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sábado, 15 de agosto de 2015

A GUERRA DOS MUNDOS™



A GUERRA DOS MUNDOS
Uma comédia digital, promíscua e poliamorosa, dividida em vários atos: festa temática com performance interativa, audiência interpassiva, video mapping na fachada (porque é “só fachada”), ciclo de cinema indie’gesto + tertúlia fraturante (imposta, não exposta), menu de degustação só com tapas (pela empresa de Special K’tering “Sol & Peneira”, amigas foreva iLda., a tapar desde 1998) e DJ set, claro. Uma organização Chef Rø, Turismo Cooltural, S.A., sob a direção de conteúdos de Rogério Nuno Costa e o alto patrocínio de pelo menos uma hamburgueria artesanal.

Género: Stand-Up Tragedy. Técnica: Auto-Sugestão Mista [evangelização das massas mascarada de TED talk]. Público-Alvo: Poorto, industrial & criativo. Dress Code: A Gravidez Histérica É O Novo Avant-Garde. Duração: até passar a moca de MD [stands for “Muita Divertido”]. Palavra-Passe: Lame.

Mais infotainment:


AVANT PROP’S
Ainda que não pareça, isto é uma receita. Uma receita para o Sucesso. O Sucesso vai assim escrito em letra maiúscula pois é o nome de uma personagem (provavelmente protagonista) do texto dramático que estou a escrever para acompanhar o evento A GUERRA DOS MUNDOS™, que é também o nome de um coletivo, de uma plataforma, de uma companhia, de um projeto, de uma associação, de um grupo, de um cluster, de uma startup, e de várias outras congregações territoriais do neo-feudalismo contemporâneo. O Sucesso, salvo raríssimas excepções, veste sempre bling bling e segue escrupulosamente uma dieta mediterrânica à base de Azeite™, o ouro dos néctares adiposos e o tempero preferido dos clubbers tripeiros. O texto dramático chama-se “Tu Queres É Feta!” e segue um género inventado pelos Gregos que é o teatro-de-revista, que é como quem diz, o teatro. Está cheio de trocadilhos totós, linguagem-SMS, descrições meme-boas de sítios fixes para sair à noite, e piadas escatológicas muito básicas e boçais com pretensiosas piscadelas de olho-do-cu à tecnologia digital, à geração smartphone e à implosão do capitalismo. Resultará num espetáculo, ou então num filme, ou então numa instalação sonora, ou então num cacilheiro com cenas dentro, ou então num serviço educativo, desde que caiba numa app e possa ser apreciada tactilmente. Não é um solo, mas vai ter selfies. Também não será uma peça de grupo, antes uma peça de groupies. Inspirações: eu, o meu middle finger, e os meus fãs [aka “escravos sexuais”]. A peça começa com uma entrada triunfal do Sucesso. Tambores, máquina de vento, conffetti, e a deixa:

— Deixa-me, caralho! Tu não és foodie! Tu estás é todo foodie’do!

(sai pela esquerda alta; o Sucesso sai SEMPRE pela esquerda alta.)


OR D’OEUVRE
A vingança serve-se frígida. Se o Aristóteles fosse cozinheiro, morreria à fome. Parece-me lógico. Depois da saída trágica do Sucesso pela esquerda alta, entra uma Voz Off com sotaque americano e retórica portugueZa a explicar aos turistas da Time Out com que linhas se cose a litter’atura-de-cordel da Invicta, com citações da “História da Sexualidade” do Foucault, várias alusões cross-disciplinares ao Design (Porno)Gráfico e à Física de Pares’tículas, e uma irritante tendência para dizer velouté no lugar de sopa passada: “Já me estou a passar!” Perguntar quem é o homem e quem é a mulher numa relação homossexual é o mesmo que perguntar qual dos dedos é a faca e qual é o garfo numa refeição metrossexual. Isto é: mais Moda™ que Foda™. Desde que inventámos a Linguagem que começámos a evoluir para trás. No Telecrã aparece o Carl Sagan a explicar-nos em que parte da História é que nós aparecemos, com os pés a pisar os últimos segundos do dia 31 de Dezembro do calendário cósmico. O Homem já é um homem, e no entanto continua a comemorar o réveillon como se não houvesse amanhã: flûte de champagne já morta numa mão, onze passas por comer na outra, a língua a bater nos dentes, uma linha de sangue a escorrer-lhe da narina direita. A Voz Off cala-se. Desce um telão com uma imagem impressa da Festa da Conga. Paisagem sonora: versão glitch da Romana a ganir “Continuas chamando-me assim, bebé…”. Palminhas. Entra o Rei. Vai nu, claro, mas ainda com as etiquetas da H&M e da Zara penduradas. Arranca as etiquetas e substitui-as por maneiras, lançando o seguinte maneirismo:

— Faz-me um Bobone!

(e sai pela direita alta; o Rei sai SEMPRE pela direita alta.)


ALEGRA-BOCAS
Nos bastidores do Grande Teatro, os atores enfiam os dedos em caviar de esturjão “sterlet” (Acipenser Ruthenus), o único produto alimentar de cor dourada que se conhece na natureza. Ignoram a etimologia com o mesmo fervor com que ignoram as tostinhas de trigo duro, mas dão-lhe forte nos shots de vodka e vão imensas vezes à casa-de-banho. De acordo com o novo acordo ortográfico, boémia agora escreve-se booh!émia. Betos da Foz a fazer de conta que são gunas meets disfunção sexual grave. Meninas, de ambos os sexos, vestidas de Made in Bangladesh da cabeça aos pés, abrem a boca de sono (ou então de pasmo, não se percebe bem); desligam o iPhone para poupar bateria, deixando-se afogar na sua própria vaidade soporífera. Há uma que se levanta, camisa irónica, bandolete transgénero, calça a comer-lhe o cu. Fica de pé uns segundos em posição três quartos, boca-de-pato, pulso quebrado. A seguir vocifera, fechando as vogais e comendo sílabas:

— ‘Méquié, ‘ssoal, isto já deu… Nã’ vai ‘ver after?

(não sai, fica; eternamente.)


ENTRADA
Garimpeiro, substantivo masculino. Aquele que enfia o dedo no cu da galinha a ver se traz ovo. Figurado: folião, borguista, farrista, zombeteiro, galhofeiro. Figurativo: ator, bailarino, performer. Figurão: estrela porno. Os atores saem finalmente dos bastidores, concentradíssimos, mas a fazer de conta que estão descontraídos. Caminham em cima do linóleo branco de marca EUROPA™ com os seus ténis de cores gourmet; o linóleo brilha, parece ter luz própria de tão igual que é a todos os outros linóleos brancos de todos os outros espetáculos que já vimos. É côncavo e convexo ao mesmo tempo, não se percebe. É vegan. Os atores fazem uns movimentos neutros com os braços e o pescoço, como que a dizer: “Isto não é carne nem é peixe”. Tal como os espetadores, que permanecem tenebrosamente sentados a comer bolachas Belgas™ que trouxeram do foyer. Uma das atrizes meneia finalmente a cabeça, fixando o público, para dizer, num tom de voz Sofia Aparício:

— O novo é o novo novo...

(e continua a passar os dedos que ainda cheiram a gordura de esturjão pelo linóleo-branco, qual espetadinha-de-rabo-na-boca, a fazer de conta que é pobre, mas mortinha por regressar aos bastidores, onde faz de conta que é rica.)


PEIXE
Cortina. Ouve-se um excerto da versão poortuguesa da música “Anaconda”, traduzida para “Lagartixa”. Uma luz intensa ofusca o público, mas ninguém ousa abandonar a sala. O cenário é agora uma boîte dançante, com bolas de espelhos, manequins sem cabeça, televisões avariadas, e outros fetiches mal resolvidos com os anos 90 por todo o lado. Entra ROGÉRIO NUNO COSTA, o rei-vai-nu, despido de ouro falso da cabeça aos pés, o cabelo pintado de uma cor irónica (tipo caju) e uma referência ornamental qualquer ao Terceiro Mundo (por exemplo: uma bindi no meio da testa). Pára no centro do palco, lambe o dedo indicador e levanta-o no ar, como que a descobrir o Norte pelo andar do vento. A seguir entra O ARTISTA RESIDENTE com uma cabeça de porco verdadeira enfiada na sua própria cabeça. Mira o corpo coberto de ouro de ROGÉRIO NUNO COSTA e atira-lhe com um maço de dólares falsos. Ruído ensurdecedor, mudança drástica de luz. Começa o diálogo:

ROGÉRIO NUNO COSTA — Conjugas tudo no mais-que-perfeito (simples, composto ou mistura de ambos), transformas o infinitivo dos verbos em substantivos (sobretudo nos títulos) e substituis "cheio" por "pleno" para dar assim um ar latinizante à coisa. Comprova-se: escreves pooesia!

