculo”, ou então a desistir de o fazer, ou então a condenar a desistência ela própria, publicando memes edificantes no Facebook. Atores a resistir à ditadura do “talento”, essa falácia vendida pelo X Factor e pelo The Voice. Atores a humilhar publicamente o espetáculo arranjadinho e polido em Photoshop. (Mas escondidos atrás de uma rede social arranjadinha e polida em Photoshop). Atores cobardes, portanto; mas intrépidos, portanto. (São sinónimos.) Atores levantando o dedo indicador em riste, dizendo: “Para quê cantar ao vivo, se podemos fazer playback?” (O meta-virtuosismo é o novo avant-garde.) Contra a medalhização contemporânea do art’leta, contra a mania da perseguição, contra a rotulagem e a catalogação. Atores a disfarçar muito bem para que ninguém repare, e depois a apontar o dedo indicador ao público, dizendo: “Gostais de ser enganados!” (Pagam bilhetes, propinas e outras chamadas de valor acrescentado propositadamente para isso.) “Terceira Idade”, em caps lock, escreve-se: TUDO FALSO — a verdade é desligada, desfasada, às vezes desfeita. Um espetáculo em diferido, gravado em auto-tune, difundido em auto-correct. Atores que desistem de ser a personagem porque já há apps que fazem isso melhor. Atores-velhos, que decidem ser rebeldes aos 80 anos, fazendo piercings e bunjee jumping. Atores incapazes de memorizar um texto porque só conhecem o sub-texto. E a única frase é: “Vai haver guerra”. Atores inoperativos, inconsequentes, desequilibrados. (Como este espetáculo.) E agora uma frase para aparecer na agenda cultural daqueles jornais escritos para pessoas que não sabem ler: “Isto é teatro dentro do cinema. É cinema dentro da televisão. É televisão dentro do teatro.” E a Internet, no fim, a dizer: “Bitches, please…” 

Rogério Nuno Costa


TERCEIRA IDADE
Um reality show de Rogério Nuno Costa
A partir do texto homónimo de José Maria Vieira Mendes

Adaptação, Dramaturgia & Encenação: Rogério Nuno Costa

Interpretação: Ana Simões, Bárbara Fonseca, Bernardo Providência, Bruna AS, Catarina Gomes, Cristiana Gomes, Daniela Marques, Dário Gonçalves, João Vaz Cunha, Luís Fernandes, Luísa Dieguez, Luísa Maria, Marta Ferreira, Patrícia Almeida, Patrícia Gonçalves, Rita Carneiro, Sandra Barreto, Sofia Silva, Susana Cruz Mendes

Direcção Técnica & de Produção: Simão Barros
Assistência de Encenação: Marcya Leah G.
Cenografia, Adereços & Artwork: Lídia M.

Colaboração: Renato Freitas & Filipa Costa
Apoio Dramatúrgico: Hannah McMillan-O'Brien
Assistência de Cenografia: Henrique Margarido
Produção Executiva: Lídia M., Marcya Leah G., Simão Barros




sábado, 21 de março de 2015

BLACK BOX




PARTÍCULAS DOURADAS
NUM MUNDO QUASE SEMPRE VESTIDO DE PRETO

Joana Castro


Um novo modelo quântico foi recentemente revelado pela comunidade científica e vem afirmar que o Big Bang não aconteceu, o Universo não tem princípio nem fim, e a partícula infinitamente pequena que lhe terá dado origem (liricamente apelidada por Einstein de “singularidade”) nunca existiu. Sem antes nem depois, sem história nem memória, sem tempo nem espaço, o que vemos (logo, o que somos), não passa de uma imensidão neutra e infinita, ao mesmo tempo material e imaterial, uma só particularidade transformada numa só universalidade. Sem dentro nem fora, sem linha nem fronteira, proponho para esta peça um não-lugar desprovido de qualquer referência histórica, cultural e vivencial; um espaço inútil, não necessariamente vazio, mas sem razão nem aparência; um espaço mais “questionante” que questionável, onde presença e co-presença se (con)fundam. Ocultação e revelação são finalmente sinónimos: matéria negra. Proponho também uma materialização corporal que faça de mim extraterrestre no meu próprio mundo, entidade circunstancial em permanente estado de (i)migração, à procura incessante de um paraíso perdido: a luz dourada ao fundo do túnel é só mesmo outro túnel, e outro, e outro... Proponho por fim uma espécie de síndrome-do-primeiro-olhar (ou da-primeira-vez) transformado em “espectáculo”: um momento que é ao mesmo tempo solidão e semelhança, e ao mesmo espaço simulacro e simulação. De quanta ilusão precisamos para sobrevi(Ver)? Os físicos que descobriram a não-origem do Mundo diriam: como nunca nada aconteceu, tudo o que surge será sempre novo.



