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domingo, 20 de dezembro de 2015

E U R O D A N C E


“Europe was created by History (then Art). America was created by Philosophy (then Art). Economy (now Art) is creating the Rest of the World.”

— in No Limit (21st Century), a song by Too Limited


EURODANCE é uma hecatombe geopolítica e tecno-emocional, um counting down a 190 beats-per-minute em direção ao Fim do Mundo, uma bad trip a bordo de um rave’ião Hamburgo/Ibiza com escala elíptica no Pará e aterragem de emergência para combustível em Luanda, uma droga psicotrópica também conhecida por Azeitegeist™. EURODANCE é um documentário pós-apocalíptico produzido pelo Departamento de Escatologia Vintage do Centro de Estudos Pré-Humanos do Novo Mundo e estuda a última década do Antigo Regime, quando o Mundo ainda se escrevia com letra grande, não existia qualquer diferença epistemológica entre Arte e Desporto, e os artistas eram todos backup dancers de uma banda cósmica universal. EURODANCE dança em Europeu™, mas traz legendas em Novilíngua™. Rouba lyrics às profecias xamânicas de Slavoj Žižek e à filosofia alter-dogmática de Dr. Phil, os primeiros cyborgs da História; rouba beats à ética pré-apocalíptica do movimento mashup e à moral anti-social do tecnobrega; e rouba artworks à estética proto-post-pop dos Jogos sem Fronteiras e à ética re-re-realista da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. EURODANCE é tecnotrónico, é clubístico, é pastilhado, é megalo-colonialista, é etno-musical, é bubblegum pop, é happy hardcore, é chipmunk, é autotune, é playback, é rave’ioli em lata, é vengaboys, é bota gel, é pisang ambon, é electropimba, é technochunga, é carrinhos de choque-em-cadeia, é aeróbica trance-génica, é fitness progressivo, é body pump-up the jam, é macarena, é di-rirá-rá-rá, é contemporary rococó. EURODANCE regressa a todos os pesadelos fin-de-siècle, porque ambiciona uma correção retroativa da Realidade: o Mundo acabou MESMO na noite de 31 de Dezembro de 1999, quando os computadores deixaram de reconhecer a linguagem binária e o mundo (em letra pequena) colapsou. EURODANCE é por isso uma festa meteórica, em homenagem a todos os que (ainda) não morreram. Uma viagem de volta aos anos 90; uma viagem de volta ao Presente™.



Direção, Coreografia, Texto, Vídeo: Rogério Nuno Costa | Bailarinos: André Santos, Dinis Machado, Luís André Sá, Mariana Tengner Barros, Susana Otero | Assistência de Direção: Joclécio Azevedo | Light Design: Daniel Oliveira | Artwork: Diogo Mendes | Figurinos: Jordann Santos | Remix & Cover: Belamix feat. Too Limited™ [Mariana Tengner Barros & Rogério Nuno Costa] | Assistência de Figurinos: Cristiana Fonseca | Produção Executiva: Inês Nogueira. Agradecimentos: Xana Novais, Teatro Municipal do Porto – Rivoli, Sonoscopia, Álvaro Campo, Miguel Loff Barreto, ESMAE, TeCA, Ana Carvalho, Pedro Barreiro. Acolhimentos: Centro Cultural de Milheirós de Poiares (Santa Maria da Feira), mala voadora (Porto), Armazém 22 (Vila Nova de Gaia), Teatro Sá da Bandeira (Santarém), Centro Cultural de Belém/BoxNova (Lisboa).

Um espetáculo Ballet Contemporâneo do Norte originalmente criado para o programa “Outros Formatos” (2014). Ballet Contemporâneo do Norte é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal/Secretaria de Estado da Cultura (Direção-Geral das Artes) e apoiada pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.





EURODANCE é o estudo coreográfico para o espetáculo de teatro musical €TRASH, de Rogério Nuno Costa, com estreia prevista para 2018. Cinco bailarinos são o grupo de “backup dancers” de uma banda techno invisível, trazendo para a linha da frente aquilo que por norma é apenas decorativo, paisagístico, subsidiário. O corpo de baile é agora o protagonista. Ou sobre a tensão/confusão dialética entre Arte e Desporto.




sábado, 15 de agosto de 2015

A GUERRA DOS MUNDOS™



A GUERRA DOS MUNDOS
Uma comédia digital, promíscua e poliamorosa, dividida em vários atos: festa temática com performance interativa, audiência interpassiva, video mapping na fachada (porque é “só fachada”), ciclo de cinema indie’gesto + tertúlia fraturante (imposta, não exposta), menu de degustação só com tapas (pela empresa de Special K’tering “Sol & Peneira”, amigas foreva iLda., a tapar desde 1998) e DJ set, claro. Uma organização Chef Rø, Turismo Cooltural, S.A., sob a direção de conteúdos de Rogério Nuno Costa e o alto patrocínio de pelo menos uma hamburgueria artesanal.

Género: Stand-Up Tragedy. Técnica: Auto-Sugestão Mista [evangelização das massas mascarada de TED talk]. Público-Alvo: Poorto, industrial & criativo. Dress Code: A Gravidez Histérica É O Novo Avant-Garde. Duração: até passar a moca de MD [stands for “Muita Divertido”]. Palavra-Passe: Lame.

Mais infotainment:


AVANT PROP’S
Ainda que não pareça, isto é uma receita. Uma receita para o Sucesso. O Sucesso vai assim escrito em letra maiúscula pois é o nome de uma personagem (provavelmente protagonista) do texto dramático que estou a escrever para acompanhar o evento A GUERRA DOS MUNDOS™, que é também o nome de um coletivo, de uma plataforma, de uma companhia, de um projeto, de uma associação, de um grupo, de um cluster, de uma startup, e de várias outras congregações territoriais do neo-feudalismo contemporâneo. O Sucesso, salvo raríssimas excepções, veste sempre bling bling e segue escrupulosamente uma dieta mediterrânica à base de Azeite™, o ouro dos néctares adiposos e o tempero preferido dos clubbers tripeiros. O texto dramático chama-se “Tu Queres É Feta!” e segue um género inventado pelos Gregos que é o teatro-de-revista, que é como quem diz, o teatro. Está cheio de trocadilhos totós, linguagem-SMS, descrições meme-boas de sítios fixes para sair à noite, e piadas escatológicas muito básicas e boçais com pretensiosas piscadelas de olho-do-cu à tecnologia digital, à geração smartphone e à implosão do capitalismo. Resultará num espetáculo, ou então num filme, ou então numa instalação sonora, ou então num cacilheiro com cenas dentro, ou então num serviço educativo, desde que caiba numa app e possa ser apreciada tactilmente. Não é um solo, mas vai ter selfies. Também não será uma peça de grupo, antes uma peça de groupies. Inspirações: eu, o meu middle finger, e os meus fãs [aka “escravos sexuais”]. A peça começa com uma entrada triunfal do Sucesso. Tambores, máquina de vento, conffetti, e a deixa:

— Deixa-me, caralho! Tu não és foodie! Tu estás é todo foodie’do!

(sai pela esquerda alta; o Sucesso sai SEMPRE pela esquerda alta.)