O ARTISTA RESIDENTE — Esse teu amor passional precisa de fundamentação conceptual…

ROGÉRIO NUNO COSTA (apontando para a porta do Zoom) — A diferença entre dar o cv e dar o cu é quase nula!

O ARTISTA RESIDENTE (cínico, comendo sushi) — Que nigiri que tu és!...

ROGÉRIO NUNO COSTA — Justamente! Eu cá nunca vi nenhuma árvore a morrer de pé. Proponho uma reforma estrutural de todas as metáforas de uso corrente.

O ARTISTA RESIDENTE — Verosimilhança é o conceito que aplicas quando o que vês parece mesmo mentira!

ROGÉRIO NUNO COSTA — Ó meu grandessíssimo paneleirão! Mas tu já viste alguém a cozinhar com o “coração”? Ou com “amor”? (diz isto enquanto abana os dedos freneticamente, como que a tocar air piano)

O ARTISTA RESIDENTE (atirando pó dourado ao ar) — Todos precisamos de um milagre… Em bolo bukake!

ROGÉRIO NUNO COSTA — Do caco, estúpido!

O ARTISTA RESIDENTE (cantando) — Quando eu queria que dissesses sim, deste-me um não que até meteu medo! (repete uma vez)

ROGÉRIO NUNO COSTA (cantando mais alto, mão na anca) — Agora queres mas eu digo assim: chupa chupa chupa, chupa no dedo!

(O número de telefone do Apoio ao Cliente da Sociedade Portuguesa de Autores começa a passar em rodapé. Os dois atores, agora vestidos de Batman e Robin, desatam à chapada pós-dramática enquanto berram “Cala-te!” e “¡Cállate!” alternadamente. Cortina.)


INTERMEZZO
Leitura da sinopse:

“O cosplay é a palavra-valise que aglutina costume com play e refere-se a uma actividade lúdica praticada por seres humanos que gostam de fazer de conta que são personagens. Essas personagens podem vir dos universos anime e manga, mas também dos videojogos, do cinema, da música, do teatro de época (ou da época), da gastronomia (movimento recente que dá pelo nome de cozeplay), ou até da Nightlife™ (movimento também recente que dá pelo nome de corteplay, onde os jogadores fazem de conta que estão MESMO numa festa, que essa festa está MESMO a ser a puta da loucura, e que estão todos MESMO a divertir-se que nem porcos na lama). O objetivo é dar forma (sem conteúdo) a essa ideia genérica e trans-epocal a que damos o nome de meta-festa temática (conceito operativo que está na base de toda a produção cultural/artística desde que o homem é Homem até à atual idade). Como refere Slavoj Žižek…”


(a leitura é interrompida pelo gongo; o público é chamado para a segunda parte da sessão de Fake Yoga™.)



CARNE
O cenário é essa catedral do empreendedorismo artes-anal óleossiponense chamado A Padaria Portuguesa. Várias pessoas de calça arregaçada e sapato-sem-meia comem cenas com rúcula, mozzarella e tomate seco em pão que parece que foi polido, envernizado e retocado em Photoshop. As paredes estão cobertas de monos de plástico a imitar o rústico. Os empregados são todos licenciados em Design: têm todos cara de Helvetica. Os clientes falam uma língua que não dominamos; deve ser €uropeu. Das colunas sai uma música dos Deolinda que desafia o ouvinte a não ir ao CCB. Entra a SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS, vestida com um vestido branco e dourado para os pobres, azul e preto para os que fingem a pobreza que deveras sentem. Traz um microfone-à-Madonna, parece que vai dar uma TED talk, mas fala como se fosse programadora cool’tural. Chama pelo ART’LETA, que entra a correr, mascarado de emergente:

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Ó cagão, anda cá! Estou a pensar abrir um restaurante chamado El Bullying. Que achas? (ri-se)

ART’LETA (com sotaque de todas as regiões do País, menos de Lisboa) — Ai, num sei… Ó Boz! Booooz!!! Puosso responder a iesta porgunta? Boz?!

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — És mesmo deficiente, pá! Não percebeste que a pergunta tinha rasteira? Estava a testar a tua endurance conceptual, ou seja, a tua stamina social, a ver se te aguentas de joelhos (a rezar!) até à próxima saison, ou se és dos que cospe no prato que come à primeira oportunidade!

ART’LETA (ajoelhando-se para receber a medalha de ouro) — Prumiêto resistire à tentaçom de fazêre seija o que fuor cum inspiraçom maijómenos diréta na iárte cuntextuále, na crítica institucionále, e na relaçom do artista cu pudêre. Pêlo que precebi, isso bai sêre a ciêna. E iêu soue intuleránte a ciêna. Quándo istoue em ciêna, fico tuôdo inxádo, hiper-bêntilo e fico cum buntáde de faziêre audições…

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Pronto, já chega! Vai lá distribuir cartazes.

(Saem os dois, de braço dado, a caminho das Galerias. A palavra mais vezes repetida é “interessánte”.)


DOCE
Coro: “Uma da manhã, hey, bem bom, duas da manhã. Bem bom, já três da manhã, hey, bem bom, quatro da manhã. Bem bom, cinco da manhã, hey, bem bom, já seis da manhã. Bem bom, sete da manhã, hey, bem bom, oito da manhã…”. Fumo. Drum ‘n’ bass da pior qualidade possível. Espelhos por todo o lado. Gosma no chão. Os performers caem, intoxicados, um a um, no centro da contemporary dancefloor. Aproximam-se uns dos outros, olhos raiados de sangue, mente vazia; trocam fluidos e abanam a peida ao ritmo de temas trap. Não têm dentes, só língua. No meio do caos, entra Penny Arcade, a fumar 27 cigarros ao mesmo tempo; caminha por cima dos despojos, rindo, dançando:

— São como bandos de pardais à solta… Os put@s… Os put@s...

(sai; nada mais há a fazer senão sair.)


FRUTA
Entro eu, vestido de Facebook. Fico a olhar o público com o mesmo ar condescendente que ensaio ao espelho todos os dias desde 1978. Playbackando a minha própria voz:

— Se somos aquilo que comemos, então também somos aquilo que cagamos.

(blackout.)


DIGI’STIVO
Doem-me os dedos de tanto falar. Interrompo o raciocínio para fazer um último xixipster e escrever, caps lock: NÃO TENTAR ISTO EM CASA. Este texto, que é uma receita para o Sucesso, dirige-se ao olho da rua. É de lá que brotam as palavras que o premeiam. Permeável e premiável são quase homófonos, logo, são quase sinónimos. Os efeitos secundários e terciários seguem em letra pequenina. Só lê quem for paciente, ou quem já tenha perdido a paciência para a Paciência, ou quem já não tenha cu para o sofá. Este texto, que é uma receita, deve ser visto à lupa, portanto. Miopia seletiva. Que tudo o que luz, não é ouro, está só coberto de spray dourado e filtros do Instagram. Que em terra de pobres, quem tem um camuflado é rei. Que o sucesso não é para todos, é para tudo. Que isto é só um exemplo de apresentação: o leite é cola branca e a fruta é de plástico. Que os espetáculos são a frente e o verso, ao mesmo tempo, de uma embalagem de cereais de marca Americana™. Que os mais vendidos são os Lucky Charms, twink’le twink’le little stars com grandes decotes e banha de leitão a escorrer no tronco. Que ler é preciso, mas com moderação. Que não é só a comida que é vegan; agora o turismo também, e a espiritualidade, e a divulgação científica, e a arte, e as trocas económicas, e o desporto, e as ações beneméritas, e o jornalismo. Que é tudo só parra, sem uva. Que é tudo corrido a bife de soja com sabor a porco, a caminhar a passos largos para bife de porco com sabor a soja. Que a mediocridade é o novo avant-garde. Que less, temos pena, é mesmo só less.