SUPER-POP™

Primeiro uma citação canónica:
“Technological progress has merely provided us with more efficient means for going backwards.”
[Aldous Huxley, ‘Ends and Means’, 1937]


A seguir uma provocação distópica:
“Never skip the intro, stay there!”
[Toda a Gente, ‘Internet’, 2037]


Quando escrevo a sinopse da tua peça, escrevo para ti, escrevo-te. Não reclamo qualquer tipo de autoridade sobre aquele texto, pois o mesmo nasce a partir de ti e das tuas ideias. Também não acho que tenhamos sido os dois a escrevê-lo — o texto existe numa dimensão paralela à existência da tua peça e paralela a nós, que a pensamos; nessa dimensão, autoria e autoridade não são agentes conflituosos, e copyright é mesmo copywrong. O texto, este que agora (te) escrevo e o outro, serão sempre autónomos; começam na tua peça, acabam na tua peça, mas não dependem escrupulosamente dela. É este, perigosamente, um objecto que desafia as leis da gravidade. Isto é grave? Não! Há que suplantar a dualidade e seguir. Que é como quem diz: há que ultrapassar a crise doentia da pós-pós-pós-modernidade e abraçar uma condição que esteja por cima, não que venha depois. Já nada vem depois, nem antes, porque já não há tempo, lembras-te? Como agora é tudo vintage, creio que devíamos criar uma espécie de novo-surrealismo, substituindo todos os pós por super, e reciclando um qualquer automatismo textual a favor de uma irrealidade (ou e-realidade) que faça justiça ao que está sobre, por cima, acima, após. Por outro lado, anular criticamente a ética do “espectáculo a partir de” e sua consequente, e frívola, “interpretação livre”. Ou seja, deixar de confundir Arte com Terapia de Grupo! Toda a inteligência é “artificial”, e este texto, tal como o arranque conceptual da tua peça, é (quase) desprovido de emoção. Falaste-me de máquinas, e as máquinas nunca erram; as máquinas, ou a Máquina, têm sempre razão. Não quero falar do título da tua peça; é metafórico, logo, é um “erro”. Ultrapassemos esse sinal, que eu sei que não é inocente (é um despiste!) em favor de um outro código — proponho a construção de um meta-texto escrito a duas cabeças, quatro mãos, oito cérebros, por aí adiante, que seja o guião não do filme que vais realizar em palco, mas da banda sonora desse mesmo filme que vais realizar em palco. É evidentemente um filme Americano™, de outro modo não seria um filme. É essa a sua ética, logo, é essa a sua estética — crítica e crise são da mesma família. Terão sido também os Americanos™ a inventar a noção contemporânea de Ficção, braço linguístico e estruturante da Pop, tudo fantasias produzidas pelo Método Científico. E a ficção da tua peça é uma ficção científica, por oposição ideológica a uma realidade científica, que não existe. Inscreves-te (e investes-te) naquele que é o melhor discurso crítico e a melhor forma de sátira social! A tua sinopse (e já não o que autoralmente/autoritariamente pretendo dizer com ela) aponta na direcção de um cliché sensacionalista: a origem do Mundo. Uma ideia, portanto. Que já cá estava antes de nós. O Mundo já cá estava antes de nós e no entanto fomos nós que o inventámos. Incrível, não é? Pois é neste paradoxo espácio-temporal que a tua peça se projecta na direcção do espectador, o mesmo que, se quiser ser fiel à sua condição inequívoca de espectador, irá usar este texto-didascália como assistente de bordo ao longo da peça. Pode lê-lo antes, durante, ou depois. Se eu e tu acreditássemos em metáforas, podíamos assumir que tudo começou com uma conversa divina entre um Adão e uma Eva, juntos, num estúdio de gravação, a cozinhar uma Via Láctea from scratch e a partilhar a refeição primordial em torno de um primeiro brainstorming. Não interessa quem faz de Adão e quem faz de Eva; não são identidades, são vozes. Tal como é indiferente quem pergunta e quem responde; o código binário extinguiu-se no exacto momento em que decidimos ir para a sala de ensaios inventar o Mundo — ausência total de identidade, um vazio preenchido por um momento total, infinitamente grande e infinitamente pequeno. Isto é um exercício, portanto; uma equação matemática sem princípio (x) nem fim (y). Uma singularidade a-temporal. Acto único, mas dividido em três (eu, tu, e depois nós, não necessariamente por esta ordem):