OR D’OEUVRE
A vingança serve-se frígida. Se o Aristóteles fosse cozinheiro, morreria à fome. Parece-me lógico. Depois da saída trágica do Sucesso pela esquerda alta, entra uma Voz Off com sotaque americano e retórica portugueZa a explicar aos turistas da Time Out com que linhas se cose a litter’atura-de-cordel da Invicta, com citações da “História da Sexualidade” do Foucault, várias alusões cross-disciplinares ao Design (Porno)Gráfico e à Física de Pares’tículas, e uma irritante tendência para dizer velouté no lugar de sopa passada: “Já me estou a passar!” Perguntar quem é o homem e quem é a mulher numa relação homossexual é o mesmo que perguntar qual dos dedos é a faca e qual é o garfo numa refeição metrossexual. Isto é: mais Moda™ que Foda™. Desde que inventámos a Linguagem que começámos a evoluir para trás. No Telecrã aparece o Carl Sagan a explicar-nos em que parte da História é que nós aparecemos, com os pés a pisar os últimos segundos do dia 31 de Dezembro do calendário cósmico. O Homem já é um homem, e no entanto continua a comemorar o réveillon como se não houvesse amanhã: flûte de champagne já morta numa mão, onze passas por comer na outra, a língua a bater nos dentes, uma linha de sangue a escorrer-lhe da narina direita. A Voz Off cala-se. Desce um telão com uma imagem impressa da Festa da Conga. Paisagem sonora: versão glitch da Romana a ganir “Continuas chamando-me assim, bebé…”. Palminhas. Entra o Rei. Vai nu, claro, mas ainda com as etiquetas da H&M e da Zara penduradas. Arranca as etiquetas e substitui-as por maneiras, lançando o seguinte maneirismo:

— Faz-me um Bobone!

(e sai pela direita alta; o Rei sai SEMPRE pela direita alta.)


ALEGRA-BOCAS
Nos bastidores do Grande Teatro, os atores enfiam os dedos em caviar de esturjão “sterlet” (Acipenser Ruthenus), o único produto alimentar de cor dourada que se conhece na natureza. Ignoram a etimologia com o mesmo fervor com que ignoram as tostinhas de trigo duro, mas dão-lhe forte nos shots de vodka e vão imensas vezes à casa-de-banho. De acordo com o novo acordo ortográfico, boémia agora escreve-se booh!émia. Betos da Foz a fazer de conta que são gunas meets disfunção sexual grave. Meninas, de ambos os sexos, vestidas de Made in Bangladesh da cabeça aos pés, abrem a boca de sono (ou então de pasmo, não se percebe bem); desligam o iPhone para poupar bateria, deixando-se afogar na sua própria vaidade soporífera. Há uma que se levanta, camisa irónica, bandolete transgénero, calça a comer-lhe o cu. Fica de pé uns segundos em posição três quartos, boca-de-pato, pulso quebrado. A seguir vocifera, fechando as vogais e comendo sílabas:

— ‘Méquié, ‘ssoal, isto já deu… Nã’ vai ‘ver after?

(não sai, fica; eternamente.)


ENTRADA
Garimpeiro, substantivo masculino. Aquele que enfia o dedo no cu da galinha a ver se traz ovo. Figurado: folião, borguista, farrista, zombeteiro, galhofeiro. Figurativo: ator, bailarino, performer. Figurão: estrela porno. Os atores saem finalmente dos bastidores, concentradíssimos, mas a fazer de conta que estão descontraídos. Caminham em cima do linóleo branco de marca EUROPA™ com os seus ténis de cores gourmet; o linóleo brilha, parece ter luz própria de tão igual que é a todos os outros linóleos brancos de todos os outros espetáculos que já vimos. É côncavo e convexo ao mesmo tempo, não se percebe. É vegan. Os atores fazem uns movimentos neutros com os braços e o pescoço, como que a dizer: “Isto não é carne nem é peixe”. Tal como os espetadores, que permanecem tenebrosamente sentados a comer bolachas Belgas™ que trouxeram do foyer. Uma das atrizes meneia finalmente a cabeça, fixando o público, para dizer, num tom de voz Sofia Aparício:

— O novo é o novo novo...

(e continua a passar os dedos que ainda cheiram a gordura de esturjão pelo linóleo-branco, qual espetadinha-de-rabo-na-boca, a fazer de conta que é pobre, mas mortinha por regressar aos bastidores, onde faz de conta que é rica.)


PEIXE
Cortina. Ouve-se um excerto da versão poortuguesa da música “Anaconda”, traduzida para “Lagartixa”. Uma luz intensa ofusca o público, mas ninguém ousa abandonar a sala. O cenário é agora uma boîte dançante, com bolas de espelhos, manequins sem cabeça, televisões avariadas, e outros fetiches mal resolvidos com os anos 90 por todo o lado. Entra ROGÉRIO NUNO COSTA, o rei-vai-nu, despido de ouro falso da cabeça aos pés, o cabelo pintado de uma cor irónica (tipo caju) e uma referência ornamental qualquer ao Terceiro Mundo (por exemplo: uma bindi no meio da testa). Pára no centro do palco, lambe o dedo indicador e levanta-o no ar, como que a descobrir o Norte pelo andar do vento. A seguir entra O ARTISTA RESIDENTE com uma cabeça de porco verdadeira enfiada na sua própria cabeça. Mira o corpo coberto de ouro de ROGÉRIO NUNO COSTA e atira-lhe com um maço de dólares falsos. Ruído ensurdecedor, mudança drástica de luz. Começa o diálogo:

ROGÉRIO NUNO COSTA — Conjugas tudo no mais-que-perfeito (simples, composto ou mistura de ambos), transformas o infinitivo dos verbos em substantivos (sobretudo nos títulos) e substituis "cheio" por "pleno" para dar assim um ar latinizante à coisa. Comprova-se: escreves pooesia!

O ARTISTA RESIDENTE — Esse teu amor passional precisa de fundamentação conceptual…

ROGÉRIO NUNO COSTA (apontando para a porta do Zoom) — A diferença entre dar o cv e dar o cu é quase nula!

O ARTISTA RESIDENTE (cínico, comendo sushi) — Que nigiri que tu és!...

ROGÉRIO NUNO COSTA — Justamente! Eu cá nunca vi nenhuma árvore a morrer de pé. Proponho uma reforma estrutural de todas as metáforas de uso corrente.

O ARTISTA RESIDENTE — Verosimilhança é o conceito que aplicas quando o que vês parece mesmo mentira!

ROGÉRIO NUNO COSTA — Ó meu grandessíssimo paneleirão! Mas tu já viste alguém a cozinhar com o “coração”? Ou com “amor”? (diz isto enquanto abana os dedos freneticamente, como que a tocar air piano)

O ARTISTA RESIDENTE (atirando pó dourado ao ar) — Todos precisamos de um milagre… Em bolo bukake!

ROGÉRIO NUNO COSTA — Do caco, estúpido!

O ARTISTA RESIDENTE (cantando) — Quando eu queria que dissesses sim, deste-me um não que até meteu medo! (repete uma vez)

ROGÉRIO NUNO COSTA (cantando mais alto, mão na anca) — Agora queres mas eu digo assim: chupa chupa chupa, chupa no dedo!

(O número de telefone do Apoio ao Cliente da Sociedade Portuguesa de Autores começa a passar em rodapé. Os dois atores, agora vestidos de Batman e Robin, desatam à chapada pós-dramática enquanto berram “Cala-te!” e “¡Cállate!” alternadamente. Cortina.)


INTERMEZZO
Leitura da sinopse:

“O cosplay é a palavra-valise que aglutina costume com play e refere-se a uma actividade lúdica praticada por seres humanos que gostam de fazer de conta que são personagens. Essas personagens podem vir dos universos anime e manga, mas também dos videojogos, do cinema, da música, do teatro de época (ou da época), da gastronomia (movimento recente que dá pelo nome de cozeplay), ou até da Nightlife™ (movimento também recente que dá pelo nome de corteplay, onde os jogadores fazem de conta que estão MESMO numa festa, que essa festa está MESMO a ser a puta da loucura, e que estão todos MESMO a divertir-se que nem porcos na lama). O objetivo é dar forma (sem conteúdo) a essa ideia genérica e trans-epocal a que damos o nome de meta-festa temática (conceito operativo que está na base de toda a produção cultural/artística desde que o homem é Homem até à atual idade). Como refere Slavoj Žižek…”


(a leitura é interrompida pelo gongo; o público é chamado para a segunda parte da sessão de Fake Yoga™.)