Pausa.

Porto™, A Melhor Cidade do Mundo, S.A. é agora um medicamento homeopático embrulhado em papel reciclado com logotipo InDesign e desconto especial para profissionais. Não falha. Como aqueles mega-DJ’s da atualidade Macintosh que se vêem obrigados a fazer erros de propósito para provar que estão mesmo a passar som. Há que acreditar! Com muita força! Que 0,1% de talento diluído em 99,9% de água conta como missão. 

Pausa.

No Porto™, A Melhor Cidade do Mundo, S.A., existem duas receitas para o Sucesso: a “social” (a Vida não imita a Arte, mas o Facebook), e a “artística” (a Vida a ser constante e permanentemente aniquilada pela Arte, mesmo que no Facebook). Não são equivalentes; não se complementam. Que os Artistas não passam de Atores a fazer de Artistas. Que 0,1% de receita artística diluída em 99,9% de receita social conta como missão.

[Parêntesis:
o Futuro™ entra de rompante em cena e faz a cameo appearance mais fugaz da História.
Olha para a cidade em modo rolling eyes e diz:
“LOL”.] 

Só existe uma obra artística, a mais abstrata das abstrações, e a mais poderosa também: o dinheiro. Tudo o resto não passa de carne pra canhão. É preciso chamar os Beuys pelos nomes: somos todos artistas o caralho! Andamos a rir-nos de coisas sérias e ainda temos a lata (uma daquelas latas com rótulo vintage) de ir para as escadas da Assembleia mascarados de neo-punks de Ermesinde queixarmo-nos que fomos violados… Por nós próprios! 

Pausa.

Uma chuva dourada cai agora em cima do público, que fica a olhar o palco à espera que alguém diga: “Já acabou”. Recusa-se a fazer figura d’urso e a bater palmas na deixa errada; recusa-se a ser Público, portanto. Todos os twink’le twink’le little shows que se fazem por aí, depois do sol se pôr e a escuridão esconder os erros de racord e as assimetrias de casting, resumem-se a esse momento de indecisão palerma, a essa redundância que nunca mais acaba, porque nunca começou, que o único género de arte que existe é o género artístico.

Pausa.

Quem vai à guerra (dos mundos), ou dá ou leva; não há terceira via possível. Precisamos da boca para comer, mesmo quando já só comemos metáforas, ou quando já só usamos a língua para falar. E precisamos de continuar a acreditar no Menino Jesus, lutando afincadamente por um assento no anfiteatro do Clube Disney™. Fade Out. O Autor aproveita para fazer uma diagonal ao Sucesso, abandonando o palco pela direita baixa, middle finger em riste, cantando: “Perdoai-os, Senhor, que eles sabem o que fazem”.

RNC, 2015, No Rights Reserved


[Este texto é uma adaptação de outro texto intitulado "Finger Food", originalmente publicado na revista RETINA (Coletivo 111). Esta nova versão, direcionada/dedicada à cidade do Porto, integrou a performance "A Guerra dos Mundos" na forma de texto-de-sala impresso em 4 folhas A4 agrafadas. A performance foi apresentada no dia 14 de Agosto de 2015 no Passeio das Virtudes (Porto) para o programa "Pôr-do-Sol nas Virtudes", organizado pela Sonoscopia Associação.]


segunda-feira, 2 de março de 2015

World Wild Web


WTFPL (Do What The Fuck You Want To Public License)
Aplica-se a todas as produções artísticas e intelectuais da "autoria" de Rogério Nuno Costa [aka Riku Nuutti Koistinen aka Chef Rø]




#1
Boa noite,

Gostaria de saber quais os procedimentos a tomar no sentido de cancelar a minha inscrição. Tenciono deixar de ser vosso cooperador, por discordar com alguns princípios fundamentais por vós defendidos publicamente a propósito da "Lei da Cópia Privada".

Aguardo instruções.

Atenciosamente,
Rogério Nuno Costa



#2
Caro Rogério Nuno Costa,

Conforme acabamos de falar pessoalmente, e em seguimento ao seu email de dia 5, venho informar que em conformidade com os estatutos da GDA, se assim entender, pode formalizar a sua demissão como cooperador por via de uma carta registada. De momento não tem valor em Conta Corrente.

Quero desde já agradecer a sua disponibilidade em responder ao email que recebeu da parte do nosso Presidente, sendo do nosso interesse tomar conhecimento do ponto de vista que defende.


Artigo 13º
(Demissão)

1. Os cooperadores podem, mediante carta registada, com aviso de recepção dirigida à Direção, solicitar em qualquer altura a sua demissão da Cooperativa, sem prejuízo da responsabilidade pelo cumprimento das suas obrigações estatutárias.

2. A demissão do cooperador da Cooperativa será obrigatoriamente concedida, desde que se mostre liquidado o saldo da conta corrente do cooperador demissionário.

3. Se a conta corrente acusar um saldo positivo este será pago ao cooperador demissionário.

4. Em qualquer dos casos, ser-lhe-á restituído no prazo máximo de um ano o valor dos títulos de capital realizado.

Com os melhores cumprimentos,
E os meus votos para um excelente ano 2015,
Evelin Kuhnle, Chefe Serviço do Apoio ao Cooperador e Comunicação



#3
Caro Cooperador,

Penso que já terá, ou em breve receberá, confirmação de que os Estatutos da GDA prevêem a possibilidade de desvinculação pretendida. Nem poderia ser de outra forma, uma vez que a liberdade de associação (ou de não-associação no caso vertente) é um Direito Constitucional consagrado!

No entanto gostaria que tivesse em conta que a actividade de Gestão Colectiva dos Direitos dos Artistas Intérpretes ou Executantes, levada a cabo pela GDA, tem uma latitude e abrangência que em muito ultrapassam o caso particular da Cópia Privada, incidindo sobre um leque de Direitos muito mais vasto que procura proteger e equilibrar o valor da Criação Artística face aos interesses e pressões dos “Mercados”.

De facto o “lobby” das grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações, com óbvia manipulação da imprensa tecnológica e da comunidade internauta, conseguiu a nível global fazer da questão da cópia privada uma verdadeira “tempestade num copo de água”!!!

De facto o impacto médio em causa em Portugal é de cerca de 0,7% dos custos de distribuição, irrisório e perfeitamente absorvível pelas margens de lucro dessa mesma industria, capaz de lançar campanhas de 30, 50 ou mesmo 100% de redução de preços, para colocação de novos modelos ou de fidelizações a 24 meses, que os consumidores assumem sem pensar duas vezes!!!

De facto qualquer Tablet ou Smartphone vem carregado, a favor daquelas industrias, de múltiplas “cópias privadas”, na forma de patentes e licenças sobre dispositivos e aplicativos que, quer os usem ou não, os consumidores estão a pagar sem pensar duas vezes!!!

De facto aquelas industrias facturam milhões vendendo mecanismos e “software” cuja única razão de existir é a exploração secundária do trabalho dos Criadores!!!

De facto a questão para as grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações não é a cópia privada em si, mas sim uma vasta estratégia a médio prazo que procura desvalorizar os “Conteúdos” para capitalizar os “Continentes”!!!

Basta atentar no verdadeiro ESCÂNDALO das remunerações dos Artistas que está em curso no negócio de “Streaming” para compreender o conluio que vai entre aquelas Industrias e as Fonográficas e Audiovisuais, “dossier” que a GDA não vai dar de barato sem uma luta radical…!!!

Agradecemos sinceramente o seu interesse e honestidade relativamente a estas questões e estaremos, seja qual for a decisão, sempre ao seu dispor na defesa dos Criadores e do acesso à Cultura.