TESE
Primeiro andamento, em jeito de brainstorming pré-apocalíptico. Convulsão.

R: Em Endgame (1957), Samuel Beckett propõe uma meta-ficção suspensa num não-tempo que discorre ao longo de um só acto, onde 4 personagens (podia ser só uma, podiam ser 7 biliões) discutem à volta da ideia de FIM, não o fim como inevitabilidade, mas o fim como potencialidade. O mesmo fim que funciona como motor da tua peça, portanto. Endgame não é a tradução do fim de um jogo de xadrez, mas antes o momento infinitamente pequeno e infinitamente grande (ao mesmo tempo) que o antecede, quando já se sabe quem vai ganhar (ou perder, ou ambos), mas no entanto ainda há peças para mover. Ou seja: quando se joga “para nada”. Este é o primeiro acorde e este é o primeiro acordo que lanço para esta nossa pauta-guião. E agora é a tua vez:

J: Não acontece nada. Ocultação e revelação são finalmente sinónimos: matéria negra. Pergunta: será a esperança uma questão de circunstância?

R: Tudo é circunstancial. E tudo é obra do acaso. Não existem coincidências.

J: Metamorfose, tempestade, cidade sonora.

R: Expansão, expansão, expansão…

J: Sim, não só para fora, mas para todos os lados. Para dentro também.

R: Não é tanto o magnetismo, mas a ressonância. Tal como na teoria das super-cordas, que é demasiado complexa para a podermos absorver num espectáculo que é só uma banda sonora…

J: Em vez de super-cordas, podia ser super-sopros?

R: Sim. Uma experiência mais iniciática que ritualística. Diria até uma reconciliação do criacionismo com a teoria da evolução. Deus a fazer vibrar as cordas do tempo, ou a soprar para dentro do Mundo à espera que ele respire.

J: Continuidade.

R: Suspensão.

J: Não acredito na obliteração do humano pela tecnologia. Isso só aconteceria se tivesse sido o humano a inventar a tecnologia. E isso não é verdade; a tecnologia, tal como o Mundo, já cá estava antes de nós. A obliteração do humano será sempre feita pelo humano, não por forças exteriores ao humano.

R: Aliás, a tecnologia está a fazer-nos evoluir para trás. A citação do Huxley é tudo menos distópica. É o regresso ao admirável mundo novo. É o regresso ao Paraíso.

J: O Paraíso é uma cidade em construção embrulhada em plástico translúcido pelas mãos do Christo, o artista e o profeta.

R: Todas as realidades, nomeadamente esta em que estamos, são realidades paralelas. Tudo o que vemos é perpendicular a algo que não existe. Não é falso, é só redundante. Tal como a realidade virtual, por exemplo. Não existe nenhuma realidade que não seja virtual. Ou como diria o Žižek no documentário The Reality Of The Virtual (2004): "The real effects produced, generated, by something which does not yet fully exist, which is not yet fully actual".

J: Estamos a começar a fabricar um “tema”, e eu odeio “temas”. Odeio espectáculos “temáticos”. Quero fazer um espectáculo de dança, não quero fazer um baile de máscaras sci-fi. Posso fechar?