CARNE
O cenário é essa catedral do empreendedorismo artes-anal óleossiponense chamado A Padaria Portuguesa. Várias pessoas de calça arregaçada e sapato-sem-meia comem cenas com rúcula, mozzarella e tomate seco em pão que parece que foi polido, envernizado e retocado em Photoshop. As paredes estão cobertas de monos de plástico a imitar o rústico. Os empregados são todos licenciados em Design: têm todos cara de Helvetica. Os clientes falam uma língua que não dominamos; deve ser €uropeu. Das colunas sai uma música dos Deolinda que desafia o ouvinte a não ir ao CCB. Entra a SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS, vestida com um vestido branco e dourado para os pobres, azul e preto para os que fingem a pobreza que deveras sentem. Traz um microfone-à-Madonna, parece que vai dar uma TED talk, mas fala como se fosse programadora cool’tural. Chama pelo ART’LETA, que entra a correr, mascarado de emergente:

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Ó cagão, anda cá! Estou a pensar abrir um restaurante chamado El Bullying. Que achas? (ri-se)

ART’LETA (com sotaque de todas as regiões do País, menos de Lisboa) — Ai, num sei… Ó Boz! Booooz!!! Puosso responder a iesta porgunta? Boz?!

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — És mesmo deficiente, pá! Não percebeste que a pergunta tinha rasteira? Estava a testar a tua endurance conceptual, ou seja, a tua stamina social, a ver se te aguentas de joelhos (a rezar!) até à próxima saison, ou se és dos que cospe no prato que come à primeira oportunidade!

ART’LETA (ajoelhando-se para receber a medalha de ouro) — Prumiêto resistire à tentaçom de fazêre seija o que fuor cum inspiraçom maijómenos diréta na iárte cuntextuále, na crítica institucionále, e na relaçom do artista cu pudêre. Pêlo que precebi, isso bai sêre a ciêna. E iêu soue intuleránte a ciêna. Quándo istoue em ciêna, fico tuôdo inxádo, hiper-bêntilo e fico cum buntáde de faziêre audições…

SANTA PADROEIRA DOS CLICHÊS — Pronto, já chega! Vai lá distribuir cartazes.

(Saem os dois, de braço dado, a caminho das Galerias. A palavra mais vezes repetida é “interessánte”.)


DOCE
Coro: “Uma da manhã, hey, bem bom, duas da manhã. Bem bom, já três da manhã, hey, bem bom, quatro da manhã. Bem bom, cinco da manhã, hey, bem bom, já seis da manhã. Bem bom, sete da manhã, hey, bem bom, oito da manhã…”. Fumo. Drum ‘n’ bass da pior qualidade possível. Espelhos por todo o lado. Gosma no chão. Os performers caem, intoxicados, um a um, no centro da contemporary dancefloor. Aproximam-se uns dos outros, olhos raiados de sangue, mente vazia; trocam fluidos e abanam a peida ao ritmo de temas trap. Não têm dentes, só língua. No meio do caos, entra Penny Arcade, a fumar 27 cigarros ao mesmo tempo; caminha por cima dos despojos, rindo, dançando:

— São como bandos de pardais à solta… Os put@s… Os put@s...

(sai; nada mais há a fazer senão sair.)


FRUTA
Entro eu, vestido de Facebook. Fico a olhar o público com o mesmo ar condescendente que ensaio ao espelho todos os dias desde 1978. Playbackando a minha própria voz:

— Se somos aquilo que comemos, então também somos aquilo que cagamos.

(blackout.)


DIGI’STIVO
Doem-me os dedos de tanto falar. Interrompo o raciocínio para fazer um último xixipster e escrever, caps lock: NÃO TENTAR ISTO EM CASA. Este texto, que é uma receita para o Sucesso, dirige-se ao olho da rua. É de lá que brotam as palavras que o premeiam. Permeável e premiável são quase homófonos, logo, são quase sinónimos. Os efeitos secundários e terciários seguem em letra pequenina. Só lê quem for paciente, ou quem já tenha perdido a paciência para a Paciência, ou quem já não tenha cu para o sofá. Este texto, que é uma receita, deve ser visto à lupa, portanto. Miopia seletiva. Que tudo o que luz, não é ouro, está só coberto de spray dourado e filtros do Instagram. Que em terra de pobres, quem tem um camuflado é rei. Que o sucesso não é para todos, é para tudo. Que isto é só um exemplo de apresentação: o leite é cola branca e a fruta é de plástico. Que os espetáculos são a frente e o verso, ao mesmo tempo, de uma embalagem de cereais de marca Americana™. Que os mais vendidos são os Lucky Charms, twink’le twink’le little stars com grandes decotes e banha de leitão a escorrer no tronco. Que ler é preciso, mas com moderação. Que não é só a comida que é vegan; agora o turismo também, e a espiritualidade, e a divulgação científica, e a arte, e as trocas económicas, e o desporto, e as ações beneméritas, e o jornalismo. Que é tudo só parra, sem uva. Que é tudo corrido a bife de soja com sabor a porco, a caminhar a passos largos para bife de porco com sabor a soja. Que a mediocridade é o novo avant-garde. Que less, temos pena, é mesmo só less.

Pausa.

Porto™, A Melhor Cidade do Mundo, S.A. é agora um medicamento homeopático embrulhado em papel reciclado com logotipo InDesign e desconto especial para profissionais. Não falha. Como aqueles mega-DJ’s da atualidade Macintosh que se vêem obrigados a fazer erros de propósito para provar que estão mesmo a passar som. Há que acreditar! Com muita força! Que 0,1% de talento diluído em 99,9% de água conta como missão. 

Pausa.

No Porto™, A Melhor Cidade do Mundo, S.A., existem duas receitas para o Sucesso: a “social” (a Vida não imita a Arte, mas o Facebook), e a “artística” (a Vida a ser constante e permanentemente aniquilada pela Arte, mesmo que no Facebook). Não são equivalentes; não se complementam. Que os Artistas não passam de Atores a fazer de Artistas. Que 0,1% de receita artística diluída em 99,9% de receita social conta como missão.

[Parêntesis:
o Futuro™ entra de rompante em cena e faz a cameo appearance mais fugaz da História.
Olha para a cidade em modo rolling eyes e diz:
“LOL”.] 

Só existe uma obra artística, a mais abstrata das abstrações, e a mais poderosa também: o dinheiro. Tudo o resto não passa de carne pra canhão. É preciso chamar os Beuys pelos nomes: somos todos artistas o caralho! Andamos a rir-nos de coisas sérias e ainda temos a lata (uma daquelas latas com rótulo vintage) de ir para as escadas da Assembleia mascarados de neo-punks de Ermesinde queixarmo-nos que fomos violados… Por nós próprios! 

Pausa.

Uma chuva dourada cai agora em cima do público, que fica a olhar o palco à espera que alguém diga: “Já acabou”. Recusa-se a fazer figura d’urso e a bater palmas na deixa errada; recusa-se a ser Público, portanto. Todos os twink’le twink’le little shows que se fazem por aí, depois do sol se pôr e a escuridão esconder os erros de racord e as assimetrias de casting, resumem-se a esse momento de indecisão palerma, a essa redundância que nunca mais acaba, porque nunca começou, que o único género de arte que existe é o género artístico.