Com os melhores cumprimentos,
Pedro Wallenstein, Presidente



#4



#5
Caro Pedro Wallenstein,

Gostaria antes de mais de agradecer a sua mensagem e lamentar a demora na minha resposta. Contrariamente ao que é normal, o início do novo ano foi demasiado intenso profissionalmente. Hoje, e com a ajuda "moral" da recente aprovação pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da “Lei da Cópia Privada”, decidi finalmente responder-lhe.

Em primeiro lugar, creio ser importante referir que a decisão de me desvincular da GDA foi ponderada e teve em consideração o conhecimento óbvio que tenho do âmbito de acção desse organismo e da aplicação financeira que é executada através dos fundos cultural e social que disponibiliza aos seus cooperadores. Não estou, portanto, a reduzir este assunto, nem a GDA, à polémica em torno da Lei da Cópia Privada, ainda que seja essa, e usando um chavão, a “gota que fez esbordar o copo”. Quando, em 2008, decidi inscrever-me, fi-lo por concordar, em abstracto, com os pressupostos que me foram apresentados, e que convictamente aceitei. Ao longo dos últimos anos, porém, e inspirado por um interesse simultaneamente pessoal e profissional, fui estudando várias temáticas que gravitam em torno do conceito genérico de “copyright”, incorporando grande parte desse estudo no meu trabalho enquanto encenador, dramaturgo, investigador e professor. Por razões que não vale muito a pena perder tempo a elencar (a maioria são evidentes, creio), a minha permanência enquanto cooperador da GDA foi-se tornando progressivamente desconfortável, por contrariar de forma linear muitos dos postulados que eram cada vez mais evidentes no meu discurso artístico/ensaístico. Não me vou alargar nesses postulados para ir directo à questão mais recente:

Oponho-me, convicta e informadamente, à Lei da Cópia Privada e, concomitantemente, a todas as organizações privadas de “gestão colectiva” de “direitos” que, através da aplicação, muitas vezes anti-democrática, de taxas absurdas sobre bens que não são sequer “consumíveis”, fazem tábua rasa de uma (r)evolução que não é só tecnológica (é finalmente cultural, porque verdadeiramente democrática), perpetuando sistemas ditatoriais de controlo daquilo que pertence, apenas e só, à esfera privada. Na base dessa Lei e nos argumentos que a sustentam subsiste um conjunto de mal-entendidos muito graves, apoiados na sua maioria por ambiguidades terminológicas — a mina de ouro ideal para a criação de leis incompreensíveis que conseguem fintar os limites do constitucional e assustar o "cidadão comum" com ameaças coercivas. É inacreditável como é que uma máfia organizada conseguiu convencer a opinião pública que copiar um ficheiro partilhado de um filme para ver em casa, por exemplo, é equivalente a “roubar”…

Perante esta conjuntura, não posso deixar de me sentir defraudado (e até envergonhado) quando no passado dia 15 de Setembro de 2014 recebo um e-mail vosso com o título “Cópia Privada – uma comédia de enganos”, no texto do qual se manifestam em prol de algo que contraria a forma como me posiciono, ética e esteticamente, em relação a todo um conjunto de temas dos quais a Lei da Cópia Privada é apenas a ponta do iceberg. Nesse sentido, e só nesse, a minha decisão consubstancia-se na evidência de que não posso afirmar (na forma de espectáculo, ensaio, comunicação pública, aula, post no Facebook, instalação-vídeo, entrevista para um jornal, seja o que for!) algo que será depois derrubado pelas minhas acções, pelos grupos a que pertenço, pelas causas que abraço, pelas petições que assino e, evidentemente, pelos organismos (tenham a natureza jurídica que tiverem) aos quais pertenço ou com os quais colaboro/coopero. Quero manter intacta a minha dignidade ética (que, para mal dos meus pecados, se confunde com a estética), e quero afastar-me do "risco" de um dia vir a ser acusado pelos meus "pares" de cuspir nos pratos que como, ou de ser "hipócrita" (esse tão fácil insulto).

Também não vou rebater os argumentos triplamente exclamatórios que me apresenta !!! Com o devido respeito, não concordo com nenhum, e acho que muitos vêm envenenados pelas ambiguidades que acima referi; não creio que valha a pena, nem para mim nem para si, fazermos disto um Prós & Contras virtual. Despendi imenso tempo a ler tudo o que me foi possível encontrar sobre o assunto para poder tomar uma decisão que é fundamentada em várias frentes (não existem só duas; essa coisa do Bem contra o Mal é um ideal romântico que nunca passou disso mesmo, um ideal…), por isso sei do que estou a falar e sei que não estou a filiar-me de forma cega (como as suas palavras parecem querer depreender) na retórica de um certo grupo de agentes e polemistas que usam a Internet para disseminar uma agenda contra organismos como a GDA. Ainda que me apoie no pensamento e na acção de pessoas como ESTA, a minha decisão é autónoma, socialmente consciente e politicamente independente. Não tenciono transformar isto numa batalha contra a GDA, ou contra aqueles que continuam a compactuar com este sistema, até porque sei que ele, o sistema (e com ele a GDA) têm os dias contados! Sim, alimento uma fé inabalável no Futuro — ESTE, por exemplo, acontece já amanhã! É por isso que este e-mail, e os acontecimentos que o provocaram, fazem já parte de um passado longínquo e retrógrado do qual todos nos vamos rir. Muito...

Agradeço uma vez mais o esforço que fez de me ter escrito este e-mail, e também o esforço da simpática Chefe dos Serviços de Apoio ao Cooperador Evelin Kuhnle de me ter telefonado, mas não existe qualquer vontade da minha parte em reconsiderar.

Com os melhores cumprimentos,



Moral Sponsors:




terça-feira, 7 de maio de 2013

YHTEISKIELI — LINGUA FRANCA




So, why join the navy if I can be a pirate? 