R: Sim. O teu espectáculo é evocativo, não é ilustrativo. (pôr aqui um smiley a piscar o olho)



ANTÍTESE
Segundo andamento, em jeito de análise pós-estruturalista e pós-semiótica às ideias em movimento. Acentuação dos graves. Diminuição do ruído.

R: Agora vou fazer de conta que sou “crítico de arte”, esse equívoco entretanto apadrinhado pelas indústrias criativas, e perguntar: o que é que acontece?

J: A câmara só filma 15 minutos. Tens o tempo que a América™ te deu para responderes à tua própria pergunta! (pôr aqui um smiley com a língua de fora)

R: Mas porquê o preto?

J: É a cor do linóleo, das colunas, dos tripés, dos panejamentos, das varas, dos projectores, da mesa de som, da mesa de luz, dos microfones, dos amplificadores e até das roupas que a equipa técnica veste. Ou seja, é a cor do teatro. O teatro é preto.

R: Resume a tua peça em três palavras.

J: Magnetismo, resistência, gravidade.

R: Então e o corpo? E o espaço? E os clichés todos das sinopses da dança contemporânea que começam com entradas do dicionário da Porto Editora?

J: (pôr aqui um smiley a dizer LOL) O desafio é ficar de pé! Ficar, estar, permanecer, continuar… Sempre assim foi, sempre assim há-de ser.

R: Nem de tempo podemos falar?

J: Podemos. A minha peça anterior (Perto… tanto quanto possível, 2014) era sobre o tempo que leva dois corpos a conhecerem-se. O espaço, ou melhor, o palco, não servia para nada; era um pretexto para um encontro. E para uma passagem do tempo. Nesta nova peça decidi apagar essa questão identitária, suspendendo a visceralidade do corpo, substituindo expressão por impressão, e tornando-me num dispositivo de leitura, ou seja, de revelação, do próprio palco. Os objectos são os protagonistas. É por eles que eu quero que as pessoas se apaixonem. Mas atenção: são só objectos! Não são projecções nem da minha psique, nem da minha emoção, nem da minha sexualidade. Desaprovo uma dança “fetichista” com objectos e/ou com pessoas/corpos. Desaprovo-a como coreógrafa/bailarina, e também como espectadora.

R: Ou seja, objectos apresentados sem aditivos nem intensificadores de sabor. Objectos inteiros.

J: Sim, não são objectos light! São duros de roer, justamente por resistirem amargamente ao vício da metaforização. A maioria deles foram construídos para não serem vistos, para não estarem presentes, para desaparecerem atrás de nós. Gosto destes objectos por serem os underdogs do Design; nem são feios nem bonitos, são só utilitários. É que eu também não gosto nada de “dança gourmet”. Existe uma diferença do tamanho de um abismo entre Arte e Decoração de Interiores…

R: (pôr aqui um smiley a fazer “high 5”) Mas são objectos que amplificam, que conduzem, que intersectam, que conectam. São intermediários.

J: Sim, precisava de uma plasticidade ultra-sensorial que habitasse aquele linóleo. O linóleo é muito mais importante, em área, em monocromia, em tensão, do que eu. Apenas desejei (agora sim, é sexual), ampliar essa sensação de arrebatamento. E de apagamento também. O corpo gigantiza-se, o espaço vai crescendo em cidade amplificada, preto sobre preto, plástico preto sobre borracha plastificada, cidade embrulhada em plástico transparente, ficção, ficção, ficção… E a criação de um império operático de espectadores no fim.

R: Portanto, não há regressão nem progressão. E o palco é um multiverso: não prevê o futuro, já lá está.

J: Sim, já o experienciou.



SÍNTESE
Terceiro e último andamento, em jeito de reconciliação dramática. Equalização.

J: Inversão de marcha: o que é que acontece?

R: A tua peça não é sobre o espaço, é sobre o palco. A cor no título remete, de forma radical, para esse palco. Radical, porque literal. Não há aqui qualquer leitura jungiana da cor; o preto é mesmo só empírico.

J: Voltando ao Einstein, que assombra a sinopse: o preto não existe, é só a ausência total de cor.