Pausa.

Quem vai à guerra (dos mundos), ou dá ou leva; não há terceira via possível. Precisamos da boca para comer, mesmo quando já só comemos metáforas, ou quando já só usamos a língua para falar. E precisamos de continuar a acreditar no Menino Jesus, lutando afincadamente por um assento no anfiteatro do Clube Disney™. Fade Out. O Autor aproveita para fazer uma diagonal ao Sucesso, abandonando o palco pela direita baixa, middle finger em riste, cantando: “Perdoai-os, Senhor, que eles sabem o que fazem”.

RNC, 2015, No Rights Reserved


[Este texto é uma adaptação de outro texto intitulado "Finger Food", originalmente publicado na revista RETINA (Coletivo 111). Esta nova versão, direcionada/dedicada à cidade do Porto, integrou a performance "A Guerra dos Mundos" na forma de texto-de-sala impresso em 4 folhas A4 agrafadas. A performance foi apresentada no dia 14 de Agosto de 2015 no Passeio das Virtudes (Porto) para o programa "Pôr-do-Sol nas Virtudes", organizado pela Sonoscopia Associação.]


quarta-feira, 17 de junho de 2015

FUCK YOUR RULES!


FUCK YOU WORLD,
LOVE LETTER TO LIFE


“If the play had a world it would be a transvestite one”
Rogério Nuno Costa


A British citizen born in London, studying in Manchester with Glaswegian heritage. Neither belonging to a religion nor a political party. I attempt not to make unwarranted judgements or bias associations based on the stereotypes of my culture. Though I made the promise the reality show, written and directed by Rogério Nuno Costa adapted from José Maria Vieira Mendes Third Age, does not follow the same obligation, in fact it commits to the opposite. It comments on society and all its stereotypes through the various characters who play numerous versions of the same. Having just celebrated its 40th anniversary of freedom from the dictatorship, it is refreshing to see a piece of work that defies the dictatorships of theatre. Though it can be argued that the authenticity of a stage production is lost to this work through its playback elements, the challenge it poses to an established industry is far more interesting. There’s a saying that springs to mind ‘blood, sweat and tears’ which is what an audience expects from our performers. We expect that they will have studied a text to the point of no mistakes, a context to give the piece a firm reality that we can escape our lives for the duration of the performance, and when the performer makes it to the stage we expect a whole hearted performance that we believe.

“I don’t like actors”

Do we feel cheated? Or do we embrace the fact that these silent rules of theatre might be a little outdated. Costa grabs the move of a generation desperate to have a voice and floods them into 1 world built by 3 dimensions. The context of a university production, commenting on the rules and obligations of students in order to get a grade, the reality show depicting the obsession our society has with watching people’s lives on a screen, and finally the clash of these ‘worlds’ that causes the apocalyptic chaos that the audience witness. Exposure to this chaos is heard through the ear piercing muddle of sounds, songs and speech. He has taken the responsibilities of the actors away and purposefully replaced it with badly lip syncing puppets, who mock the foundations of the degree they are studying. With playback carrying such a negative entourage it’s a commendable risk to produce an entire play based upon it. Commendable, yet the verdict to its success is still in procession.

“I wrote the piece for them [students]”

When the process for this ensemble started back in February it would have been near on impossible to contemplate the end result. Hours upon hours were dedicated to the experimentation of ideas both presented by student and teacher, a novelty that left ego at the door and replaced it with a mutual respect. Did the play chase an unachievable goal and lack an interest in the things that matter the most? Or did it open your mind to the possibility that the concepts of theatre the world has, have started changing? Terceira Idade proudly waves a flag screaming for war against the expectations of theatre.

Hannah McMillan-O’Brien
[International student, Manchester Metropolitan University] 



SINOPSE INCOMPLETA
PARA UM ESPETÁCULO INCOMPLETO:

Faz-se de propósito para que corra mal; ou para que corra bem. (São sinónimos.) Para que corra a meia maratona, só que à velocidade da luz. Ou para que corra contra o tempo. (O espaço, esse, já era.) Atores a fazer de atores; ou então a fazer deles próprios. (São sinónimos.) Atores a correr contra o texto, a bater contra os móveis, a embater no ruído ensurdecedor do linóleo e dos panejamentos. Atores a resistir à obrigatoriedade de fazer um “bom espetáculo”, ou então a desistir de o fazer, ou então a condenar a desistência ela própria, publicando memes edificantes no Facebook. Atores a resistir à ditadura do “talento”, essa falácia vendida pelo X Factor e pelo The Voice. Atores a humilhar publicamente o espetáculo arranjadinho e polido em Photoshop. (Mas escondidos atrás de uma rede social arranjadinha e polida em Photoshop). Atores cobardes, portanto; mas intrépidos, portanto. (São sinónimos.) Atores levantando o dedo indicador em riste, dizendo: “Para quê cantar ao vivo, se podemos fazer playback?” (O meta-virtuosismo é o novo avant-garde.) Contra a medalhização contemporânea do art’leta, contra a mania da perseguição, contra a rotulagem e a catalogação. Atores a disfarçar muito bem para que ninguém repare, e depois a apontar o dedo indicador ao público, dizendo: “Gostais de ser enganados!” (Pagam bilhetes, propinas e outras chamadas de valor acrescentado propositadamente para isso.) “Terceira Idade”, em caps lock, escreve-se: TUDO FALSO — a verdade é desligada, desfasada, às vezes desfeita. Um espetáculo em diferido, gravado em auto-tune, difundido em auto-correct. Atores que desistem de ser a personagem porque já há apps que fazem isso melhor. Atores-velhos, que decidem ser rebeldes aos 80 anos, fazendo piercings e bunjee jumping. Atores incapazes de memorizar um texto porque só conhecem o sub-texto. E a única frase é: “Vai haver guerra”. Atores inoperativos, inconsequentes, desequilibrados. (Como este espetáculo.) E agora uma frase para aparecer na agenda cultural daqueles jornais escritos para pessoas que não sabem ler: “Isto é teatro dentro do cinema. É cinema dentro da televisão. É televisão dentro do teatro.” E a Internet, no fim, a dizer: “Bitches, please…” 

Rogério Nuno Costa


TERCEIRA IDADE
Um reality show de Rogério Nuno Costa
A partir do texto homónimo de José Maria Vieira Mendes

Adaptação, Dramaturgia & Encenação: Rogério Nuno Costa

Interpretação: Ana Simões, Bárbara Fonseca, Bernardo Providência, Bruna AS, Catarina Gomes, Cristiana Gomes, Daniela Marques, Dário Gonçalves, João Vaz Cunha, Luís Fernandes, Luísa Dieguez, Luísa Maria, Marta Ferreira, Patrícia Almeida, Patrícia Gonçalves, Rita Carneiro, Sandra Barreto, Sofia Silva, Susana Cruz Mendes

Direcção Técnica & de Produção: Simão Barros
Assistência de Encenação: Marcya Leah G.
Cenografia, Adereços & Artwork: Lídia M.

Colaboração: Renato Freitas & Filipa Costa
Apoio Dramatúrgico: Hannah McMillan-O'Brien
Assistência de Cenografia: Henrique Margarido
Produção Executiva: Lídia M., Marcya Leah G., Simão Barros




segunda-feira, 2 de março de 2015

World Wild Web


WTFPL (Do What The Fuck You Want To Public License)
Aplica-se a todas as produções artísticas e intelectuais da "autoria" de Rogério Nuno Costa [aka Riku Nuutti Koistinen aka Chef Rø]




#1
Boa noite,

Gostaria de saber quais os procedimentos a tomar no sentido de cancelar a minha inscrição. Tenciono deixar de ser vosso cooperador, por discordar com alguns princípios fundamentais por vós defendidos publicamente a propósito da "Lei da Cópia Privada".