I.e.: the annulment of every sterile interrogation concerning Art and the art’s practice — ”originality” being the most important (and irritating) of them all! Hence, my work is about the dialectical destruction of millennial binomials and other false issues: form vs content, process vs result, good vs evil. It proposes, instead, a romanticized tripartition of the “Real”: utopian, yet concrete; insistently announced, never attainable… My work is an everlasting bande-annonce. It is about being eternally in-progress, so it doesn’t matter where the process started and/or when it’s gonna end. That means this text, actually this list, is permanently under construction and constantly being changed. My work is about making lists. Furthermore, my work is about having ideas, and never care if they will ever be achievable. The process is already a result. The project is always better than its concretion. Because there is no film, only the making of (of that same film!). My work is about adding accurate prefixes to the word “realism”, endlessly: New-Realism, Proto-Realism, Sub-Realism, Hyper-Realism, Avant-Realism, Meta-Realism, Über-Realism, A-Realism, Alter-Realism, Infra-Realism, Inter-Realism, Intra-Realism, Re-re-re-Realism [aka Stutterer Realism]. My work is about documents, archives, categorizations, labels, taxonomies, plug-ins & plug-outs, inside-the-boxes & outside-the-boxes. My work is more ontological than anthological, which means it cares less about History, and more about his’story: the best story to be told is the one related to the project itself. My work is about meta-discursivity: the scientific method turning into an art’s dogma — Molecular Art. My work is about being a fan, loving things, hating things, praising things, following/unfollowing things, such as: reality shows, german techno, rural terrorism, blank pages, IKEA ethics & aesthetics, Spanish delicatessens, Portuguese schlagerism, relish’ious dogmas, extreme makeovers, teen-emo-culture, finlandized political science, happy hardcore, non-artistic artists, notebooks, trash-tastic philosophy, megalo-physics, progressive folklore, power ballads, Scandinavian weirdism, Oprah-look-a-likes & Big-Brother-wannabes, cook books & cook looks, blood-based food recipes, recycle bins, colored paper, mashup culture, science fiction, national anthems, emotional geography, informational architecture, quantum psychology, dinner parties, rave parties, birthday parties, Eurovision Song Contest parties, Jeux Sans Frontières parties, eurotrash parties & political parties, i.e., the 1990s’ Stuckism corrupted by 2000′s Idiotism™. My work is about the creation of one (or more) -isms for each new project. Idiotism™ is also known as Roger That!’ism [in Portuguese: "rogerices"]. My work is about considering Laziness™ the new Avant-Garde. And about elevating Art to the level of Gastronomy (the opposite has already been done). My work is about F for Faking and about F for Fooding. Sometimes, it is about T for True’ing. My work is about telling the truth, even if by means of coercion. My work is about surveillance systems, invasion of privacy, Bentham-Orwellian philosophy, dictatorial curatorship, art manifestos, self-imposed obstructions, alter-egos and altercations. My work is about reaching art without using the means of art itself. My work is about social communication, social networks and social policies, but in a sociopathic kind of manner. My work is not poetic, it is journalistic. I follow the “Code of Ethics for Journalists” strictly and blindly. Because my work is about formulating the right questions: What? Who? When? Where? How? Why? Without expecting any answer whatsoever. My work is about trickery and fraud, appropriations and confiscations, reinterpretations and re-enactements, readymades and other artistic prêt-à-porter’s, so it steals directly from the oeuvres of Abramovic, Acconci, Baudrillard, Beckett, Benjamin, Beuys, Debord, Duchamp, Emin, Foucault, Godard, Hegel, Heidegger, Hsieh, Huxley, Jakobson, Kosuth, LeWitt, McCarthy, McLuhan, Nauman, Orwell, Sade, Schwitters, Sekula, Shelley, Sierra, Sloterdijk, Smithson, Trier, Van Sant, Vila-Matas, Virilio, Wagner, Warhol, Wells, Zizek [the order is alphabetical]. Along with Hirschhorn, my work usually states: “The best is not necessarily good”. So far, all the “best things” I’ve ever been in touch with are actually not “good”. My favourite artist, however, is Mark Dion, not because of the things he does, not even because of the things he says, surely because of he’s being an obsessive-compulsive hermeneutical freak. My work is about being a nerdy child who never grows old. My work is obviously about procrastination. My work is about despising all the misleading confusions between Art and Tourism, but also Sports, Culture (and Cultural Heritage), Aesthetics, Design, Anthropology, Sociology, Museology, Art History, Art Criticism, Curatorship, Handicraft, Childcare, Spirituality, Religion, Therapy, Pedagogy, Engineering, Psychology, Drama, Economy, Gender Studies, Political Propaganda, Merchandising or Advertising. By despising the aforementioned, my work is usually confused with them. My work is not “conceptual”. My work is about conceptualization, that is, my work is conceptual. And undisciplined. And unformatted. And cynical. And altermodernist. And post-relational. My work is about the ethics of participation, that is, about the ethics of the observer. Along with the ghost of Marcel Duchamp, my work usually states: “The work of art is 100% made by the spectator“. My work is about finding points in a world’s map where 3 or more countries meet. My work is about cooking, food essentially. That is, my work is about despising all metaphors, specially the literary ones. My work is about creating trademarks, at least one for each Project™; that is, my work is about the building of a Macro-Irony™ operating on the concepts of copyright, intellectual property, piracy, and “freedom”, or Freedom™. My work is about building prisons with no walls. Universitas magistrorum et scholarium. Also, my work is about the creation of titles that are trademarks. Titles™. In my work, the title usually says everything. In my work, the title is usually more important than the project itself. My work is about memory. Better said, my work is about remembering. In other words, my art is about the negation of art itself [along with De Duve and other bored theorists]. My work was born in 1917. Better said, my work is about enunciation. Although, my work is an excuse for something that needs to be done, which has absolutely nothing to do with Art, or art, or whatever. It’s a PRETEXT, that is, something that comes before the -text. My work is highly collaborative, but never in a pacific way. My work is about war. A war made from scratch. My work is about corruption, fear, arrogance and opportunism. My work is about everything that should not be done/said. Nevertheless, my work is about being happy. My work is neither “real” or “politic”; my work is Realpolitik. But it is also about human encounters, little secrets, love letters, home cooking and unexpected daily-life events. My work is about the superiority of the ephemeral. My work is not about intimacy, but it appears that nudity plays a major role in my performances, for one reason only: pure onanist exhibitionism. Better said, my work is about egocentrism, but sometimes also about egoperipheralism. In that sense, my work is ‘auto’, and ‘bio’ and ‘graphical’, but never ‘autobiographical’. My work is truly about the universalization of the particular and the particularization of the universal. Back and forth. My work never accepts; still, my work never denies. It thanks. My work is about assuming Gratitude™ as a new avant-garde. My work is about Third Way™ ethics and aesth(ethics). My work is about Finland, the best country in the world. About bowing to the East without mooning to West. My work has no specificity, but it is highly specific, and Specification is one of its main subjects. My work is not specialized, but it deals with Specialization, and the Epistemology of the Specialization. My work specializes in such subjects as: Anti-Anti-Pop Culture, Airs du Temps, Autophagy, Viral Culture, Finlandization, Applied Interdisciplinarity, “Lo-Fi Sophy“, ‘Making Of’ Aesthetics, ‘Mash Up’ Ethics, End of History, Parcs Humains, Non-Artistic Pedagogy, Petabyte Age, Non-Human Creativity, Post-Human Medievalism, Proto-Academic Studies, 21st Centuries, among others. My work is about word games. My work is about “using your mentality, waking up to reality”. My work is nouveau. And portable. And shareable. And spreadable. My work is about finding sexiness in being an underdog. Is about cheeziness, and pretentiousness, and boredom. My art is about everything that doesn’t look like Art. My art doesn’t look like “art”. Or “Art”. Its major inspiration comes from Scooter’s music, Girl Talk’s mashups, Banksy’s terrorism, Brazilian tecnobrega, Japanese synthesized pop stars, anti-fashion brigades, hipster lexicon, and the ultimate televised shameful attempts to be cool. My art beats more than 150 PM! To cut this long story short: I truly believe that my work is the art povera of the future. It is always about my Name, and the infinite possibilities of someone like me “naming” Art after every move, every word, every gaze, every breath I take: 



FASTER, HARDER, ROGER! 







quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

LABORATÓRIO DE COPYWRONG


COPY, RIGHT?
Right!


—conversa com Rogério Nuno Costa (performer e criador português)



















@Samuel & Ana Barrinha ["MASHUP", 05.12.2009]


RICARDO CARMONA
Olá. Como te disse, estou a fazer um trabalho para um curso que estou a tirar, e decidi fazer o trabalho sobre o copyright, falar sobre uma série de conceitos que lhe estão ligados, um pouco como reacção ao copyright, como o freeware, o opensorce e o copyleft. E como sei que tens abordado esses temas, achei boa ideia falar contigo, especialmente depois do teu último espectáculo: MASHUP.

ROGÉRIO NUNO COSTA
Isso é interessante. Através do conceito de mashup, fui chegando a uma série de coisas, que investiguei na fase de processo. Mas não fiz uma investigação muito profunda; fui até onde as exigências do espectáculo me pediram. Na verdade, interessa-me mais o lado performativo e as questões filosóficas que levanta, mais do que o aspecto político...

RICARDO
Estás inscrito na SPA?

ROGÉRIO
Eu não, nem quero!

RICARDO
Porquê?

ROGÉRIO
Não sinto que nada do que tenha feito até agora mereça ser "protegido" por uma associação de interesses (diria melhor, de interesseiros) que vivem à custa de leis idiotas e que fazem dinheiro às custas da tua suposta "criatividade". Na verdade, não tenho qualquer receio que o meu trabalho possa ser copiado, plagiado, vandalizado, whatever... É para isso que ele existe e é por isso que ele existe, porque ele próprio copia, plagia e vandaliza. Acredito na circulação hiper-referencial de ideias e de conceitos. A crise da originalidade fascina-me, não a pretendo corrigir, superar, ou coisa que o valha, talvez percebê-la melhor...

[Nota de rodapé: Rogério Nuno Costa, no início da página do projecto "Espectáculo de Teatro", tem a seguinte informação: "No rights reserved. Unless otherwise indicated, all materials on these pages are not copyrighted. Any part of these pages, either text, audio, video or images may be used for any purpose other than personal use, without explicit authorization by Rogério Nuno Costa. Therefore, reproduction, modification, storage in a retrieval system or retransmission, in any form or by any means, electronic, mechanical, or otherwise, for reasons other than personal use, is strictly allowed without prior written permission.]