R: Exactamente. A tua peça é sobre a oclusão de tensões binárias que deixaram há muito de fazer sentido: o corpo e a máquina, o analógico e o digital, o high tech e o low tech, o high brow e o low brow, a cultura erudita e a cultura popular, a arte e o entretenimento, e por aí adiante... Não há reconciliação consoladora possível, mas também não há conflito; ambos os lados têm razão! Paradoxalmente, a tua peça conta a história de que como chegámos à conclusão que se a resposta nunca mais chega, então se calhar a pergunta está mal formulada, ou precisa de ser eliminada. Na tua peça, o espaço do palco não se distingue do espaço de ensaio. Na verdade, são o mesmo. Ou seja, “il n’y a pas de solution parce qu’il n’y a pas de problème”, já dizia o Duchamp.

J: Conta-me a história da peça, então.

R: Contemplação, suspensão, revelação, problematização, observação, confrontação, resolução. Só que sem moral! O que faz de ti, indubitavelmente, um agente crítico do nosso tempo. Grande parte da produção artística contemporânea ainda se enquadra na ética (e na estética) das fábulas de La Fontaine. E isso é triste. 

J: Quanto mais conheces os animais, mais gostas dos homens?

R: Exacto! É que já nem nos safamos com a desculpa da linguagem. Tudo é linguagem! Se calhar é mesmo verdadeira aquela teoria que diz que tudo isto não passa de um vídeo-jogo. O teu exercício é icónico, logo, fala de nomes, de categorias, de referentes e de significantes. É um jogo linguístico.

J: A música é uma linguagem? (pôr aqui um smiley envergonhado por ter feito uma pergunta tão assustadoramente vintage)

R: A música é a linguagem máxima daquilo que está a acontecer agora. E eu acredito que tudo o que não está a acontecera agora, não existe. Se a música fosse uma ciência, chamava-se Simultaneologia, que é a ideologia do que acontece agora, , em tempo real, e ao mesmo tempo. Também pode significar tudo aquilo que acontece durante, entretanto e enquanto. É essa a temporalidade transversal da tua peça — a banda sonora para um mundo que está a fabricar-se cá dentro e lá fora ao mesmo tempo. Não há separação. Não há escurinho-do-cinema. Não há emersão escapista, nem nada dessas tretas inventadas pela Sociologia.

J: Então e nós, eu e o Flávio, somos o quê?

R: Nós só somos o que somos porque: 1) o dizemos; 2) duvidamos da alínea 1). Por isso perguntar será sempre o melhor remédio! Acho que é isso: tu e o Flávio são presenças questionantes. É muito giro quando trocam de papel; é essa dimensão shapeshifter que coloca a peça descaradamente no campo da ficção científica: o corpo a emancipar-se da máquina, a máquina a voltar ao corpo, os dois a tentar encontrar o desencontro, a des-aproximarem-se. No fundo, no fundo, é uma história de amor.

J: Porquê Super-Pop?

R: Porque é um super-poder. A máquina tem sempre razão. Nós somos a máquina. Logo, nós temos sempre razão. Já dizia o Aristóteles…

J: Sublimação?

R: O palco é um interface, uma janela não para mas do universo paralelo. Há uma noção muito interessante, quase caleidoscópica, de que tu e o Flávio estão a ser observados de vários ângulos. Não há contemplação possível. Temos que estar dentro e fora ao mesmo tempo. E à volta também. Por cima, sempre. A tua peça não está para lá da Pop. Está por cima dela. Camadas sobre camadas. É uma cena quase geológica. A cidade sonora que tu queres construir já está a ser desenterrada no Futuro. E é lá, no Futuro, que a tua peça se passa. 

J: Estamos a voltar à festa temática com o dress code cyborg…

R: (meter aqui um smiley assustado) Não! Tu resolves isso muito bem no Fim... Repara que escrevi a palavra Fim com maiúscula, para acentuar a sua dimensão teatral. O Fim é uma “pessoa” na tua peça. É a única que fala, aliás. É uma força centrípeta e centrífuga ao mesmo tempo. É ela que te puxa para a boca de cena e te obriga a abraçar o tragicómico que é comunicar, olhos nos olhos, com o público. E a comunicação, sobretudo quando imposta…

J: Todos os espectáculos são imposições!