Aguardo instruções.

Atenciosamente,
Rogério Nuno Costa



#2
Caro Rogério Nuno Costa,

Conforme acabamos de falar pessoalmente, e em seguimento ao seu email de dia 5, venho informar que em conformidade com os estatutos da GDA, se assim entender, pode formalizar a sua demissão como cooperador por via de uma carta registada. De momento não tem valor em Conta Corrente.

Quero desde já agradecer a sua disponibilidade em responder ao email que recebeu da parte do nosso Presidente, sendo do nosso interesse tomar conhecimento do ponto de vista que defende.


Artigo 13º
(Demissão)

1. Os cooperadores podem, mediante carta registada, com aviso de recepção dirigida à Direção, solicitar em qualquer altura a sua demissão da Cooperativa, sem prejuízo da responsabilidade pelo cumprimento das suas obrigações estatutárias.

2. A demissão do cooperador da Cooperativa será obrigatoriamente concedida, desde que se mostre liquidado o saldo da conta corrente do cooperador demissionário.

3. Se a conta corrente acusar um saldo positivo este será pago ao cooperador demissionário.

4. Em qualquer dos casos, ser-lhe-á restituído no prazo máximo de um ano o valor dos títulos de capital realizado.

Com os melhores cumprimentos,
E os meus votos para um excelente ano 2015,
Evelin Kuhnle, Chefe Serviço do Apoio ao Cooperador e Comunicação



#3
Caro Cooperador,

Penso que já terá, ou em breve receberá, confirmação de que os Estatutos da GDA prevêem a possibilidade de desvinculação pretendida. Nem poderia ser de outra forma, uma vez que a liberdade de associação (ou de não-associação no caso vertente) é um Direito Constitucional consagrado!

No entanto gostaria que tivesse em conta que a actividade de Gestão Colectiva dos Direitos dos Artistas Intérpretes ou Executantes, levada a cabo pela GDA, tem uma latitude e abrangência que em muito ultrapassam o caso particular da Cópia Privada, incidindo sobre um leque de Direitos muito mais vasto que procura proteger e equilibrar o valor da Criação Artística face aos interesses e pressões dos “Mercados”.

De facto o “lobby” das grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações, com óbvia manipulação da imprensa tecnológica e da comunidade internauta, conseguiu a nível global fazer da questão da cópia privada uma verdadeira “tempestade num copo de água”!!!

De facto o impacto médio em causa em Portugal é de cerca de 0,7% dos custos de distribuição, irrisório e perfeitamente absorvível pelas margens de lucro dessa mesma industria, capaz de lançar campanhas de 30, 50 ou mesmo 100% de redução de preços, para colocação de novos modelos ou de fidelizações a 24 meses, que os consumidores assumem sem pensar duas vezes!!!

De facto qualquer Tablet ou Smartphone vem carregado, a favor daquelas industrias, de múltiplas “cópias privadas”, na forma de patentes e licenças sobre dispositivos e aplicativos que, quer os usem ou não, os consumidores estão a pagar sem pensar duas vezes!!!

De facto aquelas industrias facturam milhões vendendo mecanismos e “software” cuja única razão de existir é a exploração secundária do trabalho dos Criadores!!!

De facto a questão para as grandes industrias multinacionais das tecnologias da informação e comunicações não é a cópia privada em si, mas sim uma vasta estratégia a médio prazo que procura desvalorizar os “Conteúdos” para capitalizar os “Continentes”!!!

Basta atentar no verdadeiro ESCÂNDALO das remunerações dos Artistas que está em curso no negócio de “Streaming” para compreender o conluio que vai entre aquelas Industrias e as Fonográficas e Audiovisuais, “dossier” que a GDA não vai dar de barato sem uma luta radical…!!!

Agradecemos sinceramente o seu interesse e honestidade relativamente a estas questões e estaremos, seja qual for a decisão, sempre ao seu dispor na defesa dos Criadores e do acesso à Cultura.

Com os melhores cumprimentos,
Pedro Wallenstein, Presidente



#4



#5
Caro Pedro Wallenstein,

Gostaria antes de mais de agradecer a sua mensagem e lamentar a demora na minha resposta. Contrariamente ao que é normal, o início do novo ano foi demasiado intenso profissionalmente. Hoje, e com a ajuda "moral" da recente aprovação pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da “Lei da Cópia Privada”, decidi finalmente responder-lhe.

Em primeiro lugar, creio ser importante referir que a decisão de me desvincular da GDA foi ponderada e teve em consideração o conhecimento óbvio que tenho do âmbito de acção desse organismo e da aplicação financeira que é executada através dos fundos cultural e social que disponibiliza aos seus cooperadores. Não estou, portanto, a reduzir este assunto, nem a GDA, à polémica em torno da Lei da Cópia Privada, ainda que seja essa, e usando um chavão, a “gota que fez esbordar o copo”. Quando, em 2008, decidi inscrever-me, fi-lo por concordar, em abstracto, com os pressupostos que me foram apresentados, e que convictamente aceitei. Ao longo dos últimos anos, porém, e inspirado por um interesse simultaneamente pessoal e profissional, fui estudando várias temáticas que gravitam em torno do conceito genérico de “copyright”, incorporando grande parte desse estudo no meu trabalho enquanto encenador, dramaturgo, investigador e professor. Por razões que não vale muito a pena perder tempo a elencar (a maioria são evidentes, creio), a minha permanência enquanto cooperador da GDA foi-se tornando progressivamente desconfortável, por contrariar de forma linear muitos dos postulados que eram cada vez mais evidentes no meu discurso artístico/ensaístico. Não me vou alargar nesses postulados para ir directo à questão mais recente:

Oponho-me, convicta e informadamente, à Lei da Cópia Privada e, concomitantemente, a todas as organizações privadas de “gestão colectiva” de “direitos” que, através da aplicação, muitas vezes anti-democrática, de taxas absurdas sobre bens que não são sequer “consumíveis”, fazem tábua rasa de uma (r)evolução que não é só tecnológica (é finalmente cultural, porque verdadeiramente democrática), perpetuando sistemas ditatoriais de controlo daquilo que pertence, apenas e só, à esfera privada. Na base dessa Lei e nos argumentos que a sustentam subsiste um conjunto de mal-entendidos muito graves, apoiados na sua maioria por ambiguidades terminológicas — a mina de ouro ideal para a criação de leis incompreensíveis que conseguem fintar os limites do constitucional e assustar o "cidadão comum" com ameaças coercivas. É inacreditável como é que uma máfia organizada conseguiu convencer a opinião pública que copiar um ficheiro partilhado de um filme para ver em casa, por exemplo, é equivalente a “roubar”…

Perante esta conjuntura, não posso deixar de me sentir defraudado (e até envergonhado) quando no passado dia 15 de Setembro de 2014 recebo um e-mail vosso com o título “Cópia Privada – uma comédia de enganos”, no texto do qual se manifestam em prol de algo que contraria a forma como me posiciono, ética e esteticamente, em relação a todo um conjunto de temas dos quais a Lei da Cópia Privada é apenas a ponta do iceberg. Nesse sentido, e só nesse, a minha decisão consubstancia-se na evidência de que não posso afirmar (na forma de espectáculo, ensaio, comunicação pública, aula, post no Facebook, instalação-vídeo, entrevista para um jornal, seja o que for!) algo que será depois derrubado pelas minhas acções, pelos grupos a que pertenço, pelas causas que abraço, pelas petições que assino e, evidentemente, pelos organismos (tenham a natureza jurídica que tiverem) aos quais pertenço ou com os quais colaboro/coopero. Quero manter intacta a minha dignidade ética (que, para mal dos meus pecados, se confunde com a estética), e quero afastar-me do "risco" de um dia vir a ser acusado pelos meus "pares" de cuspir nos pratos que como, ou de ser "hipócrita" (esse tão fácil insulto).