RICARDO
Mas reivindicas uma autoria do trabalho? Estou a falar de um modo mais geral, não tanto neste espectáculo.

ROGÉRIO
Sim e não. Reivindico uma autoria num sentido quase de missão científica ou jornalística. Por exemplo, um cientista que descobre a vacina para uma doença antes incurável tem o dever "científico" de a comunicar ao mundo, torna-se autor de uma descoberta, mais do que uma criação, tal como o jornalista que publica uma história que as pessoas merecem saber. Não é autor da história, é simplesmente um intermediário entre duas coisas...

RICARDO
Ok, então, tens a autoria, mas depois "libertas" para todos usarem...

ROGÉRIO
É mais ou menos assim que eu me posiciono perante a arte que faço de uma maneira geral; já o ano passado ["Espectáculo de Teatro"] tinha trabalhado em cima deste conceito, e na sua possível radicalização, embora a questão do copyright não tenha sido "tema" do espectáculo, era mais um anexo. No MASHUP, era de facto conceito estruturante de todo o projecto.

RICARDO
Na folha de sala dizes que não pediste autorização...

[Nota de rodapé (in folha de sala do espectáculo MASHUP): “A estrutura genérica do espectáculo foi directamente inspirada no imaginário criativo de artistas e companhias internacionais: Forced Entertainment, Pina Bausch, Romeo Castelucci, Alain Platel, Raimund Hoghe, Mathilde Monnier, Rosas/Anne Therese de Keersmaeker, Wim Vandekeibus, DV8, La Ribot, Jérôme Bell, Oklahoma Natural Theater, Eimuntas Nekrosius e Meg Stuart, e nacionais: Teatro Praga, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Vera Mantero, Companhia de Teatro Sensurround, OLHO, Karnart e Casa Conveniente. Limitamo-nos a roubar descaradamente a forma, para depois a preenchermos com os conteúdos que nos interessavam. Não pedimos autorização.]

ROGÉRIO
Não pedi, de facto. Repara, tudo isto me parece uma falsa questão. Não estou a fazer nada que os outros antes de mim não tenham feito; aquilo que se afirma no MASHUP é uma absoluta redundância. Todos nos influenciamos e nos inspiramos noutros artistas de forma mais ou menos directa. A diferença, a existir, reside na intencionalidade e motivação em afirmar donde vêm essas referências e como são utilizadas nos espectáculos que fazemos. É um pouco aquilo que o David Bernardes diz no talk-show: "Se me disseres que outros antes de mim também já fizeram, eu até aceito. Mas eles fizeram, mas não disseram, logo, não fizeram". Sou defensor acérrimo da ideia de que a arte, hoje, sobrevive na sua simples e quase superficial enunciação, ou seja, esta questão de tornar algo visível (a tal dicotomia criação vs. revelação) ...remete-me para a ideia de que não podemos reconhecer o tratamento de certos conceitos retroactivamente, porque se assim fosse, poderíamos reconhecer "performance" na Idade Média.

RICARDO
Durante a peça, dás a entender, pela cena inicial, que os intérpretes são meros executantes... Uma das questões que me tenho deparado é que ao assumirmos os intérpretes dentro da óptica actual, todos os intérpretes são co-autores, e co-criadores e co-artistas (como uma das intérpretes diz no espectáculo); daqui a questionar a autoria de um espectáculo é um passo.

ROGÉRIO
Claro.

RICARDO
Mas tu invertes isso, no início e nas cenas plagiadas, mas depois no fim recuperas a ideia.

ROGÉRIO
O MASHUP vive em cima dessa dicotomia, que é também uma contradição absoluta; começa por ser uma crítica à instrumentalização do papel do actor/intérprete, daí a vontade de ter dissecado a própria palavra: intérprete como executante, mas também como tradutor. Eu tentei dar aos diferentes elementos do espectáculo (actores incluídos) a mesma dimensão dos diferentes elementos que compõem uma composição musical mashup. Repara que os DJs que fazem mashup, para se protegerem dos processos que lhes caem constantemente em cima por parte das editoras discográficas, afirmam que só fazem o que fazem para divulgar os artistas que misturam; é uma forma sublime de utilizarem o sistema para minarem o próprio sistema. Sistema esse que os acolhe quando os mashups se tornam êxitos de Youtube e ganham poder comercial. Muitas vezes são os próprios músicos que encostam as editoras contra a parede, exigindo que os processos sejam retirados.

RICARDO
Sim, é verdade, pois embora toda a gente reconheça a música, no fundo estás a criar uma nova coisa. A soma é mais do que a junção das partes. 1 + 1 = 3.

ROGÉRIO
Sim, mas isso da "nova coisa" é o elemento mais interessante e complexo; eu já andava obcecado com a possibilidade de uma Terceira Via™ desde o "Espectáculo de Teatro", e encontrei no mashup a materialização perfeita, e contemporânea, para esse "paradigma".

RICARDO
Achas que o MASHUP é um espectáculo revisionista?

ROGÉRIO
Revisionista no sentido de querer fazer uma espécie de antologia do que se passou nos últimos anos? Isso não, definitivamente... Aliás, o espectáculo afirma continuamente que não acredita em antologias, prefere procurar uma espécie de essencialidade ontológica. Antologia vs. Ontologia. E comprovar a tese de que NUNCA fomos originais.

RICARDO
Não é bem isso, é mais no sentido da re-criação, re-interpretação e afins... O que fez a Marina Abramovic no MOMA, com os trabalhos do Josef Beuys.

ROGÉRIO
Também não no sentido de re-criação, parece-me; quer dizer, nós tivemos que "re-criar" alguns pedaços de espectáculos antigos, mas isso é mais a questão técnica do espectáculo, que não me parece muito importante.

RICARDO
Sim, tens razão, esse é um outro caminho...

ROGÉRIO
A Abramovic fez um trabalho absolutamente "antológico"...

RICARDO
Sim, mas ao mesmo tempo é um novo trabalho...

ROGÉRIO
Não me parece que tenha sido esse o meu caminho... O "1 + 1 = 3" é mesmo outra coisa!

RICARDO
Será que ela tem copyright do que fez?

ROGÉRIO
Tenho a certeza que sim!

RICARDO
Copyright do copyright!

ROGÉRIO
Não há qualquer "ilegalidade" no trabalho dela, e no nosso também não, embora à superfície pareça que sim.

RICARDO
Mas voltando à questão dos intérpretes...

ROGÉRIO
É evidente que aqueles intérpretes (que estão, justamente, a fazer de "intérpretes", é essa a sua "personagem"...) são co-criadores, no sentido em que contribuíram criativamente para todas as dimensões dramatúrgicas e outras do espectáculo, nomeadamente para a questão da instrumentalização. Eles próprios se posicionaram perante as minhas ideias na condição de meros executantes, de fantoches nas mãos de um jogador de xadrez...

RICARDO
Então é por isso que apareces no fim com a placa de "Encenador Verdadeiro"?

ROGÉRIO
Também! Ainda que a piada venha do facto de termos usado na cena do "Mashup Performativo [espectáculos estreados em Portugal entre 1999 e 2009]" os cartazes que o Teatro Praga usava no espectáculo "Título", no qual se invertiam todos os dados, assumindo-os como falsos. Quando apareço enquanto porta-voz (encenador) daquele trabalho, é para cumprir com o 1 + 1 = 3, então tenho que assumir-me como "verdadeiro". Na lógica do Teatro Praga, dizeres que és verdadeiro num contexto de ficção, estás a assumir que na verdade é falso. É mentira que eu seja um encenador verdadeiro porque estou em cima de um palco a dizer que sou um encenador verdadeiro, logo, sou um falso encenador. Que sou!



















 @Samuel & Ana Barrinha ["MASHUP", 05.12.2009]




terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CONTEMPLATIO MORTIS APOCALYPTICA

TERCEIRA VIA™,
caminho de escombro e cinza,
que é não-caminho,
porque nos leva aonde nós estamos:
aqui.