R: …encerra em si uma guerra. Uma guerra absolutamente patética. No teu palco, essa guerra é anterior ao wireless, precisa da ligação por fios, precisa da disquete de arranque, precisa de um Regresso ao Futuro. E o Futuro é retro! É anos 80, é consola Nintendo, é cubo mágico. Basta visitarmos as catedrais do hi(p)sterismo do Porto e de Lisboa (lojas, cafés, teatros, museus, etc…) para vermos o digital a querer mimetizar o analógico — a camisola de lã tricotada pela avó de 90 anos só que desenhada em Photoshop e replicada em massa para ser vendida na Vida Portugueza…

J: E isso é bom ou mau?

R: Nem uma coisa nem outra. Tínhamos prometido abolir a dualidade, lembras-te?

J: Então se a tecnologia não é um prolongamento do humano, pode ser um amplificador da própria noção de humano, uma lupa?

R: Sim, mas uma lupa retrovisora. O universo está em expansão permanente. Mas para trás. Como que a ganhar espaço ao Espaço, e com isso a “perder” Tempo. Isto não é poesia, sabes? Isto é a guerra das guerras. E devia afectar mais pessoas e mais artistas como tu e como eu. Porque se o Universo não tem início nem fim, então não faz sentido falarmos em História. Então a pós-modernidade nem sequer uma condição é. Então devíamos parar de acreditar na supremacia do Humano e aconchegarmo-nos na nossa própria insignificância cósmica. E devíamos definitivamente impedir que a Arte se transforme em Design. Isto não é de todo derrotista. Isto é a nossa tábua de salvação.

J: Ou seja, há esperança?

R: Nunca houve mais nada a não ser isso.


Rogério Nuno Costa, a partir de Joana Castro
Ou então Joana Castro, a partir de Rogério Nuno Costa
Porto, Março de 2015




Concepção, direcção e interpretação: Joana Castro
Música ao vivo: Flávio Rodrigues e Joana Castro
Desenho de luz: Alexandre Vieira
Figurinos e cenografia: Joana Castro
Texto e Documentação: Rogério Nuno Costa
Imagem: Lino Cabral

Fotografias de Cena: José Caldeira
Agradecimentos: Fábio Lopes, F. Ribeiro, Nuno Preto e Raquel Ferreira
Residência: Palcos Instáveis




segunda-feira, 2 de março de 2015

World Wild Web


WTFPL (Do What The Fuck You Want To Public License)
Aplica-se a todas as produções artísticas e intelectuais da "autoria" de Rogério Nuno Costa [aka Riku Nuutti Koistinen aka Chef Rø]




#1
Boa noite,

Gostaria de saber quais os procedimentos a tomar no sentido de cancelar a minha inscrição. Tenciono deixar de ser vosso cooperador, por discordar com alguns princípios fundamentais por vós defendidos publicamente a propósito da "Lei da Cópia Privada".

Aguardo instruções.

Atenciosamente,
Rogério Nuno Costa



#2
Caro Rogério Nuno Costa,

Conforme acabamos de falar pessoalmente, e em seguimento ao seu email de dia 5, venho informar que em conformidade com os estatutos da GDA, se assim entender, pode formalizar a sua demissão como cooperador por via de uma carta registada. De momento não tem valor em Conta Corrente.

Quero desde já agradecer a sua disponibilidade em responder ao email que recebeu da parte do nosso Presidente, sendo do nosso interesse tomar conhecimento do ponto de vista que defende.


Artigo 13º
(Demissão)

1. Os cooperadores podem, mediante carta registada, com aviso de recepção dirigida à Direção, solicitar em qualquer altura a sua demissão da Cooperativa, sem prejuízo da responsabilidade pelo cumprimento das suas obrigações estatutárias.

2. A demissão do cooperador da Cooperativa será obrigatoriamente concedida, desde que se mostre liquidado o saldo da conta corrente do cooperador demissionário.