Também não vou rebater os argumentos triplamente exclamatórios que me apresenta !!! Com o devido respeito, não concordo com nenhum, e acho que muitos vêm envenenados pelas ambiguidades que acima referi; não creio que valha a pena, nem para mim nem para si, fazermos disto um Prós & Contras virtual. Despendi imenso tempo a ler tudo o que me foi possível encontrar sobre o assunto para poder tomar uma decisão que é fundamentada em várias frentes (não existem só duas; essa coisa do Bem contra o Mal é um ideal romântico que nunca passou disso mesmo, um ideal…), por isso sei do que estou a falar e sei que não estou a filiar-me de forma cega (como as suas palavras parecem querer depreender) na retórica de um certo grupo de agentes e polemistas que usam a Internet para disseminar uma agenda contra organismos como a GDA. Ainda que me apoie no pensamento e na acção de pessoas como ESTA, a minha decisão é autónoma, socialmente consciente e politicamente independente. Não tenciono transformar isto numa batalha contra a GDA, ou contra aqueles que continuam a compactuar com este sistema, até porque sei que ele, o sistema (e com ele a GDA) têm os dias contados! Sim, alimento uma fé inabalável no Futuro — ESTE, por exemplo, acontece já amanhã! É por isso que este e-mail, e os acontecimentos que o provocaram, fazem já parte de um passado longínquo e retrógrado do qual todos nos vamos rir. Muito...

Agradeço uma vez mais o esforço que fez de me ter escrito este e-mail, e também o esforço da simpática Chefe dos Serviços de Apoio ao Cooperador Evelin Kuhnle de me ter telefonado, mas não existe qualquer vontade da minha parte em reconsiderar.

Com os melhores cumprimentos,



Moral Sponsors:




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

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SLEEPOVER™ is a drug created by quantum lyricist Rogério Nuno Costa, under his Nordic alias Riku Nuutti Koistinen, in 1917. Koistinen theorized that at birth, the human mind is infinitely capable, but each force that it encounters (social, physical, intellectual) begins a process he called "limitation" — a diminishing of that potential. SLEEPOVER™ was designed in hopes of limiting this "limitation", preventing the natural shrinking of brainpower, resulting in people with increased mental, artistic and trans-dimensional ability. Due to the fact that SLEEPOVER™ only prevented the limitation of the mind's potential rather than reversing it, it had to be administered to young dogmatic specimens (whose potential had not yet been limited) in order to produce any results. Well-known entertainer Erwin Schrödinger states that SLEEPOVER™ works by enhancing people's abilities of perception. He explains that reality is the way we perceive the world around us. Following the voodoo master Dr. Phil: “There is no reality, only perception”. Therefore, by changing perception, we change reality. And by changing reality, we allow ourselves to overcome Denial™, to surpass Acceptance™, and finally embrace Gratitude™. However, while normal people can only change their perception, SLEEPOVER™-positives can change other people's perceptions as well, thereby ruling inter-human relational dynamics. Notable politician Marcel Duchamp, under his alias Rrose Sélavy, is an example of this. When his moods changed, his perception changed, and therefore his reality, and Reality™ for that matters, changed: rather than depicting it as it should be, he started revealing it as it IS. Unwittingly, Duchamp caused a change in perception of those around him (people and objects included); by doing so, he was then one of the first cyborgs to travel do the Other Side™, operating the first dimensional clash that eventually led to the destruction of the Great Narratives and subsequently the End of the World™, in 1999. In other words, his moods were contagious, like a reverse-empath. This is how Andy Warhol, one of the most famous Duchamp’s doppelgängers, was able to defuse Walter Benjamin's aesthetically-reproduced Conceptual Time-Bomb™, by reversing time-space lineage and mechanically turning Lascaux’s walls into Macintosh tablets connected to the World Wild Web. As a consequence, the Ancien Régime’s jesters Nicolas Bourriaud, Yves Michaux and Arthur Danto committed suicide. SLEEPOVER™ induces different abilities among test subjects. Riku Nuutti Koistinen developed a psychic link with his test partner Thomas Hirschhorn. In 1891, a 3-year-old Koistinen appears to cause an "incident" in proto-Deleuze and proto-Guattari’s lab, causing a large portion of his room to appear charred or burned, which was perceived by many scholars as “art”. According to proto-Deleuze, this happened because Koistinen was triggered when he became too self-conscious of his own abilities, therefore tremendously anxious and upset, emotions that at the time were categorised as highly creative. In “Epidemic”, Lars von Trier’s first essay on Logics and Semiotics, SLEEPOVER™ subject Thomas Vintenberg grows agitated, and then self-immolates when he is unable to control his pyrokinetic abilities. His identical twin sister Gus van Sant, who also had been part of the Hell-Sink-Ya SLEEPOVER™ trials, was triggered by extreme emotions but able to focus his pyrokinetic ability on Harmony Korine with coaching from Koistinen himself. Terminally-ill Mark Dion, one of the greatest astro-physicists of the Third Dimension™, was even able to exchange energy with his SLEEPOVER™-tested peer Thomas Hirschhorn, just by touching him. This enabled Hirschhorn's condition to improve for a short period of time-space, moving his entire oeuvre from Helvetica (First Dimension) to PetaByte Cursive (Twenty-Seventh Dimension). His step-sister Miranda Julie visited him in First Dimension’s Portland, Oregon, but eventually collapsed and died. After Hirschhorn visited Damien Hirst, Joana Vasconcelos, Avelina Lésper and Slavoj Zizek, each died within minutes of contact with him from aggressive formal tumors. In “The Art Of Bowing To The East Without Mooning The West”, the Imaginary Museum team asked quantum sorcerer John Cage, an undocumented SLEEPOVER™ test subject, to read the mind of unconscious bed-ridden Stockhausen and identify two other suspects — Aalto and Sibelius. In the adjusted First Dimension timeline, Koistinen recalled Subject 3, who after been treated with SLEEPOVER™ was able to perform astral projection, creating distortion in the magnetic field and attract metallic objects who really looked like objects. Subject 3 is Chef Rø, a well-known Portuguese medium. He claimed that he never been able to astral project after the SLEEPOVER™ trial ended; however, the bad side effects eventually led to uncontrolled telekinesis, making him move metal knifes, forks and spoons in a three-dimension canvas. He later helped the Third Way™ Division to displace the energy and create what is now called Re-re-re-Realism [aka Stutterer Realism]. Moreover, SLEEPOVER™ test subjects could be immune to each other's ability. The famous transexual Marina Abramovic was not able to read Duchamp's mind, and young Jean-Luc Godard was not burned by young Sigmund Freud's pyrokinetic outburst. SLEEPOVER™-positives must be activated in order to use their abilities. Riku Nuutti Koistinen mentioned to Schrödinger that he was visited by a "strange man with 27-D glasses", who is presumably responsible for activating him. Schrödinger himself claimed that he was visited by an unidentified man, who told him he could learn to control his cybernoia because of testing done on him as a child in Amares. At the conclusion of “Third Way™”, Koistinen is seen in a drug-induced coma in an unidentified facility. Together with Tom of Finland, his psychic energy allowed him to cross over to the alternate universe. At the conclusion of “Third Way™”, mathematicians Aldous Huxley and George Orwell eventually monitored Koistinen during his immersion in the sensory-deprivation tank in the lab on Bracara Augusta. They noticed that his brain chemistry has spiked, and identified the dormant synthetic compound bound to his neurons. They estimated that it has been there since he was abducted by Portuguese art critics. Testing continued through the Spring of 1896 and Koistinen crossed-over to the parallel universe several times. A combination of love and terror is attributed to inducing his ability. While disintegrating his abusive critics, seven year-old Riku Nuutti Koistinen [aka Rogério Nuno Costa] transitioned to a large forested field, fell in love with a 24-light years old literary robot, and immediately froze. This process was then called Global Cooling™. A spinal tap administered to Koistinen by Samuel Beckett boosted the patient’s residual abilities, who later on appeared to be intertwined with Orson Wells’ code of Aesth(Ethics). From that moment on, he decided not to leave the Twenty-Seventh Dimension ever again, developing a powerful ability to detect fakeness, trickery and fraud.




domingo, 15 de janeiro de 2012

NEWSLETTER

TWENTY TWELVE
#01.