[ou sobre o ofício nulo da crítica de arte]



©MASHUP, [2009]



“É por isso que a verdadeira teoria crítica, se um dia houver, será idêntica à mística autêntica. Como diferença viva entre ausência do mundo e presença no mundo, a existência única torna-se atenta ao seu ser-no-mundo. Acosmismo esclarecido, o espírito do cosmopolitismo consegue compreender-se a si próprio. Então só a via mística estará ainda aberta. Como critica do caminho (Tao), ela leva aonde nós estamos.” [Peter Sloterdijk]


Pergunto-me porque ainda autorizamos disciplinas, como a Dança, o Teatro e a Performance no pleno triunfo de Show Biz e de toda a respectiva máquina política e fabriqueira. Não terão já chegado aos limites do ignóbil? Residências, concursos, programas de apoio, redes de salas de espectáculo, prémios, fundações, mecenato, bolsas, comunicação social, propaganda, por todo o lado estão presentes noções retóricas e disciplinares rígidas e hegemónicas: as pessoas têm que saber o que vão ver, e, quando compram bilhete, gostam de saber se é Dança, Performance ou Teatro, dizem. Pois é quando compram o bilhete que surge toda a nossa suspeita. A perplexidade está em saber que tudo isto é comércio, e o mercado não arrisca nem nunca arriscou: é próprio do negoceio apostar naquilo que entende vender bem, por saber o que vai vender e como. O estado e os sistemas de comércio têm que perceber o que é que apadrinham, não se vá patrocinar alguma antipatia. Em Portugal a situação agrava-se quando a cultura está radicalmente dependente do Estado. Ora, os governantes não são isentos politicamente, nem é próprio dos estados ter algo a dizer acerca da arte. Os políticos fazem política, não impulsionam artistas, o máximo que conseguem é alimentar empregados de séquito, campos de concentração produtiva ou polícias astutos. O que tem regrado esta cultura de estado tem como eixo o antigo encantamento de transformar tudo em economia, pois esta depende do pano de fundo, o materialismo transcendental da política. Pouco espaço subsiste para a livre actividade intelectual humana, independente da lógica laboral. Vemo-nos reduzidos ao estatuto de carreira profissional com direito a segurança social, reforminha e estabilidade no trabalho, quando existem. O fim disto redunda no vómito materialista dialéctico. Ora, há que saber distinguir, podemos não saber muita coisa mas percebemos bem que o Show Biz não nos interessa. Enquanto existir espectáculo, o triunfo é de quem nos oprime.

Relembremos que o Dada descobriu, há quase um século, que o fundamento da arte aponta para a liberdade absoluta. Liberdade essa que se devia defender de todo o apriorismo reducionista, inclusivamente daquele a que chamamos arte. É a este ponto que nos conduzem, por fim, os prolegómenos a toda a metafísica futura da aventura pós-Kantiana. A definição só vem depois de saber. Há que morrer primeiro na consciência da nossa ignorância das coisas. Quem pode hoje saber o que é arte quanto mais o que é dança, performance ou teatro? Onde se fundamentam estas disciplinas se não na lógica de mercadoria, ou pior, no ardil da estadística espectáculo? As perguntas levantadas vão mais fundo, e já não aceitam estes ditames estabelecidos. Devido a tudo isto a arte já só parece possível enquanto plano de fuga de si mesma. Há nessa descoberta algo próximo da teologia apofática, não podemos dizer em que consiste essa coisa a que chamámos arte, mas podemos muito bem dizer o que não é. Podemos ainda explicar que somos tão absolutamente livres que nos conseguimos limitar sem cair em cativeiro real, a liberdade não redunda, para nós, em sentença condicional.

É possível reabilitar os preceitos, as disciplinas, mas, de alguma forma, temos que visitar essas celas de porta aberta, ou com picaretas para abrir túneis, movidos por intenções bombistas. A encarnação do infinitamente livre reveste-se sempre desse carácter salvífico. Consegue passar por todos os estados sem se prender a nada realmente. Só assim se opera a crítica das disciplinas com os métodos da própria disciplina, sem transformar isso numa nova forma disciplinar. Se a liberdade for absoluta não pode estar fixa na sua própria condição livre. É não sistemática e não dialéctica, não dual, contra si mesma, antinómica, Advaita Vedanta e Taoísmo, elevação intuitiva para o Uno, mas este Uno ofusca simultaneamente o negativo e positivo, como caleidoscópio de sinfonias. Aprendemos que Deus, afinal, é um DJ. Também a filosofia já só nos parece possível como dadaísmo, porque esta nova metafísica não-dual criou, há um século, a corrupção profunda do pensamento monista de matriz aristotélica. O pensamento não dual, simbolizado pelo olhar central de Shiva, faz hoje a destruição mítica de Tripura e do seu Mayassura engenheiro. Todavia, como este espírito de ousadia envelheceu mal, acabou também por cair na prisão da receita mercantil, nas tiranias do espírito do tempo. O que era vida dionisíaca de cabaré extinguiu-se empalhado nos museus, negociado na Sothebys, domesticado nas salas de espectáculo. O que está vivo reside sempre na mobilização temporária antes da voragem dos mercadores.

Quem se quiser manter nesse “não estado” tem que reinventar sempre novos modos de contestar os grandes confins que já ninguém pode suportar. Tem que aprender a cavalgar o tigre. Esses limites não se fixam apenas nas velhas disciplinas artísticas. Toda a definição dá forma ao limite. Nas artes performativas, o corporal começa a ser corroído pela própria consciência das limitações do corpo. Muitas das suas manifestações são gritos de revolta contra a prisão corpo e as suas múltiplas grades: género, idade, forma, biologia, mortalidade. Não é por acaso que o corpo tem levantado as maiores obsessões artísticas das últimas décadas. Ele formaliza a prisão mais temível, da qual ninguém sai vivo. Fomos forçados a descobrir novas asceses de Ioga, novas formas de transcender os limites substanciais da metafísica truncada e categórica dos aristotélicos: limites do suporte físico no caso das artes plásticas, do espectacular, do Humano, limites do pensável, do dizível e do imaginável. Limite do saudável, da normalidade, da higiene, da interpretação, do sentido e forma, do momento de excepção, do público, da durabilidade, do tecnológico e político. A nova cultura delicia-se com o culto da catástrofe, pois existe na destruição a face do libertador, a promessa de transcendência em relação à centralidade fictícia do Ser.

O que prende e o que liberta nas disciplinas? Podem ainda ser livres enquanto celebração desse incondicionado. A cultura nasce do culto, desse culto à visão ontológica do ilimitado. Mas nesses casos dançamos em dias de festa e cantamos as janeiras, fazemos os ritos sagrados de sempre. E temos a vantagem de participar activamente como jogadores, na verdadeira arte relacional, sem pagar nada. O que nos aprisiona realmente são as fórmulas, o formalismo, o entretenimento, o terapêutico, o familiar, em suma, o costume soporífico, que não podemos confundir com o culto da tradição, no sentido superior de algo perene, que se firma por ser constante, e é incessante por ser sem limites; mas esse há muito que se extinguiu no Ocidente. Há nessas submissões à tradição a vantagem e a possibilidade do apuramento virtuoso de determinada estética, ou qualidade. O Belo clássico viceja onde os valores do Ser e da forma são celebrados, mas que fazer quando o paraíso se parece tanto com a clausura?