3. Se a conta corrente acusar um saldo positivo este será pago ao cooperador demissionário.

4. Em qualquer dos casos, ser-lhe-á restituído no prazo máximo de um ano o valor dos títulos de capital realizado.

Com os melhores cumprimentos,
E os meus votos para um excelente ano 2015,
Evelin Kuhnle, Chefe Serviço do Apoio ao Cooperador e Comunicação



#3
Caro Cooperador,

Penso que já terá, ou em breve receberá, confirmação de que os Estatutos da GDA prevêem a possibilidade de desvinculação pretendida. Nem poderia ser de outra forma, uma vez que a liberdade de associação (ou de não-associação no caso vertente) é um Direito Constitucional consagrado!

No entanto gostaria que tivesse em conta que a actividade de Gestão Colectiva dos Direitos dos Artistas Intérpretes ou Executantes, levada a cabo pela GDA, tem uma latitude e abrangência que em muito ultrapassam o caso particular da Cópia Privada, incidindo sobre um leque de Direitos muito mais vasto que procura proteger e equilibrar o valor da Criação Artística face aos interesses e pressões dos “Mercados”.

De facto o “lobby” das grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações, com óbvia manipulação da imprensa tecnológica e da comunidade internauta, conseguiu a nível global fazer da questão da cópia privada uma verdadeira “tempestade num copo de água”!!!

De facto o impacto médio em causa em Portugal é de cerca de 0,7% dos custos de distribuição, irrisório e perfeitamente absorvível pelas margens de lucro dessa mesma industria, capaz de lançar campanhas de 30, 50 ou mesmo 100% de redução de preços, para colocação de novos modelos ou de fidelizações a 24 meses, que os consumidores assumem sem pensar duas vezes!!!

De facto qualquer Tablet ou Smartphone vem carregado, a favor daquelas industrias, de múltiplas “cópias privadas”, na forma de patentes e licenças sobre dispositivos e aplicativos que, quer os usem ou não, os consumidores estão a pagar sem pensar duas vezes!!!

De facto aquelas industrias facturam milhões vendendo mecanismos e “software” cuja única razão de existir é a exploração secundária do trabalho dos Criadores!!!

De facto a questão para as grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações não é a cópia privada em si, mas sim uma vasta estratégia a médio prazo que procura desvalorizar os “Conteúdos” para capitalizar os “Continentes”!!!

Basta atentar no verdadeiro ESCÂNDALO das remunerações dos Artistas que está em curso no negócio de “Streaming” para compreender o conluio que vai entre aquelas Industrias e as Fonográficas e Audiovisuais, “dossier” que a GDA não vai dar de barato sem uma luta radical…!!!

Agradecemos sinceramente o seu interesse e honestidade relativamente a estas questões e estaremos, seja qual for a decisão, sempre ao seu dispor na defesa dos Criadores e do acesso à Cultura.

Com os melhores cumprimentos,
Pedro Wallenstein, Presidente



#4



#5
Caro Pedro Wallenstein,

Gostaria antes de mais de agradecer a sua mensagem e lamentar a demora na minha resposta. Contrariamente ao que é normal, o início do novo ano foi demasiado intenso profissionalmente. Hoje, e com a ajuda "moral" da recente aprovação pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da “Lei da Cópia Privada”, decidi finalmente responder-lhe.

Em primeiro lugar, creio ser importante referir que a decisão de me desvincular da GDA foi ponderada e teve em consideração o conhecimento óbvio que tenho do âmbito de acção desse organismo e da aplicação financeira que é executada através dos fundos cultural e social que disponibiliza aos seus cooperadores. Não estou, portanto, a reduzir este assunto, nem a GDA, à polémica em torno da Lei da Cópia Privada, ainda que seja essa, e usando um chavão, a “gota que fez esbordar o copo”. Quando, em 2008, decidi inscrever-me, fi-lo por concordar, em abstracto, com os pressupostos que me foram apresentados, e que convictamente aceitei. Ao longo dos últimos anos, porém, e inspirado por um interesse simultaneamente pessoal e profissional, fui estudando várias temáticas que gravitam em torno do conceito genérico de “copyright”, incorporando grande parte desse estudo no meu trabalho enquanto encenador, dramaturgo, investigador e professor. Por razões que não vale muito a pena perder tempo a elencar (a maioria são evidentes, creio), a minha permanência enquanto cooperador da GDA foi-se tornando progressivamente desconfortável, por contrariar de forma linear muitos dos postulados que eram cada vez mais evidentes no meu discurso artístico/ensaístico. Não me vou alargar nesses postulados para ir directo à questão mais recente:

Oponho-me, convicta e informadamente, à Lei da Cópia Privada e, concomitantemente, a todas as organizações privadas de “gestão colectiva” de “direitos” que, através da aplicação, muitas vezes anti-democrática, de taxas absurdas sobre bens que não são sequer “consumíveis”, fazem tábua rasa de uma (r)evolução que não é só tecnológica (é finalmente cultural, porque verdadeiramente democrática), perpetuando sistemas ditatoriais de controlo daquilo que pertence, apenas e só, à esfera privada. Na base dessa Lei e nos argumentos que a sustentam subsiste um conjunto de mal-entendidos muito graves, apoiados na sua maioria por ambiguidades terminológicas — a mina de ouro ideal para a criação de leis incompreensíveis que conseguem fintar os limites do constitucional e assustar o "cidadão comum" com ameaças coercivas. É inacreditável como é que uma máfia organizada conseguiu convencer a opinião pública que copiar um ficheiro partilhado de um filme para ver em casa, por exemplo, é equivalente a “roubar”…

Perante esta conjuntura, não posso deixar de me sentir defraudado (e até envergonhado) quando no passado dia 15 de Setembro de 2014 recebo um e-mail vosso com o título “Cópia Privada – uma comédia de enganos”, no texto do qual se manifestam em prol de algo que contraria a forma como me posiciono, ética e esteticamente, em relação a todo um conjunto de temas dos quais a Lei da Cópia Privada é apenas a ponta do iceberg. Nesse sentido, e só nesse, a minha decisão consubstancia-se na evidência de que não posso afirmar (na forma de espectáculo, ensaio, comunicação pública, aula, post no Facebook, instalação-vídeo, entrevista para um jornal, seja o que for!) algo que será depois derrubado pelas minhas acções, pelos grupos a que pertenço, pelas causas que abraço, pelas petições que assino e, evidentemente, pelos organismos (tenham a natureza jurídica que tiverem) aos quais pertenço ou com os quais colaboro/coopero. Quero manter intacta a minha dignidade ética (que, para mal dos meus pecados, se confunde com a estética), e quero afastar-me do "risco" de um dia vir a ser acusado pelos meus "pares" de cuspir nos pratos que como, ou de ser "hipócrita" (esse tão fácil insulto).

Também não vou rebater os argumentos triplamente exclamatórios que me apresenta !!! Com o devido respeito, não concordo com nenhum, e acho que muitos vêm envenenados pelas ambiguidades que acima referi; não creio que valha a pena, nem para mim nem para si, fazermos disto um Prós & Contras virtual. Despendi imenso tempo a ler tudo o que me foi possível encontrar sobre o assunto para poder tomar uma decisão que é fundamentada em várias frentes (não existem só duas; essa coisa do Bem contra o Mal é um ideal romântico que nunca passou disso mesmo, um ideal…), por isso sei do que estou a falar e sei que não estou a filiar-me de forma cega (como as suas palavras parecem querer depreender) na retórica de um certo grupo de agentes e polemistas que usam a Internet para disseminar uma agenda contra organismos como a GDA. Ainda que me apoie no pensamento e na acção de pessoas como ESTA, a minha decisão é autónoma, socialmente consciente e politicamente independente. Não tenciono transformar isto numa batalha contra a GDA, ou contra aqueles que continuam a compactuar com este sistema, até porque sei que ele, o sistema (e com ele a GDA) têm os dias contados! Sim, alimento uma fé inabalável no Futuro — ESTE, por exemplo, acontece já amanhã! É por isso que este e-mail, e os acontecimentos que o provocaram, fazem já parte de um passado longínquo e retrógrado do qual todos nos vamos rir. Muito...

Agradeço uma vez mais o esforço que fez de me ter escrito este e-mail, e também o esforço da simpática Chefe dos Serviços de Apoio ao Cooperador Evelin Kuhnle de me ter telefonado, mas não existe qualquer vontade da minha parte em reconsiderar.

Com os melhores cumprimentos,



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