2012 instaura uma nova mudança de paradigma: o Rogério vai-a-tua-casa pertence agora ao regime antigo, que é como quem diz, só será possível visualizar via micro-chip nos locais e datas assinalados. Ao invés, 2012 será da Terceira Via™, cujo estágio inaugural de 3 anos, não remunerado, acabou agora mesmo de expirar, e com ele a era do "talvez" (cujo estágio inaugural de 2 mil anos, sobre-remunerado, deverá implodir lá para Dezembro). No entretanto, o Rogério nem-vai-nem-deixa-de-ir — fica onde está que está muito bem: pós-Dogma, pós-dualidade, pós-documentalidade, pós-processo, pós-projecto, pós-meta-qualquer-coisa, pós-questionamento. No regime novo, a política é a do real (não confundir com Real), ou seja, porque já todas as esferas se elevaram à categoria de Arte (da gastronomia à música pop), o Rogério que nem-vai-nem-deixa-de-ir só quer é ficar. A ver.


sábado, 14 de agosto de 2010

[ u ]

FINLANDIZAÇÃO
SUOMETTUMINEN


[possível entrada para o dicionário da UNIVERSIDADE]



Nem se diz que sim, nem se diz que não; agradece-se! Fica-se caladinho à espera de melhores dias e tenta-se passar despercebido. Um País (ou Nação) “finlandizado” [ou em processo de “finlandização”] é aquele que aceita sem discussão as directivas que lhe chegam de uma super-potência [mais ou menos vizinha, mais ou menos corrupta], sem contudo perder a sua soberania. Numa perspectiva geral, “finlandização” é coisa má: passividade cínica a querer passar por neutralidade “politicamente” correcta. Numa perspectiva finlandesa [logo, não-pejorativa], a “finlandização” prende-se com pressupostos basilares da Realpolitik: sobreviver. Para tal, o País (ou Nação) mantém-se mais neutro e gelado que um fiorde e segue feliz a triste sina de quem precisa de ter as costas quentes [...pois que na Escandinávia o frio é mesmo a sério...], parecendo no entanto não dever nada a ninguém. “Parecendo”... É que isto não tem nada a ver com diplomacia; é demagogia mesmo! Mas com distanciamento crítico; jamais brechtiano... Ou seja, um espectáculo é “finlandizado” quando aceita sem discussão as directivas que lhe chegam de cima, ou então que lhe caem em cima, ou então que estão tão (a)cima que é impossível lá chegar. Sem contudo perder a sua soberania! Um espectáculo “finlandizado” é, portanto, um espectáculo “arcticamente” infeliz [...congelado no seu próprio tempo, não aspira a futuro nenhum...], e hormonalmente desequilibrado e queixoso [...“porque é que os nossos antepassados não escolheram um sítio mais quente para se instalarem?”, the Helsinki Complaints Choir would say...]. Porque não chega a ganhar nada, também nada irá perder, e porque em arte nada se transforma, o espectáculo “finlandizado” é aquele que fica entalado num certo “meio” onde a virtude, definitivamente, não está. É por isso que é um espectáculo frustrado: nem dialéctica positiva, nem dialéctica negativa; e “não-dialéctica” é coisa que não-existeRealpolitikamente, o espectáculo “finlandizado” assina, assim, a sua própria certidão de óbito no exacto minuto em que nasce; é um nado-morto. E isto não tem nada a ver com suicídio; trata-se apenas de uma manobra de charme para chamar a atenção — show off, a querer ser show out. Nunca show on! Porque o espectáculo “finlandizado” só se vê por fora [...tire-me é esses óculos 3D da cara, por amor de Deus!...]; por dentro, a leitura será sempre enviesada... O espectáculo “finlandizado” também não é um género [...porque ‘géneros’ não fazem o nosso género...], e só existe um espectáculo “finlandizado” dentro do género: ESTE. Acto único — morre logo mal nasce. Não existem mais; não existem outros. É triste? É.

[Texto escrito para os tutoriais do documentário em vídeo do projecto Espectáculo de Teatro (2008) e reescrito para a conferência-performance Terceira Via™ | Kolmas Tie™ (2013)]





quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

LABORATÓRIO DE COPYWRONG


COPY, RIGHT?
Right!


—conversa com Rogério Nuno Costa (performer e criador português)



















@Samuel & Ana Barrinha ["MASHUP", 05.12.2009]


RICARDO CARMONA
Olá. Como te disse, estou a fazer um trabalho para um curso que estou a tirar, e decidi fazer o trabalho sobre o copyright, falar sobre uma série de conceitos que lhe estão ligados, um pouco como reacção ao copyright, como o freeware, o opensorce e o copyleft. E como sei que tens abordado esses temas, achei boa ideia falar contigo, especialmente depois do teu último espectáculo: MASHUP.

ROGÉRIO NUNO COSTA
Isso é interessante. Através do conceito de mashup, fui chegando a uma série de coisas, que investiguei na fase de processo. Mas não fiz uma investigação muito profunda; fui até onde as exigências do espectáculo me pediram. Na verdade, interessa-me mais o lado performativo e as questões filosóficas que levanta, mais do que o aspecto político...

RICARDO
Estás inscrito na SPA?

ROGÉRIO
Eu não, nem quero!

RICARDO
Porquê?

ROGÉRIO
Não sinto que nada do que tenha feito até agora mereça ser "protegido" por uma associação de interesses (diria melhor, de interesseiros) que vivem à custa de leis idiotas e que fazem dinheiro às custas da tua suposta "criatividade". Na verdade, não tenho qualquer receio que o meu trabalho possa ser copiado, plagiado, vandalizado, whatever... É para isso que ele existe e é por isso que ele existe, porque ele próprio copia, plagia e vandaliza. Acredito na circulação hiper-referencial de ideias e de conceitos. A crise da originalidade fascina-me, não a pretendo corrigir, superar, ou coisa que o valha, talvez percebê-la melhor...

[Nota de rodapé: Rogério Nuno Costa, no início da página do projecto "Espectáculo de Teatro", tem a seguinte informação: "No rights reserved. Unless otherwise indicated, all materials on these pages are not copyrighted. Any part of these pages, either text, audio, video or images may be used for any purpose other than personal use, without explicit authorization by Rogério Nuno Costa. Therefore, reproduction, modification, storage in a retrieval system or retransmission, in any form or by any means, electronic, mechanical, or otherwise, for reasons other than personal use, is strictly allowed without prior written permission.]

RICARDO
Mas reivindicas uma autoria do trabalho? Estou a falar de um modo mais geral, não tanto neste espectáculo.