Existia já neste apuramento estético virtuoso o gosto pela transgressão dos limites do humano. O virtuoso roça o humanamente impossível de fazer, jogo de cálculo infinitesimal com o restrito, que evidencia a liberdade superior, só para os raros; elitista, pois pertence à elite possibilista fugir e vencer a jaula da vulgaridade. Também na estética clássica, o que a despedaça e armadilha é a tendência para a exaltação do Sublime, que testemunha a vontade de transgressão dos limites das definições de Belo. Não obstante, subsistiu sempre outro veneno que compromete a gratuitidade: a disciplina facilita a ocorrência do produto artístico mercantil, a qualidade formal, o artesanato. E este encerra o cativeiro mais pernicioso, que nos prende hoje, no quotidiano, em diversas dimensões ad nauseum. Não há celebração da vida, nem do absolutamente livre, há entretenimento, ou seja, adormecimento dos prisioneiros do grande hipermercado. Em vez de arte, assistimos ao exercício de sedução do pensamento-base mercantil, a redução à lógica industrial que premeia e fundamenta o mundo comandado por mercadores. Não é por acaso que nos discursos de política cultural do presente surge o conceito de “indústrias criativas”: este reverbera o remoque do sopro de morte da fábrica, do monstro que engole a liberdade humana. Ele dá voz eloquente à vontade económica, essa entidade autónoma, Leviatã dirigido por mãos invisíveis. Para bem do ardil dos mercadores, já só podem existir operários produtores.

A noção de artista adquiriu ao longo do tempo presente todas as tonalidades do espontâneo, do independente, vigora o arquétipo do livre, foi sugada por ele, dissolvendo a própria noção de artista e de arte. Definir a arte torna-se tão impossível como prender algo ilimitado. E necessitará denominação esse fluir? Necessitaremos ainda de lume para iluminar o Sol? Existe outro modo de usar as disciplinas, e este consiste em as instrumentalizar para fazer frente à comercialização de vanguardas mortas. Não é por isso cativeiro, mas reacção cínica à tentativa sórdida de vender, como resultado de liberdade criativa e experimental, a aparência e a fórmula gasta da transgressão. O que significam as rupturas quando já não há nada a transgredir e todas as fronteiras artísticas, estéticas e éticas, e mesmo jurídicas, parecem ter evaporado? Mas acima de tudo: que fazer quando são as instituições a estimular e caucionar a transgressão da qual são as principais accionistas? Que pensar do experimentalismo patético do Palais de Tokyo, epifania do mito utópico de proximidade entre artista e público? Renasce assim o “paradoxo permissivo”, tal como é exposto por Nathalie Heinich, e que “consiste em tornar a transgressão impossível, integrando-a desde que ela aparece”. O grito revolucionário de 68, “é proibido proibir”, reaparece subvertido na sua simetria não dual, e transformado em palavra de ordem monista e burocrática: “sejam transgressivos!”

Há sempre forma de criticar o tédio do conceptualismo estéril e institucional com os métodos de um formalismo de farsa, o high/low brow, de novos dogmatismos transitórios de festival. Podemos fazer ainda teatro, dança, performance mas só não agride a inteligência quando estão armadilhados. Rogério Nuno Costa surge como exemplo desta crítica, sempre que consegue não ser comido pelo tigre. O seu trabalho consiste na dissolução do conceptual pela exposição paródica dos pressupostos teóricos da pós-modernidade. A teoria retorce-se, ridicularizada, polemizada, subvertida e transmutada em espectáculo. Não são propriamente os limites formais da teatralidade o alvo principal, mas sim os limites das convenções especulativas que, figurados em cerimónia teatral, surgem no esplendor do caricato. Rogério continua na jaula do palco, mas já não como animal domesticado. Na seu último combate, MASHUP, o que há a extenuar é a própria noção teórica de espectáculo, de teatro, e de arte, a vaca sagrada da propriedade intelectual, o espectador, a duração, o protagonista, o intérprete e o local de cena.

O Livre hoje é ócio, mas amanhã pode ser feira de ociosos piratas, se acharmos gozo no comércio quando todos formos dele livres. Para estragar os negócios de Estado, e esmagar os narcóticos das artes performativas em Portugal, MASHUP propõe revisitar as fórmulas conceptuais criadas nos últimos tempos, mas em avalanche, como montanha de lixo e zapping cultural. E compreendemos, neste contexto, como é obsoleta a estética fundada no juízo de valor e qualidade das obras, assim como o ofício nulo da crítica de arte, alojada num papel puramente promocional. Este zapping surge como reflexo do novo hedonismo, ao alcance de todos pela pirataria, o plágio, as novas tecnologias que suprimem a agonia da escolha, os constrangimentos da falta de educação e de dinheiro, e permitem encontrar e criar em todo o lado, e a todo o momento, objectos de satisfação polimorfos. Esta prodigalidade cultural funciona como sistema imunitário contra todos aqueles que querem pôr em causa a sua legitimidade, e expõe flagrantemente a caducidade das propostas de inúmeros artistas contemporâneos, convencidos do carácter polémico, rebelde, escandaloso e subversivo das suas obras, enquanto a cultura dominante tira benefício dessa pretensa provocação artística, transformada em nova retórica de estado e de mercado. Por mais fascinantes que estas obras possam ser, só nos suscitam nostalgia e amargura. Como prenunciava Duchamp, o artista acaba por ser, enfim, mais outra “marca que faz produtos de marca, mas inofensivos”. Em MASHUP reconhecemos essa redução do qualitativo ao quantitativo, a arte apenas como rótulo e marca para elites, indistinta de outras etiquetas mais baratas, espectáculos de consumo mais fácil, como se tudo fosse desaguar confusamente à feira de produtos vintage, em segunda mão. A dualidade entre arte e kitch, estabelecida no modernismo por Greenberg, está aqui desmascarada, pois o seu único fundamento consiste no juízo de gosto da classe média. Em MASHUP, a arte foi arrebatada pela loja dos trezentos, marca pirateada na China, e as criadas podem finalmente vestir, sem medo, as roupas provocantes e vanguardistas da Senhora. Em breve vamos tomar de assalto os templos de consumo da cultura, roubar o que nos apetece, e a democratização cultural aparece como exercício simples, basta que se torne gratuita, nem que seja pela usurpação. MASHUP demonstra como podemos, sem nostalgias, recuperar e misturar livremente, como objects trouvés, as diferentes propostas artísticas do passado e os objectos da cultura distractiva e lúdica. Rogério Nuno Costa propõe aqui múltiplas experiências estéticas, em vertigem hedonista, libertas de toda a referência normativa ou hierarquias de valores predefinidos. Mas essa visão das coisas revela, na realidade, dois conflitos. O primeiro conflito reside no confronto da liberdade de julgar e elaborar critérios de gosto individual face à poderosa solicitação do consumismo e do sistema cultural que assegura massivamente a promoção dos seus produtos. Ou seja, na melhor das hipóteses, a nossa liberdade está viciada, estamos condicionados a fazer o que todos os outros fazem, quer se trate de arte, doxa popular, lazer ou turismo. O segundo conflito nasce desse fosso que, nos regimes democráticos, se interpõe entre a cultura dos peritos e a cultura profana. Esta situação demonstra claramente que, em termos artísticos, o projecto democrático nunca foi levado a sério, ou se reverte na paródia de si mesmo. Em MASHUP, a denúncia deste conflitos não resulta na síntese dialéctica, mas antes de mais na via do assalto. Como pode existir divisão entre alta cultura e cultura profana se o juízo de valor pressupõe o critério de qualidade? Se esse critério não existe, como o afirmam em cacofonia as vanguardas, e todas as instituições artísticas, então a muralha entre classes culturais também se torna nula: é tudo pimba. MASHUP revela o mundo hiperrealista onde a arte perdeu toda a sua significação, sinistro eco no abismo do Real, pesadelo cool, transparente, pop e publicitário. O que nos permite distinguir a alta cultura depende de mero acto de fé ou superstição. Desta vez a arte não saiu com vida, comeu-se a si mesma e morreu envenenada.

Até que ponto vai esta dissolução dos limites sem cairmos na anulação do Real? Ele demonstra por si o espectáculo mórbido do corpo em que se liquefazem os tecidos: contemplatio mortis apocaliptica. Conseguiremos olhar de frente a morte, o Real, esse exercício tão difícil como fixar o Sol, transformado em eclipse de cegueira. Invocam-se de novo os sacrifícios na fogueira, de que falava Artaud. Diante da fobia do abismo parece permissível voltar atrás, mas não é possível esconder os vestígios da queimadura. O que MASHUP nos mostra está na Terceira Via™, caminho de escombro e cinza, vislumbre de não-caminho, porque nos leva para onde já estamos.

©Nuno Miguel, 2009