ROGÉRIO
Sim e não. Reivindico uma autoria num sentido quase de missão científica ou jornalística. Por exemplo, um cientista que descobre a vacina para uma doença antes incurável tem o dever "científico" de a comunicar ao mundo, torna-se autor de uma descoberta, mais do que uma criação, tal como o jornalista que publica uma história que as pessoas merecem saber. Não é autor da história, é simplesmente um intermediário entre duas coisas...

RICARDO
Ok, então, tens a autoria, mas depois "libertas" para todos usarem...

ROGÉRIO
É mais ou menos assim que eu me posiciono perante a arte que faço de uma maneira geral; já o ano passado ["Espectáculo de Teatro"] tinha trabalhado em cima deste conceito, e na sua possível radicalização, embora a questão do copyright não tenha sido "tema" do espectáculo, era mais um anexo. No MASHUP, era de facto conceito estruturante de todo o projecto.

RICARDO
Na folha de sala dizes que não pediste autorização...

[Nota de rodapé (in folha de sala do espectáculo MASHUP): “A estrutura genérica do espectáculo foi directamente inspirada no imaginário criativo de artistas e companhias internacionais: Forced Entertainment, Pina Bausch, Romeo Castelucci, Alain Platel, Raimund Hoghe, Mathilde Monnier, Rosas/Anne Therese de Keersmaeker, Wim Vandekeibus, DV8, La Ribot, Jérôme Bell, Oklahoma Natural Theater, Eimuntas Nekrosius e Meg Stuart, e nacionais: Teatro Praga, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Vera Mantero, Companhia de Teatro Sensurround, OLHO, Karnart e Casa Conveniente. Limitamo-nos a roubar descaradamente a forma, para depois a preenchermos com os conteúdos que nos interessavam. Não pedimos autorização.]

ROGÉRIO
Não pedi, de facto. Repara, tudo isto me parece uma falsa questão. Não estou a fazer nada que os outros antes de mim não tenham feito; aquilo que se afirma no MASHUP é uma absoluta redundância. Todos nos influenciamos e nos inspiramos noutros artistas de forma mais ou menos directa. A diferença, a existir, reside na intencionalidade e motivação em afirmar donde vêm essas referências e como são utilizadas nos espectáculos que fazemos. É um pouco aquilo que o David Bernardes diz no talk-show: "Se me disseres que outros antes de mim também já fizeram, eu até aceito. Mas eles fizeram, mas não disseram, logo, não fizeram". Sou defensor acérrimo da ideia de que a arte, hoje, sobrevive na sua simples e quase superficial enunciação, ou seja, esta questão de tornar algo visível (a tal dicotomia criação vs. revelação) ...remete-me para a ideia de que não podemos reconhecer o tratamento de certos conceitos retroactivamente, porque se assim fosse, poderíamos reconhecer "performance" na Idade Média.

RICARDO
Durante a peça, dás a entender, pela cena inicial, que os intérpretes são meros executantes... Uma das questões que me tenho deparado é que ao assumirmos os intérpretes dentro da óptica actual, todos os intérpretes são co-autores, e co-criadores e co-artistas (como uma das intérpretes diz no espectáculo); daqui a questionar a autoria de um espectáculo é um passo.

ROGÉRIO
Claro.

RICARDO
Mas tu invertes isso, no início e nas cenas plagiadas, mas depois no fim recuperas a ideia.

ROGÉRIO
O MASHUP vive em cima dessa dicotomia, que é também uma contradição absoluta; começa por ser uma crítica à instrumentalização do papel do actor/intérprete, daí a vontade de ter dissecado a própria palavra: intérprete como executante, mas também como tradutor. Eu tentei dar aos diferentes elementos do espectáculo (actores incluídos) a mesma dimensão dos diferentes elementos que compõem uma composição musical mashup. Repara que os DJs que fazem mashup, para se protegerem dos processos que lhes caem constantemente em cima por parte das editoras discográficas, afirmam que só fazem o que fazem para divulgar os artistas que misturam; é uma forma sublime de utilizarem o sistema para minarem o próprio sistema. Sistema esse que os acolhe quando os mashups se tornam êxitos de Youtube e ganham poder comercial. Muitas vezes são os próprios músicos que encostam as editoras contra a parede, exigindo que os processos sejam retirados.

RICARDO
Sim, é verdade, pois embora toda a gente reconheça a música, no fundo estás a criar uma nova coisa. A soma é mais do que a junção das partes. 1 + 1 = 3.

ROGÉRIO
Sim, mas isso da "nova coisa" é o elemento mais interessante e complexo; eu já andava obcecado com a possibilidade de uma Terceira Via™ desde o "Espectáculo de Teatro", e encontrei no mashup a materialização perfeita, e contemporânea, para esse "paradigma".

RICARDO
Achas que o MASHUP é um espectáculo revisionista?

ROGÉRIO
Revisionista no sentido de querer fazer uma espécie de antologia do que se passou nos últimos anos? Isso não, definitivamente... Aliás, o espectáculo afirma continuamente que não acredita em antologias, prefere procurar uma espécie de essencialidade ontológica. Antologia vs. Ontologia. E comprovar a tese de que NUNCA fomos originais.

RICARDO
Não é bem isso, é mais no sentido da re-criação, re-interpretação e afins... O que fez a Marina Abramovic no MOMA, com os trabalhos do Josef Beuys.

ROGÉRIO
Também não no sentido de re-criação, parece-me; quer dizer, nós tivemos que "re-criar" alguns pedaços de espectáculos antigos, mas isso é mais a questão técnica do espectáculo, que não me parece muito importante.

RICARDO
Sim, tens razão, esse é um outro caminho...

ROGÉRIO
A Abramovic fez um trabalho absolutamente "antológico"...

RICARDO
Sim, mas ao mesmo tempo é um novo trabalho...

ROGÉRIO
Não me parece que tenha sido esse o meu caminho... O "1 + 1 = 3" é mesmo outra coisa!

RICARDO
Será que ela tem copyright do que fez?

ROGÉRIO
Tenho a certeza que sim!

RICARDO
Copyright do copyright!

ROGÉRIO
Não há qualquer "ilegalidade" no trabalho dela, e no nosso também não, embora à superfície pareça que sim.

RICARDO
Mas voltando à questão dos intérpretes...

ROGÉRIO
É evidente que aqueles intérpretes (que estão, justamente, a fazer de "intérpretes", é essa a sua "personagem"...) são co-criadores, no sentido em que contribuíram criativamente para todas as dimensões dramatúrgicas e outras do espectáculo, nomeadamente para a questão da instrumentalização. Eles próprios se posicionaram perante as minhas ideias na condição de meros executantes, de fantoches nas mãos de um jogador de xadrez...

RICARDO
Então é por isso que apareces no fim com a placa de "Encenador Verdadeiro"?

ROGÉRIO
Também! Ainda que a piada venha do facto de termos usado na cena do "Mashup Performativo [espectáculos estreados em Portugal entre 1999 e 2009]" os cartazes que o Teatro Praga usava no espectáculo "Título", no qual se invertiam todos os dados, assumindo-os como falsos. Quando apareço enquanto porta-voz (encenador) daquele trabalho, é para cumprir com o 1 + 1 = 3, então tenho que assumir-me como "verdadeiro". Na lógica do Teatro Praga, dizeres que és verdadeiro num contexto de ficção, estás a assumir que na verdade é falso. É mentira que eu seja um encenador verdadeiro porque estou em cima de um palco a dizer que sou um encenador verdadeiro, logo, sou um falso encenador. Que sou!



















 @Samuel & Ana Barrinha ["MASHUP", 05.12.2009]